Nov 7

Filipeta

Jun 16
icon1 ulisses | icon2 Artigos, Campanha, Defesa Animal | icon4 06 16th, 2014| icon3No Comments »

A Copa 2014 na opinião dos excluídos

“Conhecendo os bípedes humanos, já sei que irão usar e abusar dos fogos de artifícios. Meu tio já morreu do coração por causa do barulhão e o vizinho ficou tão traumatizado que tem medo até de pum de minhoca. Vou comemorar a Copa debaixo da cama.” (Cachorro doméstico)

2

“E eu que nem cama tenho? Vou me borrar na calçada mesmo.” (Cachorro abandonado)

1

“Se a tela da janela do apartamento estiver furada, eu pulo daqui do décimo andar. Gatos, vocês sabem, não se desorientam com o espoucar dos fogos, como os cachorros. Gatos simplesmente enlouquecem.” (Gato de madame)

3

“Antes de pirar de vez, quem sabe dou sorte e encho um festeiro de unhadas, mano.” (Gato de rua)

4

“Não se reclama de barriga cheia, gente! O brasileiro já joga muita comida no lixo, agora vai jogar o dobro. Pra mim, a Copa é um banquete padrão Fifa.” (Rato de lixão)

5

“O povo vai sair mais ferrado desta, eu e minha enorme prole sairemos bem mais gordos. Crescei e multiplicai-vos, ora. E nos Jogos Olímpicos, meus bisnetos irão se esbaldar.” (Rato de esgoto urbano)

6

“Como está sobrando energia no País, mil sóis artificiais brilharão durante as noites de futebol. Com holofotes na cara, não consigo botar um ovo que seja, nem a pau, juvenal.” (Corujas das cidades)

7

“Já avisei minha família: quem sobreviver, se vinga cagando em cima de alguém lá embaixo. Se bem que vai ser só pena que voa, com milhares de rojões atirados aqui no céu.” (Um passarinho anônimo).

8

“Para mim, beleza. Os esgotos a céu aberto continuarão correndo nas comunidades. E a vítima, digo, o brasileiro, alegre e bêbado pelos jogos, vai continuar passando por cima do problema.” (Vibrião do cólera)

9

“No gramado a bola quica, fora dos estádios nóis pica. Obrigado, deus protetor dos aedes aegyptis.” (Mosquito da dengue)

10

“Sempre fui esquecido, agora morrerei em silêncio. Mas meu velório será bem iluminado pelas decorações noturnas e bem decorado pelas garrafas pets.” (Peixinho de parques municipais)

11

“Sufocado de emoção, literalmente, soltarei minha última borbulha com uma bandeirinha plástica do Brasil entalada na garganta.” (Peixinho de rio)

12

“Faço minha suas palavras. Fui.” (Peixinho do mar)

13

“Sei que não adianta nada, mas quero lembrar que o petróleo é resultado da decomposição de milhões de seres primitivos iguais a mim. E que estamos extintos há mil séculos. Não haverá repeteco. Quanto mais Copas, mais a fonte seca.” (Mensagem recebida em centro espírita dos dinossauros)

14

“E depois o único bicho inteligente é o homem…” (Movimento A Natureza Black Bloc)

 15

Ulisses Tavares é um bicho brasileiro que não vai comemorar a Copa. Coisas de poeta.

16

Mar 13

Já fui mordido por cachorro. Ene vezes. Felizmente tive de tomar vacina anti-rábica numa ocasião apenas. E foi na época em que a vacina era aplicada com várias injeções na barriga. A injeção doía mais que a mordida. Nem por isso peguei raiva (o sentimento, não a doença) dos cães.
Cachorros soltos nas ruas tinham em mim, um moleque também criado solto nas ruas, um protetor ou um alvo. Depois de grande, já ativo resgatador de cães abandonados, volta e meia levava uma mordidinha de brinde, nada grave. Coisas, digo, dentadas, do ofício.
Coices de cavalos, muitos também, quase rotina na minha temporada de sitiante plantador de cebolas na primitiva cidade de Piedade. Sem grana para o luxo de um trator, arávamos a terra com tração animal. Queria ver um desses encantadores de cavalos dos filmes e documentários convencer um cavalo xucro (especialmente mulas) a puxarem placidamente um arado. Era, com razão cavalar, corcovear e coices pra todo lado, especialmente o meu lado das coxas.
Mas minhas lembranças dos cavalos, mesmo assim, são doces e bonitas. Um deles, baio baixinho e troncudo, conhecido na região como derrubador de valentes peões, acalmava-se instantaneamente quando meu filho, então com dois anos, era colocado em seu dorso. Vinha gente de toda região se abismar com a cena. Aquele cavalo, “selvagem” entre aspas, era todo delicadeza com o menininho que se agarrava em sua crina para não cair. E, quando meu filho estava no chão, ele não deixava ninguém se aproximar do garotinho.
A seu modo, o baio era mais pai protetor que eu.
Nunca esquecerei, ainda, quando a égua do vizinho deu cria a uma éguinha manquitola. A acolhi, tratei na mamadeira e só me arrependo de tê-la deixado entrar em casa, o que ela continuou fazendo, já bem grandona, para se aquecer em frente a lareira. Limpar cocô de cachorro é fichinha perto de cagada de cavalo no meio da sala.
De aranhas aprendi a gostar e a não temer desde a infância, quando meu pai me levava para seu pesqueiro em Angatuba. Ali, tinha esses seres em todos os lugares, dentro e fora da cabana. Sei diferenciar as picadas aracnídeas e seus riscos. Quanto maior a aranha, mais dolorida, mas sem perigo. Uma pomadinha resolve. As pequeninas e rajadas podem ser até letais, eu as evitava, claro. Nunca desenvolvi o medo de aranhas, nem, ainda bem, das metafóricas, aquelas que designam os genitais das fêmeas humanas. 
Recentemente, tive uma experiência interessante com uma aranha peludona que escolheu o armário de minha despensa para trocar de pele e, dias depois, dar a luz pontinhos pretos cheios de perninhas e vitalidade.
Sumiram a mãe e sua prole, de repente, e minha admiração se fez plena ao descobrir que não sumiram minhas paçoquinhas (meu vício número mil e um) nem meu estoque de biscoitos de polvilho (meu vício número mil e dois). Isso contou pontos a favor das aranhas.
Se fosse o Homem Aranha escondido lá dentro não estaria eu tranquilo em relação a meus docinhos prediletos.
Das cobras, fui vítima apenas uma vez, nadando em uma represa lá em João Pessoa. Era uma coral. Para meu alívio, sem veneno. Morar em praias e restingas de João Pessoa, Salvador e Rio de Janeiro, me tornaram um seguidor da sabedoria prática de pescadores e mateiros: no mar, andar arrastando os pés para espantar arraias e, no mato, andar de botas e com passos pesados para espantar cobras. Cobras são cegas e “enxergam” as vibrações do solo. Se você pisa forte avisando que está vindo, elas fogem.
Aliás, de todos os bichos que conheço, o único realmente traiçoeiro e imprevisível é o bípede humano. Com esse espécime todo cuidado é pouco.
De abelhas enfurecidas (o truque é ficar parado, nada de correr, gente), a carrapatos sugadores (aqui o lance é usar um raminho de vassourinha ou erva de são joão atrás da orelha, os diabinhos grudam no raminho e esquecem sua pele), passando por insetos voadores e sugadores diversos (citronela até que funciona, pero no mucho), fui testado até por macacos sem vergonhas. Morei anos na reserva ecológica de São Lourenço da Serra e os macacos adoravam comer direto nas panelas se a gente deixava as janelas abertas. Um, mais atrevido, me mordeu a mão.
Passando seis meses nas primeiras aldeias mudadas para o Parque do Xingú, nos tempos heroicos dos irmãos Villas-Boas e dos utópicos como o tal do Ulisses aqui, foi que caiu a ficha de vez: terrível mesmo é o pernilongo. Eita, bicho chato. E enigmático.
Qualquer um que não seja bobocamente dominado pelo esteriótipo do índio romanticamente integrado e preservador da natureza (nunca vi, tirando nós, os índios civilizados, ao vivo e a cores, um comportamento mais predador que o dos índios em relação a fauna e a flora) sabe muito bem que a vida na selva é de testar a paciência de um Jó bíblico.
Não pelos perigos da natureza, que isso índio tira de letra. E tira literalmente, tanto que, sabem os geógrafos, quando os portugas predadores chegaram aqui os nativos já haviam acabado com metade da mata atlântica.
Problema são os malditos pernilongos. De todos os tipos, tamanhos e voracidade.
Eles são iguais aos nossos branquelos banqueiros: sugam nosso sangue 24 horas, sem parar.
Um inferno que nem os índios resolveram, com seus 6 mil anos de sociedade estática e comodista e repetitiva. Vão na base do tapinha mesmo ou na fumarenta fogueira.
E nem eu resolvi até hoje, em pleno século dito 21.
Antigamente, quando hippie em Parati, untava minha pele de urucum na tentativa de repelir esses pequenos leviatãs. Conseguia era ficar todo descascado e coçado.
Priscas eras, na Índia, (novamente eu, iludido, não enxergava a crueldade nua e crua grudada e disfarçada na espiritualidade indiana) vi uma solução funcional e nojenta: os saniasis, homens santos, aqueles que perambulam pelados, despreendidos ou mansos psicóticos, cobrem seus cabelos com bosta seca de vaca, repelente natural. Para eles, dá certo. Em mim, repeleria os amigos e musas.
Pano rápido, aqui e agora.
Trabalho em casa, poeta 24 horas que sou, por sobrevivência e gosto. Preferia que fossem seis horas por dia, mas daí não pago os impostos e me enchem de multas e cobranças. O feijão externo impera sobre o sonho interno. Me equilibro na lâmina da faca milenar de Eros e Tanatos.
Minha casa é pequena mas bem bacaninha, com quintal cheio de flores, passarinhos e computador último tipo.
Adoro escrever com pouca roupa, pelado se não estiver esperando visitas.
Os passarinhos citadinos de meu quintal são da geração maquidonald e preferem as frutas que coloco pra eles todas manhãs em vez de caçar os pernilongos.
A única habitante, além de mim, que trabalha nesse sentido é a tetraneta da Genovava, minha lagartixa de estimação.
Só que ela não dá conta dos enxames de pernilongos que atacam minhas partes expostas a sua sanha alimentar.
Daí, encurralado, comprei e muito uso uma raquete elétrica que eletrocuta os invasores.
Putz, pra quê?
Fiquei, como budista, espremido entre minhas convicções e minha prática cotidiana.
Budista não pode matar nenhum ser sensciente. Ou seja: qualquer ser vivo, pois todos tem a mesma capacidade de sentir prazer, dor e medo.
E o pernilongo, gostemos ou não, está nessa categoria, como todos os outros que voam, nadam, rastejam ou andam na face da Terra.
Pior é que adoro quando extermino com esses insetos. Plac, plac, bzz, bzz.
Posso estar, budisticamente falando, matando meus antepassados reencarnados.
Pesquisando, meditando e tentando saída para essa escolha de Sofia, dilema ético, não achei nada a favor dos pernilongos.
Eles, em suas mais de duas mil variações, matam (por serem vetores de doenças) cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, por ano, malária, dengue etecétera. Nas ilhas do Caribe, século 19, acabaram com todos mamíferos.
O problema é que não são eles, mas elas. Apenas as fêmeas pernilongais nos sugam, e contaminam, o sangue.
Os machos lambem e se alimentam da seiva das plantas, pacificamente.
Como é que eu posso saber se não matei o pernilongo errado para me defender?
Sei lá. É a primeira vez que odeio e ataco um animal, um ser vivo, em toda a minha vida.
Nem ainda consegui resposta para o que serve um pernilongo na cadeia alimentar natural.
Parece que pra nada, exceto seus propósitos de se perpetuar.
Um mistério a ser decifrado, já que surgiram há milhões de ano e continuam aí, como as baratas e as bundudas alienadas dos bebebês televisivos.
Fiz até um poeminha pra essa praga: “Nada sei/sobre a vidinha do pernilongo/que mato, indiferente, na parede/Mas desconfio/Que era a única que ele tinha.”
Epitáfio deles, pedido de perdão meu. 

Ulisses Tavares é um pernilongo confuso sobre seu papel no mundo. Coisas de poeta.

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Oct 23

Beagles unidos jamais serão vencidos

Meu coração vibrou com o resgate dos coitadinhos dos beagles, claro.
Mas em seguida minha cabeça deu o alerta:
No mundo inteiro esse tipo de ativismo direto, invasivo e causador de danos, infelizmente não tem dado certo.
Sem maiores considerações filosóficas (por que é evidente que os animais não poderiam, nunca, serem submetidos ao capitalismo nojento da indústria farmacêutica), ações anteriores sempre resultaram na punição dos bem intencionados.
Aqui e lá fora, a Lei fica do lado dos malvados e pronto.
Como diz o ditado americano, é a economia, estúpido!
Alguns cachorrinhos a menos para os bandidos que, em seguida, prosseguem suas experiências, lícitas mas imorais, até em maior escala.

Talvez haja um jeito porém de fazermos desse limão azedo uma limonada bem grande e doce que refresque a barra dos nossos indefesos amiguinhos de quatro patinhas:
O boicote  de todos os produtos experimentados naqueles campos de concentração tipo Royal.
Se todos nós, os bípedes humanos conscientes da gravidade e crueldade da situação, deixarmos de comprar os produtos lá testados atingiremos o único órgão sensível desse leviatã moderno: o bolso!
Então, aproveitando o impacto da recente invasão repercutindo na mídia, mudaremos o foco da discussão para o que realmente interessa.
De minha parte, começarei agora mesmo, enviando uma lista das empresas e seus produtos que fomentam esses “centros de pesquisa”.
Claro que o Sistema vai reagir exibindo seus rôtos argumentos de necessidade de testar os cosméticos e remédios em bichos para a segurança dos consumidores, blábláblá.
Que se danem: não precisamos deles.
Eles sim é que precisam de nós, consumidores.
Ou param com essa prática escrota ou paramos de dar dinheiro para seus sanguinolentos cofrinhos.
Acham que a indústria cosmética, por exemplo, não irá rever seus processos de testes quando a mulherada souber que está passando nas unhas, nos lábios e na pele, melecas resultantes do sofrimento e da morte de peludinhos inocentes?
Daí saímos dessa categoria vulnerável de ecoterroristas para a nossa real condição: a de seres humanos que amam, acolhem, respeitam, e apenas querem proteger os seres não humanos de nossa doente civilização.
Nosso desespero, e indignação, é tão legítimo que não merecemos ficar apenas na defensiva ou no ataque esporádico.
Primeiro é levantar a lista das empresas e seus produtos. Depois botar a boca no trombone, divulgar, discutir, espalhar, questionar, sem parar, o tempo todo. Até que o tempo, senhor da razão, acalme essa tempestade de insensatez que assola o único mundo que temos.
De nosso sonho, duas patas convivendo em harmonia com quatro patas ou duas asas, nossos inimigos darão risada. Da dura realidade de não ter mais lucro fácil irão chorar.
Simples mas eficiente assim. Transformar nossa fraqueza em força, a única força que o outro lado entende e respeita: a do dinheiro, do poder de comprar.
Alguém me acompanha?

Ulisses Tavares, depois de décadas de militância animal, é um dócil beagle aprendendo a morder.

Aug 15

Com quem fica nossa criança de quatro patas?

Já passei por essa situação, corriqueira, mas dolorida, ene vezes. Por conta de minha sede e fome de vida plena, e por colocar o coração acima da razão, casei e descasei a perder a conta. Até aí tudo bem, nada a surpreender na vida de um poeta em tempo integral. Faria, e acabei de fazer de novo, sem pensar duas vezes.
Mulheres e musas passam. Algumas como o vento, brisas leves, outras como maremotos, tsunamis a devastar meus planos e sonhos. Todas desejadas, bem-vindas, amadas, amigas, amantes e companheiras desse navegar por um mundo hostil e consagrado ao deus mercado. Até que o navio encalha e cada um procura voltar a seu porto como der e puder, de iate, jangada, ou remando ou nadando ou andando e se lixando. De tempos em tempos, nos atracamos novamente. Porque amor não morre, apenas dorme ou fica escondido ou sonhando de olhos abertos.
O amor tem suas próprias leis, fluidas, escritas na areia da praia, das quais continuo apenas aprendiz de marinheiro.
Mas cachorros não passam. Gatos não passam. Animais de estimação nunca passam.
O que fazer com eles numa separação?
Esse é o problema. O resto é de solução bem mais fácil, embora sofrida: um vai para lá, outro vai para cá. E pronto. E ponto final ou reticências nos tribunais.
A relação entre os bípedes humanos acaba. Animais, porém, são fiéis até a morte. Instintivamente românticos por natureza. Para eles, o clichê do felizes para sempre é cláusula pétrea de seus corações felinos ou caninos, indiscutível.
É deles a superioridade de terem amor que resiste a qualquer intempérie, qualquer mudança do destino.
Agradeço sempre ter tido o privilégio de namoradas, ficantes e cônjuges, nunca criarem problemas quando o assunto era sobre quem vai ficar com o cachorro ou o gatinho.
Apenas uma ex, vingativa, para me punir, claro, descarregou sua raiva separando dois cães maravilhosos que tínhamos em comum e se adoravam.
O que ficou comigo morreu de câncer, o que ficou com ela também, pouco tempo depois. Coincidência ou aviso de tragédia anunciada? O que para nós é figura de retórica, para os peludinhos é literal: definham e morrem por abandono e falta de lar e aconchego. Tristeza e saudade nos afligem a alma. À eles, também o corpo.
Do alto, ou baixo, do que o amor e a dor me ensinam, me atrevo a aconselhar casais em vias de separação: discutam menos quem é culpado do que, quem errou de mais ou de menos, e outros quejandos que em nada contribuem para a paz futura, e se concentrem sobre o que fazer com os filhos de quatro patas e mil amorosidades e alegrias e cafunés em comum.
Nada de privar seu, ou sua, ex, de compartilhar a criança peludinha.
Entrem num acordo, como fariam se fosse o impasse sobre um filho ou filha. Filho e filho eles foram, são e serão.
Se a barra do diálogo estiver pesada, estabeleçam dias de visita, ao menos. Ou, mais bacana, deixem a porta aberta para a visita aos rabinhos balançantes.
Decidam com o coração esvaziado de raiva e frustração.
Os filhos e filhas de quatro patas amam e amarão os dois, independente de vocês não mais se amarem e se bicarem.
Animais de estimação não merecem, nunca, pagar pelos nossos erros, egoísmos e desacertos.

Ulisses Tavares pode até ser um exemplo de marido volátil. Mas nunca de um tutor ausente. Coisas de poeta.    

Separação Cachorros

Arte: Claudio Duarte

Feb 21

Meu cachorro me sorriu latindo. Literalmente 

Na história da música popular brasileira, nenhum outro fez tantas músicas sobre ecologia e animais como o rei Roberto Carlos. Isso bem antes, muito antes, da consciência ambiental e da defesa dos animais virarem assuntos na realidade midiática virtual e real.
Em um de seus versos mais memoráveis, ele cantava (em 1974 até eu era jovem e cabeludo naquele século passado, rs): “Meu cachorro me sorriu latindo…”
O compositor já anunciava o que todo mundo que convive com cachorros também já sabia:
Cachorro sorri, latindo. Pede para passear, latindo. Convida para brincar, latindo. Avisa que está com fome, latindo. Revela seus desagrados e dores, latindo.
E, do início ao fim da relação íntima e diária, cada bípede humano aprende a diferenciar os diferentes timbres e significados dos latidos de seu cão.
Então, que nossos peludinhos falam latindo não é novidade.
A grande revelação é a ciência (leia-se: biólogos e quejandos) finalmente reconhecer que nem o rei nem nós, cachorreiros, estávamos imaginando ou exagerando a realidade da comunicação canina.
Cachorros falam latindo e latem falando, de verdade, claramente, em alto e bom som.
O que as pesquisas científicas recentes trouxeram à tona, também, foi um fato que muita gente ignora: os cães aprenderam a latir única e exclusivamente para se comunicar com os animais humanos, essa espécie que os acolheu, cuidou e alimentou nos últimos 15 mil anos.
É surpreendente e delicioso lembrar que os peludinhos não aprenderam a latir para os outros irmãos peludinhos. Mas sim para serem compreendidos por nós, os peladinhos.
A linguagem que um cão usa com seus pares não é o latido.
Usa a postura, o olfato, o movimento corporal etc.
Não existe outra espécie que tenha desenvolvido uma linguagem específica para nos contar como se sente e o que deseja.
Uma cabra entende o balido de outra. Um boi entende o mugido de outro. Um pássaro entende o canto do outro. Um macaco entende o grunhido do outro. Até o tetravô dos cães domésticos, o lobo, entende o uivo do outro.
Mas um cão não entende o latido de outro cão. Quando seu cachorro late para outro cachorro é apenas para avisar você sobre o intruso no pedaço.
E a comunicação entre cachorros e humanos é tão aprimorada que só aqueles são capazes de interpretar os olhares e gestos deste.
Se você olhar ou apontar para um lugar onde está escondido o petisco de seu cão, ele vai direto para lá. Não precisa de treinamento algum. Faz parte de suas habilidades inatas.
Nem nossos queridos primos, os chimpanzés, conseguem esse tipo de proeza.
E um simples vira-lata se mostra capaz de atribuir significado, portanto, compreender, até 165 das palavras que pronunciamos.
É bastante vocabulário se levarmos em conta (isso também é estudo científico disponível nos googles da vida) que o adolescente de hoje utiliza apenas 350 palavras em seu dia a dia.
Por isso da próxima vez que seu amiguinho canino latir, preste mais atenção. É com você mesmo que ele está falando. 

Ulisses Tavares adora bater papo com um cachorro. Coisas de poeta.

Oct 1

Marcha pelos Animais SP 29/9 – Escritor e ator Ulisses Tavares participou com interessante cartaz. Na web, mais de dois mil confirmaram presença na passeata. Apenas 60 gatos pingados compareceram. Mas é assim mesmo: grandes mudanças começam aos poucos e com poucos. – Foto: Roberto Aoike

 

Sep 3

Nesta noite de domingo ele dorme, como sempre, aqui no meio da sala.
Só que, desta vez, não irá acordar nunca mais.
Meu melhor amigo, o Ferinha Mel, morreu da maneira que viveu: como um anjinho.
Olhando seu corpo peludo, sua carinha de criança cheia de cabelinhos brancos, meu coração encolhido, angustiado, exausto pelas tentativas de hoje a tarde, no mercenário hospital veterinário, de espetar e entupir seu combalido ser de remédios e soros, penso que atendi seu último desejo, no último olhar que me dirigiu.
Em nossa comunicação visceral, entendi o que me disse:
Pai, me tira desse lugar, quero partir lá onde aprendi a ser feliz desde filhotinho. A nossa casa.
Ferinha Mel nunca teve uma casinha de cachorro, teve é uma casa inteira para o cachorro.
Tanto que agora há pouco a veterinária insistiu em leva-lo de volta ao hospital e eu, em nome dele, recusei.
Nem daria tempo: seu coraçãozinho parou de repente, cercado de pessoas que o conheciam e o amavam.
Vai ficar o profundo vazio de sua presença física, sei, claro.
Meu grudinho. Meu pançudinho. Meu encrenquinha. Meu melhor amigo. Meu filho. Meu amor.
Neste velório íntimo e dolorido, em que minha alma escorre em lágrimas, continuo sabendo o que ele quer.
Que eu me lembre que ele só veio parar em meus braços para me alegrar, repartir, consolar, se doar e agradecer as zilhões de pequenas coisas que compartilhamos.
Foi ele quem me estimulava a defender os animais, todos.
Foi ele quem me mostrou que não há dia ruim que não melhore diante de uma boa lambida.
Foi ele quem me ensinou a abanar mais o rabinho e rosnar menos.
No céu dos cachorrinhos, continuará a fazer isso.
E na terra fico eu com seu legado, sua herança abençoada, sua sabedoria de carpem diem.
Ferinha Mel apenas finge que morreu, o sapequinha.
O safadinho sabe muito bem que continua aqui, para o resto de minha vida.
Uma vida que, confesso, me parece no momento bem triste.
Mas não é o que ele me deseja.
Por isso prometo: quando ficar vendo o mundo cinzento demais, chamarei por ele e suas vívidas lembranças.
Não há adeus, portanto, apenas a humana dor da perda.
Ferinha Mel, tenho apenas tudo a agradecer. 

Ulisses Tavares tem agora vivo dentro do peito o Ferinha Mel a lhe consolar, ensinar. Como sempre foi e será.

Jun 29

Se falou e muito dos animais bípedes denominados índios. Sim, aqueles mesmos que ficaram milênios tocando fogo na floresta, comendo macacos, numa boa, até que vieram os portugueses, ora, pois, e ensinaram maneiras mais eficazes de acabar com a vida. E, sim também, aqueles mesmos que nos legaram a sua dita cultura: quem não é da nossa tribo, nós matamos. Hoje não matam como antes, mas se dedicam a revindicar benesses governamentais e a continuarem a viver como índios, mas sem pagar impostos nem trabalhar e nem serem enquadrados pelas leis dos animais civilizados. Ìndio não quer mais apito nem espelhinho nem facão de aço: quer é viver como aqueles portugas e holandeses ensinaram. E os animais de verdade, a natureza? Ah, esses e essa estão aí como sempre estiveram, para nos servir.

Se protestou e muito sobre a economia verde. Vai acabar com a economia dos coitados dos bolivianos, que plantam coca numa boa. Dos paupérrimos afegãos que ganham seu suado dinheirinho cultivando papoulas que virarão ópio. Dos africanos que vivem na idade da pedra, em que havia mato a desmatar e animais para encher a pança.

Se evidenciou o papel das ongs ambientalistas, todas doidinhas por um holofote. Só que nenhum animal bípede e pensante tocou na ferida: apenas no Rio de Janeiro fevereiro e carnaval, existem duas ongs para cuidar de cada um dos mamíferos infantes das ruas. Eles continuam nas ruas, as ongs em seus feudos, pedindo mais verbas.

Se levantaram bandeiras sobre a raça negra. Como se os negros não fizessem parte da raça humana. São os negros o que, então? Uma raça de animais à parte, especial, com direitos diferenciados? Não viemos todos, negros e brancos, dos primatas, da família dos macacos? Novamente, negar a ciência, a biologia, a história, dá grana e seguimos, predadores que somos desde a origem, negros e brancos a encher o saco e o cofrinho.

Se deu voz as mulheres. Ninguém ouviu nenhuma fêmea acasalada dizer que era cúmplice de seu próprio espancamento, por amor, claro. Nem uma fêmea humana parideira contar que treinou seu filho, desde criancinha, para ser um machista predador.

Se ocuparam as grandes empresas em mostrarem como são auto-sustentáveis. Pelo visto, são todas anjos capitalistas que tiram seus lucros das tetas da mãe terra, mas se preocupam com ela, desde que ela não diminua seus rendimentos. Não serão elas a chorar pelo leite derramado.

Se mostraram solidários todos os partidos políticos. Nem precisavam. Afinal, todo mundo sabe que eles adoram o verde. O dólar não é verde?

Se aproveitaram os movimentos alternativos para protestar em vistosas e festivas passeatas. Com isso provocaram imensos congestionamentos e imensas descargas de gás carbônico. Isso que é ser ecológico.

E os animais, sim, os bichos de verdade, os não humanos?

Ah, esses ficaram de fora, como sempre. Só foram lembrados nas churrascarias, para onde todos os participantes foram comer.

Os que ocupam o topo da cadeia alimentar sabem o que fazem: explodir o mundo e posar de bonzinhos.

Bem que o poetinha quixotesco aqui tentou alertar. Até com o aval de seu currículo de autor de livros e manifestos a favor dos índios, dos negros, das mulheres, da democracia, em tempos em que isso tudo não era assunto palatável.

Mas quem liga para bichos e poetas hoje em dia?

Ulisses Tavares pede desculpas a todos os outros animais pelos animais hipócritas que somos. Coisas de poeta.

Jan 23

Dom, 22 de janeiro de 2012
Fonte: ANDA

Um dia histórico para a defesa dos direitos animais. Manifestações simultâneas em mais de 170 cidades brasileiras marcaram o domingo como um dia de luta pela punição contra crimes aos animais. Em São Paulo, o protesto reuniu mais de 20 mil pessoas. Ativistas, integrantes de ONGs, protetores independentes, artistas, mas, principalmente, cidadãos comuns, que não pertencem a nenhum movimento e pela primeira vez foram às ruas emprestar sua voz e seu apoio aos animais que precisam ter seus direitos reconhecidos.

Ulissescão na passeata contra a crueldade.

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