Com quem fica nossa criança de quatro patas?

Com quem fica nossa criança de quatro patas?

Já passei por essa situação, corriqueira, mas dolorida, ene vezes. Por conta de minha sede e fome de vida plena, e por colocar o coração acima da razão, casei e descasei a perder a conta. Até aí tudo bem, nada a surpreender na vida de um poeta em tempo integral. Faria, e acabei de fazer de novo, sem pensar duas vezes.
Mulheres e musas passam. Algumas como o vento, brisas leves, outras como maremotos, tsunamis a devastar meus planos e sonhos. Todas desejadas, bem-vindas, amadas, amigas, amantes e companheiras desse navegar por um mundo hostil e consagrado ao deus mercado. Até que o navio encalha e cada um procura voltar a seu porto como der e puder, de iate, jangada, ou remando ou nadando ou andando e se lixando. De tempos em tempos, nos atracamos novamente. Porque amor não morre, apenas dorme ou fica escondido ou sonhando de olhos abertos.
O amor tem suas próprias leis, fluidas, escritas na areia da praia, das quais continuo apenas aprendiz de marinheiro.
Mas cachorros não passam. Gatos não passam. Animais de estimação nunca passam.
O que fazer com eles numa separação?
Esse é o problema. O resto é de solução bem mais fácil, embora sofrida: um vai para lá, outro vai para cá. E pronto. E ponto final ou reticências nos tribunais.
A relação entre os bípedes humanos acaba. Animais, porém, são fiéis até a morte. Instintivamente românticos por natureza. Para eles, o clichê do felizes para sempre é cláusula pétrea de seus corações felinos ou caninos, indiscutível.
É deles a superioridade de terem amor que resiste a qualquer intempérie, qualquer mudança do destino.
Agradeço sempre ter tido o privilégio de namoradas, ficantes e cônjuges, nunca criarem problemas quando o assunto era sobre quem vai ficar com o cachorro ou o gatinho.
Apenas uma ex, vingativa, para me punir, claro, descarregou sua raiva separando dois cães maravilhosos que tínhamos em comum e se adoravam.
O que ficou comigo morreu de câncer, o que ficou com ela também, pouco tempo depois. Coincidência ou aviso de tragédia anunciada? O que para nós é figura de retórica, para os peludinhos é literal: definham e morrem por abandono e falta de lar e aconchego. Tristeza e saudade nos afligem a alma. À eles, também o corpo.
Do alto, ou baixo, do que o amor e a dor me ensinam, me atrevo a aconselhar casais em vias de separação: discutam menos quem é culpado do que, quem errou de mais ou de menos, e outros quejandos que em nada contribuem para a paz futura, e se concentrem sobre o que fazer com os filhos de quatro patas e mil amorosidades e alegrias e cafunés em comum.
Nada de privar seu, ou sua, ex, de compartilhar a criança peludinha.
Entrem num acordo, como fariam se fosse o impasse sobre um filho ou filha. Filho e filho eles foram, são e serão.
Se a barra do diálogo estiver pesada, estabeleçam dias de visita, ao menos. Ou, mais bacana, deixem a porta aberta para a visita aos rabinhos balançantes.
Decidam com o coração esvaziado de raiva e frustração.
Os filhos e filhas de quatro patas amam e amarão os dois, independente de vocês não mais se amarem e se bicarem.
Animais de estimação não merecem, nunca, pagar pelos nossos erros, egoísmos e desacertos.

Ulisses Tavares pode até ser um exemplo de marido volátil. Mas nunca de um tutor ausente. Coisas de poeta.    

Separação Cachorros

Arte: Claudio Duarte

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