Poesia: A melhor autoajuda

Poesia: A melhor autoajuda 

Calma, esperançoso leitor, iludida leitora, não fiquem bravos comigo, mas ler autoajuda geralmente só é bom para os escritores de autoajuda.
Porque não existe receita para ser feliz ou dar certo na vida.
Sabe por quê?
Porque apenas você sabe o que é bom e serve para você. O que funciona pra um nem sempre funciona para o outro.
Os únicos livros de autoajuda que dá para se respeitar, e são úteis mesmo, são aqueles que ensinam novas receitas de bolo, como consertar objetos quebrados em casa ou como operar um computador.
Ou seja, lidar com as coisas concretas, reais, exige um conhecimento também real, tim-tim por tim-tim, item por item.
Com gente é diferente.
Gente não vem com manual de instruções quando nasce. Nem pra viver nem pra morrer.
E se você precisa de conforto ou de conselhos, existem caminhos bem fáceis e boa parte deles de graça: igrejas, templos, botecos ou…amigos, parentes, lembrou?
Se alguém anda necessitado de regras, palavras de ordem e comandos enérgicos sobre o que fazer, melhor entrar para o exército.
Mas se você não quer deixar ninguém mandar em você, tenha coragem e encare-se de frente.
Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas.
Elas sempre correm juntinho, coladas em você.
Tentar ser perfeito, fazer o máximo, transformar-se em outro, dói mais ainda.
Colar um sorriso no rosto enquanto chora por dentro é para palhaço de circo.
Portanto entregue-se, seja apenas um ser humano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições.
Você é um ser humano, queira ou não. Não apenas um coelhinho transador ou um japinha trabalhador. Então, aproveite e use algo que, isso sim, com certeza, é igual em todos nós:
A capacidade de imaginar, de voar, se entregar.
Se nem Freud te explica, tente a poesia.
Ah, e a poesia vai resolver teus problemas existenciais?
Provavelmente não.
A poesia às vezes é como aquele bordão do Chacrinha, não veio pra explicar, mas pra confundir.
Quando acerta é por acaso, como na vida.
Ficar confuso é o normal, relaxe e aproveite.
Você não precisa ajeitar o casamento. Precisa é amar.
Você não precisa ser super na cama. Precisa é gozar.
Você não precisa de um super salário. Precisa é gostar do trabalho.
Selecionamos alguns trechos de poemas que provavelmente falam das respostas que você anda procurando em livros de autoajuda.
Tomara que ajudem.
O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os mistérios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que onde quer que ele fosse ou olhasse um poeta já havia passado por ali.
Então, venha junto com os poetas que indicamos aqui.
O sábio Mário Quintana já dizia que um bom poema é aquele que nos dá a impressão que está lendo a gente…e não a gente à ele.
Estão todos na livraria, biblioteca ou página da internet mais próxima.
De propósito, não selecionei nenhum medalhão ou desses poetas que estão em muitos livros escolares, como eu. Poesia está mais pra lição de vida que lição de casa.
E depois vá em frente. Procure outros poetas.
Você nunca mais estará tão sozinho a ponto de achar que precisa de um livro de autoajuda para mostrar o caminho das pedras.

 

Auto-Piedade: 

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim…
(Glauco Mattoso – ”Confessional”)


Adeus amor:

Nem que a vaca tussa
Quero mais tua fuça…
Mas por dentro o coração soluça.
(Leila Míccolis – “As aparências enganam”)


Acasalamento:

Comigo é assim:
ficar olhando não basta. Vou logo
precipitando borrasca e estrela.
Que se cuide o olhar alheio quando
olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
peço café e pijama, e fico pastando
com esse olhar de boi manso
no breve espaço da cama.
(Affonso Romano de Sant’ana – “Limitações do flerte”)


Envelheci:

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.


Autoestima:

eu não preciso
que você goste
de mim
autoestima
é isso?
(Nicolas Behr – “Autoestima”)


Amar é…

noite de chuva
debaixo das cobertas
as descobertas
(Ricardo Silvestrin – sem título)


Bombando:

Não vou
morrer de enfarte
em plena festa
nem de fome
nesta fartura.
Quando sou
a última estrela que me resta,
resolvo brilhar
e aí ninguém me segura.
(Bráulio Tavares – “Palco iluminado 2?)

 

Convicção:

desta vez fiquei certamente confuso
mas disto estou certo
antes não estava certo de estar confuso.
(Cacaso – ”Espelho Mágico”)

 

De profundis:

Por dentro de mim
onde
não existo mais.
Por dentro
onde não caibo.
Tão fundo
como se não fosse.
(Álvaro Alves de Faria – “Vagas lembranças, 24?)

 

Envelhecer:

Da infância, meu amigo:
Você aventura gostoso
E nunca pensa em perigo!
Mas depois quanto mais cresço
e quanto mais envelheço
mais segurança persigo
mais aparece perigo!
(Domingos Pellegrini – ”Orações e Saudades”)

 

Indecente:

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos matam sutilmente
são muito mais imorais,
são muito mais indecentes.
(Leila Miccolis – “Ponto de vista”)

 

Meu e teu:

o meu e teu
num momento
é só meu
e teu e meu
num momento
é só teu
(Marcelo Tápia – “eu/eu”)

 

Paixão:

Aos apaixonados não faz falta o mundo.
A um apaixonado não faz falta nada.
A não ser o outro. Junto.
(Cairo Trindade – ”Exílio”)

 

Mulher de trinta:

Deus, dai-me
Paciência de novo
(eu preciso)
amor, amores, amigos
felicidade, sempre
filhos, um dia
sexo selvagem
o vil metal
e muitas viagens
(Carla Bonfim – “Oração dos trinta anos”)

 

Narcisa:

Quando me olho no espelho,
Sou pomba capaz de voos
E arrulhos.
(Raquel Naveira – sem título)

 

Ninfo:

Dia sim, feliz da vida,
passo carmim, vou pra varanda.
Dia não, bem deprimida,
deito no chão, tudo desanda.
Dia sim?
transo com todo mundo.
Dia não?
também e a todo instante.
É que em matéria de sacanagem
eu já sou bem constante.
(Laura Esteves – “Inconstante”)

 

Racismo:

Disseram: às vezes um negro compromete o produto.
Ela soube que inventaram que o povo do Brasil comprador
É branco, só pode ser branco. O branco total. O branco maior.
A não ser que amanhecesse branca…
Loura, cabelos de seda shampoo…
Mas a sua cor continua a mesma.
Ela sofreu. Eu vi. Sofri.
Luther Marketing, Luther Marcheting
Luther Marketing no Brasil.
(Elisa Lucinda – “Ashell a shell pra todo mundo Ashell”)


Tudo se repete:

travesseiro novo
primeiras confissões
a história do antigo
(Alice Ruiz – sem título)


Voo duplo:

onde vou

levo-me
onde sou
nós
voo
ao fundo
(Frederico Barbosa – “Nós/Paisagens, 4?)

 

Dicotomia:

Como você pode ver,
o lado direito da minha
boca é alegre.
O lado esquerdo é triste.
Assim também são
os meus olhos.
(Celso de Alencar – ”Fotografia rasgada”)

 

Curioso:

uma geração pulou no abismo
mas você foi mais adiante
ou saltou mais fundo
levantou a tampa da vida
para ver o que havia por baixo
para ver que não havia nada embaixo
(Cláudio Willer – “Homenagem a Dashiell Hammett”)

 

Religare:

Estou naquele estado
de religião
Tudo é maior
E sou pertencente.
(Hamilton Faria – ”Religare”)

Ulisses Tavares lançou “Se nem Freud explica, tente a poesia!”, Editora Francis, reunindo trechos de mais de 300 poetas da antiguidade até nossos dias, agrupados em verbetes sobre as grandes e pequenas questões humanas. Não é um livro de autoajuda. Mas pode até ser.

 

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