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Jan 21

Zumbis, como sabem todos que assistem a essas séries tipo walking dead, não pensam, não têm emoções e, literalmente, cagam e andam, meio capengas, para o restante da humanidade viva e pensante.
Todos querem apenas sobreviver, isso é certo.
Zumbis e vivos apenas diferem no modus operandi. Aqueles não criam estratégias ou manhas para seus amanhãs. Estes, têm visão da continuidade.
No Brasil, às vezes, como agora, parece que viramos zumbis de vez. Por opção ou espirocação.
Os líderes-zumbis do governo dão entrevistas e, à conta-gotas, contam a verdade sobre a crise da falta de água. Pode observar as fotos e vídeos. Dizem mais que as falsas palavras. Todos falam com naturalidade do tal volume morto com garrafinhas de água mineral ao lado para umedecer as bocas secas de mentiras.
E o zumbi-povo quer acreditar porque é assim que a história e a biologia comprovam: ontem como hoje, o gado segue o líder. Nem que eles os leve para o abismo.
Somos todos zumbis, brasileiros sem cérebros, lá na cobertura e no porão da desigualdade social.
Choque de realidade não surte efeito em zumbis, de a à z.
Nem o zumbi classe A vai renunciar a seu conforto e privilégio. Nem o zumbi classe Z vai deixar de lado sua alienação e esperança de, um dia, virar classe A sem esforço.
Sendo prático, e ecossocialista, desculpem-me os socialistas que pararam no tempo em que as questões eram apenas marxistas e econômicas e de esquerda ou direita. O ecossocialismo chegou para lembrar que estamos todos no mesmo barco, essa nau insegura chamada Terra, prestes a naufragar em nossas mesquinharias e ultrapassadas convicções.
Nem Marx, nem Jesus. Apenas a frágil humanidade à deriva no mesmo Titanic.
Mas voltemos ao que a bússola do tempo, esse climatempo wébico 24 horas on-line, nos diz, inutilmente, todos os dias: os zumbis, que já estão mortos em vida, vão morrer de novo de sede na praia.
Nos entornos das represas – Guarapiranga, Cantareira, etc. – estão milhares de zumbis-povão – como dizem as hipócritas reginas casés, membros da comunidade, eufemismo de favela e passividade – faturando em cima da glamourização favelística. Esses zumbis jogam cocô e lixo e cadáveres, diuturnamente, numa boa, nas águas já sujas das represas vizinhas de seus barracos de ocupação ilegal.
Barraqueira, lato sensu, é isso aí: Nóis suja mesmo, mas somos inocentes, dotô! E, se insistir, nóis convoca as trocentas ongs de direitos humanos que faturam para nos proteger e para nos manter assim, porcos na merda, senão elas não tem como sobreviver.
A pergunta de alguns zumbis, tipo eu, com restinho de cérebro, que não pode se calar, é bem simples, bem povão: Quem vai ter coragem de peitar os zumbis favelados? Como tirá-los da vizinhança das represas?
É ilegal eles lá? Sim. Querem mudar? Não.
Mas os zumbis do phoder não se mexem. Eles são cúmplices, Hermanos, isso aí, mano.
Pano rápido, vamos olhar os mananciais, as nascentes, onde tudo começa.
E já começa mal.
Secando, porque precisam de no mínimo 150 metros de mata de lado a lado.
Mata não, mato comum serve.
Os agricultores até já sabem. Porém, zumbis que são, exageram nos agrotóxicos em suas lavouras, para extirpar as ervas daninhas, e são bem-sucedidos até demais. Acabam com a mata ciliar das nascentes.
Como no Brasil ninguém é culpado de nada, estão desculpados. Afinal, aqui todos têm profundo respeito pelo verde. O dólar é verde. E até reais são chamadas de verdinhas.
Daí vem a saia justa, na falta de camisa de força, dos zumbis autoridades (i)responsáveis: Contar que as chuvas torrenciais não alteram o nível das represas. Funcionário público brasileiro é tudo igual: ganha para trabalhar e corresponde trabalhando muito, contra os cidadãos, criando mais burrocracia, mais mordomias, mais propinas e menos eficiência, presteza, meritocracia. O funcionário público é uma privada, uma caixa-preta, uma fossa. Quem vai enfrentá-los? Cidadão fica na sua, óbvio, paga o mico e sai com seu papelzinho carimbado. Igual papel higiênico manchado de merda.
Represas como a Cantareira sempre foram abastecidas pelas nuvens de água, ou rios de água produzidos lá nas florestas amazônicas.
Acabaram com as florestas, the end para os rios de nuvens de água que, soprados pelo vento, caíam aqui no sul maravilha.
Quem vai questionar e enquadrar a poderosa indústria do agronegócio, com suas lavouras predatórias de soja e cana-de-açúcar e com os pastos de gado? Ninguém, muito menos os zumbis, afronta esse átilaa que aonde passa não cresce grama.
Enquanto isso, os zumbis tomam goles e goles do volume morto, numa boa.
Uma nação quase inteira unida no esquizofrênico funk ostentação. Quem precisa de H2O se não falta cerveja nem marias gasolinas e nem esmolinhas sociais?
A minoria com cérebro, acossada, cercada, politicamente incorreta, nem chora para não desperdiçar água. Perdeu, perdemos, playboy.
Sem água não há energia elétrica nem futuro nem vida, se é que isso que está ocorrendo pode ser chamado de vida. Pelas leis da biologia, da física e do bom senso, a tal da vida é apenas um rio que corre sem parar. Estas leis foram revogadas pelos zumbis-políticos, petralhas ou não, atendendo a seus eleitorados zumbis.
Brasileiro virou (ou já era assim?) versão tupiniquim de terrorista árabe. Homens-bomba sorridentes e mulheres sem burcas. Por fora, belas violas; por dentro, pães bolorentos.
No céu de Alá dos trópicos não nos esperam sete mil virgens, felizmente, ufa.
Apenas piriguetes siliconadas.
E, tomara, fartura de água.
Podre, suja.
Ninguém vai reclamar, claro.
Estamos acostumados e acomodados ao inferno mixuruca daqui debaixo, oras bolas.
Tiramos um selfie, pagamos o dízimo, tomamos um antidepressivo e vamos pular no bloco de carnaval Zumbis Unidos Jamais Serão Vencidos.
Volume morto não é a questão, nem a pergunta principal, nem a solução.
Volume morto somos nós todos.
Zumbis com, minoria, ou sem cérebro, maioria.
A lamentar, se fossemos sinceros, que hoje não vai dar para assistir o BBB nem sair para a balada!
Vamos todos protestar no Facebook. Nas ruas não que é perigoso. Elas são dos pccs e dos black brocks e dos sindicatos pedindo aumento de salários e nunca de melhorias dos serviços prestados. Curtiu? 

Ulisses Tavares é poeta e ambientalista. Só toma água mineral. Mesmo assim com relutância e culpa.

Jan 21
Já encheu a sacolinha!
icon1 ulisses | icon2 Artigos | icon4 01 21st, 2015| icon3No Comments »

Eu, boboca sempre pré-ocupado com os animais e a natureza, sofro da síndrome do saco cheio com essa história das sacolinhas de supermercados.
Como sou também dublê de dona de casa atualizada e atenta aos imperativos ecológicos destes tristes tempos nestes tristes trópicos, ouço e converso muito com a mulherada durante as compras. Dicas de culinária, banalidades em geral, e até ocasional papo cabeça.
Infelizmente, tive de deixar de lado o assunto das sacolinhas.
A maioria das consumidoras lamenta e detesta o fim desse conforto que é enfiar as compras em mil saquinhos plásticos e depois jogar fora para poluírem os bueiros, os esgotos, os rios e os mares. A maioria é gente boa de milhões de amélias que cuidam bem do lar, mas não está nem aí para o lar de todos, a nossa Terra. Zelam pela família, mas não incluem nela os peixes e outros animais marinhos que irão morrer, engasgados e sufocados, pelas malditas embalagens descartadas.
Como Freud, desisti de entender as mulheres, ao menos estas alienadas que vejo e observo fuçando as prateleiras.
Só não desisti é de protestar contra os governantes, autoridades e funcionários públicos (aqueles burrocratas que nos atendem para nos ferrar e justificar seus carguinhos e o cartaz que diz que não se pode ofender funcionário público), que superam os cidadãos consumidores em hipocrisia e miopia ambiental.
Até quando acerta, esse bando erra feio.
Primeiro, proibiram as sacolinhas.
Ok, foi gol, na trave. Os supermercados faturaram pacas em sacolas retornáveis e se livraram de uma despesa.
Daí entrou o lobby dos fabricantes e as nefandas camisinhas de comestíveis voltaram.
Não ouvi ninguém reclamando, só elogiando. Por isso calei minha boca grande diante de minhas amigas sofredoras, digo, consumidoras. A quase ninguém ocorre ter pouco mais de trabalho para muito ajudar o planeta.
Apenas uma senhorinha, até hoje, me apoiou: certo seria não comprar latinhas, mas levar as garrafas de cerveja e encher o caneco; ter sua própria sacola ou carrinho no leva e traz; não comprar mais que o necessário, e por aí vai.
Não resolve, mas alivia a barra do planeta.
Agora, as otoridades, aqui em Sampa, botaram o prego no caixão: só usaremos sacolinhas verdes. Traduzindo: sacolinhas feitas de cana de açúcar. Segundo os fdps (filhos da prefeitura), elas suportam até três garrafas pets cheias, anunciaram com orgulho.
Seria de rir, não fosse pra chorar: lucra a lavoura canavieira que, com aval verde, avançará sobre as matas nativas; lucra a indústria das garrafas pets, que esmerdeia as águas; lucra o político demagogo.
Só não lucra o meio ambiente.
Ah, sim, lembrei: não estou atacando os petistas, nem aecistas, nem quejandos.
Pelo que também vejo, ouço e converso nos supermercados das ideologias, o tema do ecossocialismo é tabu.
Das sacolinhas, então, nem se fala. 

Ulisses Tavares, inspirado no filósofo ateniense Zenão, prefere não falar com reis, mas com quem o entende. Zenão repartia seu alimento e sabedoria com os cães de rua. Coisas de poeta.

Jun 16
icon1 ulisses | icon2 Artigos, Campanha, Defesa Animal | icon4 06 16th, 2014| icon3No Comments »

A Copa 2014 na opinião dos excluídos

“Conhecendo os bípedes humanos, já sei que irão usar e abusar dos fogos de artifícios. Meu tio já morreu do coração por causa do barulhão e o vizinho ficou tão traumatizado que tem medo até de pum de minhoca. Vou comemorar a Copa debaixo da cama.” (Cachorro doméstico)

2

“E eu que nem cama tenho? Vou me borrar na calçada mesmo.” (Cachorro abandonado)

1

“Se a tela da janela do apartamento estiver furada, eu pulo daqui do décimo andar. Gatos, vocês sabem, não se desorientam com o espoucar dos fogos, como os cachorros. Gatos simplesmente enlouquecem.” (Gato de madame)

3

“Antes de pirar de vez, quem sabe dou sorte e encho um festeiro de unhadas, mano.” (Gato de rua)

4

“Não se reclama de barriga cheia, gente! O brasileiro já joga muita comida no lixo, agora vai jogar o dobro. Pra mim, a Copa é um banquete padrão Fifa.” (Rato de lixão)

5

“O povo vai sair mais ferrado desta, eu e minha enorme prole sairemos bem mais gordos. Crescei e multiplicai-vos, ora. E nos Jogos Olímpicos, meus bisnetos irão se esbaldar.” (Rato de esgoto urbano)

6

“Como está sobrando energia no País, mil sóis artificiais brilharão durante as noites de futebol. Com holofotes na cara, não consigo botar um ovo que seja, nem a pau, juvenal.” (Corujas das cidades)

7

“Já avisei minha família: quem sobreviver, se vinga cagando em cima de alguém lá embaixo. Se bem que vai ser só pena que voa, com milhares de rojões atirados aqui no céu.” (Um passarinho anônimo).

8

“Para mim, beleza. Os esgotos a céu aberto continuarão correndo nas comunidades. E a vítima, digo, o brasileiro, alegre e bêbado pelos jogos, vai continuar passando por cima do problema.” (Vibrião do cólera)

9

“No gramado a bola quica, fora dos estádios nóis pica. Obrigado, deus protetor dos aedes aegyptis.” (Mosquito da dengue)

10

“Sempre fui esquecido, agora morrerei em silêncio. Mas meu velório será bem iluminado pelas decorações noturnas e bem decorado pelas garrafas pets.” (Peixinho de parques municipais)

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“Sufocado de emoção, literalmente, soltarei minha última borbulha com uma bandeirinha plástica do Brasil entalada na garganta.” (Peixinho de rio)

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“Faço minha suas palavras. Fui.” (Peixinho do mar)

13

“Sei que não adianta nada, mas quero lembrar que o petróleo é resultado da decomposição de milhões de seres primitivos iguais a mim. E que estamos extintos há mil séculos. Não haverá repeteco. Quanto mais Copas, mais a fonte seca.” (Mensagem recebida em centro espírita dos dinossauros)

14

“E depois o único bicho inteligente é o homem…” (Movimento A Natureza Black Bloc)

 15

Ulisses Tavares é um bicho brasileiro que não vai comemorar a Copa. Coisas de poeta.

16

Oct 23

Beagles unidos jamais serão vencidos

Meu coração vibrou com o resgate dos coitadinhos dos beagles, claro.
Mas em seguida minha cabeça deu o alerta:
No mundo inteiro esse tipo de ativismo direto, invasivo e causador de danos, infelizmente não tem dado certo.
Sem maiores considerações filosóficas (por que é evidente que os animais não poderiam, nunca, serem submetidos ao capitalismo nojento da indústria farmacêutica), ações anteriores sempre resultaram na punição dos bem intencionados.
Aqui e lá fora, a Lei fica do lado dos malvados e pronto.
Como diz o ditado americano, é a economia, estúpido!
Alguns cachorrinhos a menos para os bandidos que, em seguida, prosseguem suas experiências, lícitas mas imorais, até em maior escala.

Talvez haja um jeito porém de fazermos desse limão azedo uma limonada bem grande e doce que refresque a barra dos nossos indefesos amiguinhos de quatro patinhas:
O boicote  de todos os produtos experimentados naqueles campos de concentração tipo Royal.
Se todos nós, os bípedes humanos conscientes da gravidade e crueldade da situação, deixarmos de comprar os produtos lá testados atingiremos o único órgão sensível desse leviatã moderno: o bolso!
Então, aproveitando o impacto da recente invasão repercutindo na mídia, mudaremos o foco da discussão para o que realmente interessa.
De minha parte, começarei agora mesmo, enviando uma lista das empresas e seus produtos que fomentam esses “centros de pesquisa”.
Claro que o Sistema vai reagir exibindo seus rôtos argumentos de necessidade de testar os cosméticos e remédios em bichos para a segurança dos consumidores, blábláblá.
Que se danem: não precisamos deles.
Eles sim é que precisam de nós, consumidores.
Ou param com essa prática escrota ou paramos de dar dinheiro para seus sanguinolentos cofrinhos.
Acham que a indústria cosmética, por exemplo, não irá rever seus processos de testes quando a mulherada souber que está passando nas unhas, nos lábios e na pele, melecas resultantes do sofrimento e da morte de peludinhos inocentes?
Daí saímos dessa categoria vulnerável de ecoterroristas para a nossa real condição: a de seres humanos que amam, acolhem, respeitam, e apenas querem proteger os seres não humanos de nossa doente civilização.
Nosso desespero, e indignação, é tão legítimo que não merecemos ficar apenas na defensiva ou no ataque esporádico.
Primeiro é levantar a lista das empresas e seus produtos. Depois botar a boca no trombone, divulgar, discutir, espalhar, questionar, sem parar, o tempo todo. Até que o tempo, senhor da razão, acalme essa tempestade de insensatez que assola o único mundo que temos.
De nosso sonho, duas patas convivendo em harmonia com quatro patas ou duas asas, nossos inimigos darão risada. Da dura realidade de não ter mais lucro fácil irão chorar.
Simples mas eficiente assim. Transformar nossa fraqueza em força, a única força que o outro lado entende e respeita: a do dinheiro, do poder de comprar.
Alguém me acompanha?

Ulisses Tavares, depois de décadas de militância animal, é um dócil beagle aprendendo a morder.

Aug 15

Com quem fica nossa criança de quatro patas?

Já passei por essa situação, corriqueira, mas dolorida, ene vezes. Por conta de minha sede e fome de vida plena, e por colocar o coração acima da razão, casei e descasei a perder a conta. Até aí tudo bem, nada a surpreender na vida de um poeta em tempo integral. Faria, e acabei de fazer de novo, sem pensar duas vezes.
Mulheres e musas passam. Algumas como o vento, brisas leves, outras como maremotos, tsunamis a devastar meus planos e sonhos. Todas desejadas, bem-vindas, amadas, amigas, amantes e companheiras desse navegar por um mundo hostil e consagrado ao deus mercado. Até que o navio encalha e cada um procura voltar a seu porto como der e puder, de iate, jangada, ou remando ou nadando ou andando e se lixando. De tempos em tempos, nos atracamos novamente. Porque amor não morre, apenas dorme ou fica escondido ou sonhando de olhos abertos.
O amor tem suas próprias leis, fluidas, escritas na areia da praia, das quais continuo apenas aprendiz de marinheiro.
Mas cachorros não passam. Gatos não passam. Animais de estimação nunca passam.
O que fazer com eles numa separação?
Esse é o problema. O resto é de solução bem mais fácil, embora sofrida: um vai para lá, outro vai para cá. E pronto. E ponto final ou reticências nos tribunais.
A relação entre os bípedes humanos acaba. Animais, porém, são fiéis até a morte. Instintivamente românticos por natureza. Para eles, o clichê do felizes para sempre é cláusula pétrea de seus corações felinos ou caninos, indiscutível.
É deles a superioridade de terem amor que resiste a qualquer intempérie, qualquer mudança do destino.
Agradeço sempre ter tido o privilégio de namoradas, ficantes e cônjuges, nunca criarem problemas quando o assunto era sobre quem vai ficar com o cachorro ou o gatinho.
Apenas uma ex, vingativa, para me punir, claro, descarregou sua raiva separando dois cães maravilhosos que tínhamos em comum e se adoravam.
O que ficou comigo morreu de câncer, o que ficou com ela também, pouco tempo depois. Coincidência ou aviso de tragédia anunciada? O que para nós é figura de retórica, para os peludinhos é literal: definham e morrem por abandono e falta de lar e aconchego. Tristeza e saudade nos afligem a alma. À eles, também o corpo.
Do alto, ou baixo, do que o amor e a dor me ensinam, me atrevo a aconselhar casais em vias de separação: discutam menos quem é culpado do que, quem errou de mais ou de menos, e outros quejandos que em nada contribuem para a paz futura, e se concentrem sobre o que fazer com os filhos de quatro patas e mil amorosidades e alegrias e cafunés em comum.
Nada de privar seu, ou sua, ex, de compartilhar a criança peludinha.
Entrem num acordo, como fariam se fosse o impasse sobre um filho ou filha. Filho e filho eles foram, são e serão.
Se a barra do diálogo estiver pesada, estabeleçam dias de visita, ao menos. Ou, mais bacana, deixem a porta aberta para a visita aos rabinhos balançantes.
Decidam com o coração esvaziado de raiva e frustração.
Os filhos e filhas de quatro patas amam e amarão os dois, independente de vocês não mais se amarem e se bicarem.
Animais de estimação não merecem, nunca, pagar pelos nossos erros, egoísmos e desacertos.

Ulisses Tavares pode até ser um exemplo de marido volátil. Mas nunca de um tutor ausente. Coisas de poeta.    

Separação Cachorros

Arte: Claudio Duarte

Feb 21

Meu cachorro me sorriu latindo. Literalmente 

Na história da música popular brasileira, nenhum outro fez tantas músicas sobre ecologia e animais como o rei Roberto Carlos. Isso bem antes, muito antes, da consciência ambiental e da defesa dos animais virarem assuntos na realidade midiática virtual e real.
Em um de seus versos mais memoráveis, ele cantava (em 1974 até eu era jovem e cabeludo naquele século passado, rs): “Meu cachorro me sorriu latindo…”
O compositor já anunciava o que todo mundo que convive com cachorros também já sabia:
Cachorro sorri, latindo. Pede para passear, latindo. Convida para brincar, latindo. Avisa que está com fome, latindo. Revela seus desagrados e dores, latindo.
E, do início ao fim da relação íntima e diária, cada bípede humano aprende a diferenciar os diferentes timbres e significados dos latidos de seu cão.
Então, que nossos peludinhos falam latindo não é novidade.
A grande revelação é a ciência (leia-se: biólogos e quejandos) finalmente reconhecer que nem o rei nem nós, cachorreiros, estávamos imaginando ou exagerando a realidade da comunicação canina.
Cachorros falam latindo e latem falando, de verdade, claramente, em alto e bom som.
O que as pesquisas científicas recentes trouxeram à tona, também, foi um fato que muita gente ignora: os cães aprenderam a latir única e exclusivamente para se comunicar com os animais humanos, essa espécie que os acolheu, cuidou e alimentou nos últimos 15 mil anos.
É surpreendente e delicioso lembrar que os peludinhos não aprenderam a latir para os outros irmãos peludinhos. Mas sim para serem compreendidos por nós, os peladinhos.
A linguagem que um cão usa com seus pares não é o latido.
Usa a postura, o olfato, o movimento corporal etc.
Não existe outra espécie que tenha desenvolvido uma linguagem específica para nos contar como se sente e o que deseja.
Uma cabra entende o balido de outra. Um boi entende o mugido de outro. Um pássaro entende o canto do outro. Um macaco entende o grunhido do outro. Até o tetravô dos cães domésticos, o lobo, entende o uivo do outro.
Mas um cão não entende o latido de outro cão. Quando seu cachorro late para outro cachorro é apenas para avisar você sobre o intruso no pedaço.
E a comunicação entre cachorros e humanos é tão aprimorada que só aqueles são capazes de interpretar os olhares e gestos deste.
Se você olhar ou apontar para um lugar onde está escondido o petisco de seu cão, ele vai direto para lá. Não precisa de treinamento algum. Faz parte de suas habilidades inatas.
Nem nossos queridos primos, os chimpanzés, conseguem esse tipo de proeza.
E um simples vira-lata se mostra capaz de atribuir significado, portanto, compreender, até 165 das palavras que pronunciamos.
É bastante vocabulário se levarmos em conta (isso também é estudo científico disponível nos googles da vida) que o adolescente de hoje utiliza apenas 350 palavras em seu dia a dia.
Por isso da próxima vez que seu amiguinho canino latir, preste mais atenção. É com você mesmo que ele está falando. 

Ulisses Tavares adora bater papo com um cachorro. Coisas de poeta.

Feb 13


TAVARES, Ulisses.  O Vizinho. Formadores do Saber.  Fundação Santo André. Santo André: 2012. pg. 19

Sep 3

Nesta noite de domingo ele dorme, como sempre, aqui no meio da sala.
Só que, desta vez, não irá acordar nunca mais.
Meu melhor amigo, o Ferinha Mel, morreu da maneira que viveu: como um anjinho.
Olhando seu corpo peludo, sua carinha de criança cheia de cabelinhos brancos, meu coração encolhido, angustiado, exausto pelas tentativas de hoje a tarde, no mercenário hospital veterinário, de espetar e entupir seu combalido ser de remédios e soros, penso que atendi seu último desejo, no último olhar que me dirigiu.
Em nossa comunicação visceral, entendi o que me disse:
Pai, me tira desse lugar, quero partir lá onde aprendi a ser feliz desde filhotinho. A nossa casa.
Ferinha Mel nunca teve uma casinha de cachorro, teve é uma casa inteira para o cachorro.
Tanto que agora há pouco a veterinária insistiu em leva-lo de volta ao hospital e eu, em nome dele, recusei.
Nem daria tempo: seu coraçãozinho parou de repente, cercado de pessoas que o conheciam e o amavam.
Vai ficar o profundo vazio de sua presença física, sei, claro.
Meu grudinho. Meu pançudinho. Meu encrenquinha. Meu melhor amigo. Meu filho. Meu amor.
Neste velório íntimo e dolorido, em que minha alma escorre em lágrimas, continuo sabendo o que ele quer.
Que eu me lembre que ele só veio parar em meus braços para me alegrar, repartir, consolar, se doar e agradecer as zilhões de pequenas coisas que compartilhamos.
Foi ele quem me estimulava a defender os animais, todos.
Foi ele quem me mostrou que não há dia ruim que não melhore diante de uma boa lambida.
Foi ele quem me ensinou a abanar mais o rabinho e rosnar menos.
No céu dos cachorrinhos, continuará a fazer isso.
E na terra fico eu com seu legado, sua herança abençoada, sua sabedoria de carpem diem.
Ferinha Mel apenas finge que morreu, o sapequinha.
O safadinho sabe muito bem que continua aqui, para o resto de minha vida.
Uma vida que, confesso, me parece no momento bem triste.
Mas não é o que ele me deseja.
Por isso prometo: quando ficar vendo o mundo cinzento demais, chamarei por ele e suas vívidas lembranças.
Não há adeus, portanto, apenas a humana dor da perda.
Ferinha Mel, tenho apenas tudo a agradecer. 

Ulisses Tavares tem agora vivo dentro do peito o Ferinha Mel a lhe consolar, ensinar. Como sempre foi e será.

Jun 29

Se falou e muito dos animais bípedes denominados índios. Sim, aqueles mesmos que ficaram milênios tocando fogo na floresta, comendo macacos, numa boa, até que vieram os portugueses, ora, pois, e ensinaram maneiras mais eficazes de acabar com a vida. E, sim também, aqueles mesmos que nos legaram a sua dita cultura: quem não é da nossa tribo, nós matamos. Hoje não matam como antes, mas se dedicam a revindicar benesses governamentais e a continuarem a viver como índios, mas sem pagar impostos nem trabalhar e nem serem enquadrados pelas leis dos animais civilizados. Ìndio não quer mais apito nem espelhinho nem facão de aço: quer é viver como aqueles portugas e holandeses ensinaram. E os animais de verdade, a natureza? Ah, esses e essa estão aí como sempre estiveram, para nos servir.

Se protestou e muito sobre a economia verde. Vai acabar com a economia dos coitados dos bolivianos, que plantam coca numa boa. Dos paupérrimos afegãos que ganham seu suado dinheirinho cultivando papoulas que virarão ópio. Dos africanos que vivem na idade da pedra, em que havia mato a desmatar e animais para encher a pança.

Se evidenciou o papel das ongs ambientalistas, todas doidinhas por um holofote. Só que nenhum animal bípede e pensante tocou na ferida: apenas no Rio de Janeiro fevereiro e carnaval, existem duas ongs para cuidar de cada um dos mamíferos infantes das ruas. Eles continuam nas ruas, as ongs em seus feudos, pedindo mais verbas.

Se levantaram bandeiras sobre a raça negra. Como se os negros não fizessem parte da raça humana. São os negros o que, então? Uma raça de animais à parte, especial, com direitos diferenciados? Não viemos todos, negros e brancos, dos primatas, da família dos macacos? Novamente, negar a ciência, a biologia, a história, dá grana e seguimos, predadores que somos desde a origem, negros e brancos a encher o saco e o cofrinho.

Se deu voz as mulheres. Ninguém ouviu nenhuma fêmea acasalada dizer que era cúmplice de seu próprio espancamento, por amor, claro. Nem uma fêmea humana parideira contar que treinou seu filho, desde criancinha, para ser um machista predador.

Se ocuparam as grandes empresas em mostrarem como são auto-sustentáveis. Pelo visto, são todas anjos capitalistas que tiram seus lucros das tetas da mãe terra, mas se preocupam com ela, desde que ela não diminua seus rendimentos. Não serão elas a chorar pelo leite derramado.

Se mostraram solidários todos os partidos políticos. Nem precisavam. Afinal, todo mundo sabe que eles adoram o verde. O dólar não é verde?

Se aproveitaram os movimentos alternativos para protestar em vistosas e festivas passeatas. Com isso provocaram imensos congestionamentos e imensas descargas de gás carbônico. Isso que é ser ecológico.

E os animais, sim, os bichos de verdade, os não humanos?

Ah, esses ficaram de fora, como sempre. Só foram lembrados nas churrascarias, para onde todos os participantes foram comer.

Os que ocupam o topo da cadeia alimentar sabem o que fazem: explodir o mundo e posar de bonzinhos.

Bem que o poetinha quixotesco aqui tentou alertar. Até com o aval de seu currículo de autor de livros e manifestos a favor dos índios, dos negros, das mulheres, da democracia, em tempos em que isso tudo não era assunto palatável.

Mas quem liga para bichos e poetas hoje em dia?

Ulisses Tavares pede desculpas a todos os outros animais pelos animais hipócritas que somos. Coisas de poeta.

May 9

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