Comentários Recentes
Apr 13

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Apr 8

Jan 21

Zumbis, como sabem todos que assistem a essas séries tipo walking dead, não pensam, não têm emoções e, literalmente, cagam e andam, meio capengas, para o restante da humanidade viva e pensante.
Todos querem apenas sobreviver, isso é certo.
Zumbis e vivos apenas diferem no modus operandi. Aqueles não criam estratégias ou manhas para seus amanhãs. Estes, têm visão da continuidade.
No Brasil, às vezes, como agora, parece que viramos zumbis de vez. Por opção ou espirocação.
Os líderes-zumbis do governo dão entrevistas e, à conta-gotas, contam a verdade sobre a crise da falta de água. Pode observar as fotos e vídeos. Dizem mais que as falsas palavras. Todos falam com naturalidade do tal volume morto com garrafinhas de água mineral ao lado para umedecer as bocas secas de mentiras.
E o zumbi-povo quer acreditar porque é assim que a história e a biologia comprovam: ontem como hoje, o gado segue o líder. Nem que eles os leve para o abismo.
Somos todos zumbis, brasileiros sem cérebros, lá na cobertura e no porão da desigualdade social.
Choque de realidade não surte efeito em zumbis, de a à z.
Nem o zumbi classe A vai renunciar a seu conforto e privilégio. Nem o zumbi classe Z vai deixar de lado sua alienação e esperança de, um dia, virar classe A sem esforço.
Sendo prático, e ecossocialista, desculpem-me os socialistas que pararam no tempo em que as questões eram apenas marxistas e econômicas e de esquerda ou direita. O ecossocialismo chegou para lembrar que estamos todos no mesmo barco, essa nau insegura chamada Terra, prestes a naufragar em nossas mesquinharias e ultrapassadas convicções.
Nem Marx, nem Jesus. Apenas a frágil humanidade à deriva no mesmo Titanic.
Mas voltemos ao que a bússola do tempo, esse climatempo wébico 24 horas on-line, nos diz, inutilmente, todos os dias: os zumbis, que já estão mortos em vida, vão morrer de novo de sede na praia.
Nos entornos das represas – Guarapiranga, Cantareira, etc. – estão milhares de zumbis-povão – como dizem as hipócritas reginas casés, membros da comunidade, eufemismo de favela e passividade – faturando em cima da glamourização favelística. Esses zumbis jogam cocô e lixo e cadáveres, diuturnamente, numa boa, nas águas já sujas das represas vizinhas de seus barracos de ocupação ilegal.
Barraqueira, lato sensu, é isso aí: Nóis suja mesmo, mas somos inocentes, dotô! E, se insistir, nóis convoca as trocentas ongs de direitos humanos que faturam para nos proteger e para nos manter assim, porcos na merda, senão elas não tem como sobreviver.
A pergunta de alguns zumbis, tipo eu, com restinho de cérebro, que não pode se calar, é bem simples, bem povão: Quem vai ter coragem de peitar os zumbis favelados? Como tirá-los da vizinhança das represas?
É ilegal eles lá? Sim. Querem mudar? Não.
Mas os zumbis do phoder não se mexem. Eles são cúmplices, Hermanos, isso aí, mano.
Pano rápido, vamos olhar os mananciais, as nascentes, onde tudo começa.
E já começa mal.
Secando, porque precisam de no mínimo 150 metros de mata de lado a lado.
Mata não, mato comum serve.
Os agricultores até já sabem. Porém, zumbis que são, exageram nos agrotóxicos em suas lavouras, para extirpar as ervas daninhas, e são bem-sucedidos até demais. Acabam com a mata ciliar das nascentes.
Como no Brasil ninguém é culpado de nada, estão desculpados. Afinal, aqui todos têm profundo respeito pelo verde. O dólar é verde. E até reais são chamadas de verdinhas.
Daí vem a saia justa, na falta de camisa de força, dos zumbis autoridades (i)responsáveis: Contar que as chuvas torrenciais não alteram o nível das represas. Funcionário público brasileiro é tudo igual: ganha para trabalhar e corresponde trabalhando muito, contra os cidadãos, criando mais burrocracia, mais mordomias, mais propinas e menos eficiência, presteza, meritocracia. O funcionário público é uma privada, uma caixa-preta, uma fossa. Quem vai enfrentá-los? Cidadão fica na sua, óbvio, paga o mico e sai com seu papelzinho carimbado. Igual papel higiênico manchado de merda.
Represas como a Cantareira sempre foram abastecidas pelas nuvens de água, ou rios de água produzidos lá nas florestas amazônicas.
Acabaram com as florestas, the end para os rios de nuvens de água que, soprados pelo vento, caíam aqui no sul maravilha.
Quem vai questionar e enquadrar a poderosa indústria do agronegócio, com suas lavouras predatórias de soja e cana-de-açúcar e com os pastos de gado? Ninguém, muito menos os zumbis, afronta esse átilaa que aonde passa não cresce grama.
Enquanto isso, os zumbis tomam goles e goles do volume morto, numa boa.
Uma nação quase inteira unida no esquizofrênico funk ostentação. Quem precisa de H2O se não falta cerveja nem marias gasolinas e nem esmolinhas sociais?
A minoria com cérebro, acossada, cercada, politicamente incorreta, nem chora para não desperdiçar água. Perdeu, perdemos, playboy.
Sem água não há energia elétrica nem futuro nem vida, se é que isso que está ocorrendo pode ser chamado de vida. Pelas leis da biologia, da física e do bom senso, a tal da vida é apenas um rio que corre sem parar. Estas leis foram revogadas pelos zumbis-políticos, petralhas ou não, atendendo a seus eleitorados zumbis.
Brasileiro virou (ou já era assim?) versão tupiniquim de terrorista árabe. Homens-bomba sorridentes e mulheres sem burcas. Por fora, belas violas; por dentro, pães bolorentos.
No céu de Alá dos trópicos não nos esperam sete mil virgens, felizmente, ufa.
Apenas piriguetes siliconadas.
E, tomara, fartura de água.
Podre, suja.
Ninguém vai reclamar, claro.
Estamos acostumados e acomodados ao inferno mixuruca daqui debaixo, oras bolas.
Tiramos um selfie, pagamos o dízimo, tomamos um antidepressivo e vamos pular no bloco de carnaval Zumbis Unidos Jamais Serão Vencidos.
Volume morto não é a questão, nem a pergunta principal, nem a solução.
Volume morto somos nós todos.
Zumbis com, minoria, ou sem cérebro, maioria.
A lamentar, se fossemos sinceros, que hoje não vai dar para assistir o BBB nem sair para a balada!
Vamos todos protestar no Facebook. Nas ruas não que é perigoso. Elas são dos pccs e dos black brocks e dos sindicatos pedindo aumento de salários e nunca de melhorias dos serviços prestados. Curtiu? 

Ulisses Tavares é poeta e ambientalista. Só toma água mineral. Mesmo assim com relutância e culpa.

Jan 21
Já encheu a sacolinha!
icon1 ulisses | icon2 Artigos | icon4 01 21st, 2015| icon3No Comments »

Eu, boboca sempre pré-ocupado com os animais e a natureza, sofro da síndrome do saco cheio com essa história das sacolinhas de supermercados.
Como sou também dublê de dona de casa atualizada e atenta aos imperativos ecológicos destes tristes tempos nestes tristes trópicos, ouço e converso muito com a mulherada durante as compras. Dicas de culinária, banalidades em geral, e até ocasional papo cabeça.
Infelizmente, tive de deixar de lado o assunto das sacolinhas.
A maioria das consumidoras lamenta e detesta o fim desse conforto que é enfiar as compras em mil saquinhos plásticos e depois jogar fora para poluírem os bueiros, os esgotos, os rios e os mares. A maioria é gente boa de milhões de amélias que cuidam bem do lar, mas não está nem aí para o lar de todos, a nossa Terra. Zelam pela família, mas não incluem nela os peixes e outros animais marinhos que irão morrer, engasgados e sufocados, pelas malditas embalagens descartadas.
Como Freud, desisti de entender as mulheres, ao menos estas alienadas que vejo e observo fuçando as prateleiras.
Só não desisti é de protestar contra os governantes, autoridades e funcionários públicos (aqueles burrocratas que nos atendem para nos ferrar e justificar seus carguinhos e o cartaz que diz que não se pode ofender funcionário público), que superam os cidadãos consumidores em hipocrisia e miopia ambiental.
Até quando acerta, esse bando erra feio.
Primeiro, proibiram as sacolinhas.
Ok, foi gol, na trave. Os supermercados faturaram pacas em sacolas retornáveis e se livraram de uma despesa.
Daí entrou o lobby dos fabricantes e as nefandas camisinhas de comestíveis voltaram.
Não ouvi ninguém reclamando, só elogiando. Por isso calei minha boca grande diante de minhas amigas sofredoras, digo, consumidoras. A quase ninguém ocorre ter pouco mais de trabalho para muito ajudar o planeta.
Apenas uma senhorinha, até hoje, me apoiou: certo seria não comprar latinhas, mas levar as garrafas de cerveja e encher o caneco; ter sua própria sacola ou carrinho no leva e traz; não comprar mais que o necessário, e por aí vai.
Não resolve, mas alivia a barra do planeta.
Agora, as otoridades, aqui em Sampa, botaram o prego no caixão: só usaremos sacolinhas verdes. Traduzindo: sacolinhas feitas de cana de açúcar. Segundo os fdps (filhos da prefeitura), elas suportam até três garrafas pets cheias, anunciaram com orgulho.
Seria de rir, não fosse pra chorar: lucra a lavoura canavieira que, com aval verde, avançará sobre as matas nativas; lucra a indústria das garrafas pets, que esmerdeia as águas; lucra o político demagogo.
Só não lucra o meio ambiente.
Ah, sim, lembrei: não estou atacando os petistas, nem aecistas, nem quejandos.
Pelo que também vejo, ouço e converso nos supermercados das ideologias, o tema do ecossocialismo é tabu.
Das sacolinhas, então, nem se fala. 

Ulisses Tavares, inspirado no filósofo ateniense Zenão, prefere não falar com reis, mas com quem o entende. Zenão repartia seu alimento e sabedoria com os cães de rua. Coisas de poeta.

Nov 7

Filipeta

Jun 16
icon1 ulisses | icon2 Artigos, Campanha, Defesa Animal | icon4 06 16th, 2014| icon3No Comments »

A Copa 2014 na opinião dos excluídos

“Conhecendo os bípedes humanos, já sei que irão usar e abusar dos fogos de artifícios. Meu tio já morreu do coração por causa do barulhão e o vizinho ficou tão traumatizado que tem medo até de pum de minhoca. Vou comemorar a Copa debaixo da cama.” (Cachorro doméstico)

2

“E eu que nem cama tenho? Vou me borrar na calçada mesmo.” (Cachorro abandonado)

1

“Se a tela da janela do apartamento estiver furada, eu pulo daqui do décimo andar. Gatos, vocês sabem, não se desorientam com o espoucar dos fogos, como os cachorros. Gatos simplesmente enlouquecem.” (Gato de madame)

3

“Antes de pirar de vez, quem sabe dou sorte e encho um festeiro de unhadas, mano.” (Gato de rua)

4

“Não se reclama de barriga cheia, gente! O brasileiro já joga muita comida no lixo, agora vai jogar o dobro. Pra mim, a Copa é um banquete padrão Fifa.” (Rato de lixão)

5

“O povo vai sair mais ferrado desta, eu e minha enorme prole sairemos bem mais gordos. Crescei e multiplicai-vos, ora. E nos Jogos Olímpicos, meus bisnetos irão se esbaldar.” (Rato de esgoto urbano)

6

“Como está sobrando energia no País, mil sóis artificiais brilharão durante as noites de futebol. Com holofotes na cara, não consigo botar um ovo que seja, nem a pau, juvenal.” (Corujas das cidades)

7

“Já avisei minha família: quem sobreviver, se vinga cagando em cima de alguém lá embaixo. Se bem que vai ser só pena que voa, com milhares de rojões atirados aqui no céu.” (Um passarinho anônimo).

8

“Para mim, beleza. Os esgotos a céu aberto continuarão correndo nas comunidades. E a vítima, digo, o brasileiro, alegre e bêbado pelos jogos, vai continuar passando por cima do problema.” (Vibrião do cólera)

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“No gramado a bola quica, fora dos estádios nóis pica. Obrigado, deus protetor dos aedes aegyptis.” (Mosquito da dengue)

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“Sempre fui esquecido, agora morrerei em silêncio. Mas meu velório será bem iluminado pelas decorações noturnas e bem decorado pelas garrafas pets.” (Peixinho de parques municipais)

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“Sufocado de emoção, literalmente, soltarei minha última borbulha com uma bandeirinha plástica do Brasil entalada na garganta.” (Peixinho de rio)

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“Faço minha suas palavras. Fui.” (Peixinho do mar)

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“Sei que não adianta nada, mas quero lembrar que o petróleo é resultado da decomposição de milhões de seres primitivos iguais a mim. E que estamos extintos há mil séculos. Não haverá repeteco. Quanto mais Copas, mais a fonte seca.” (Mensagem recebida em centro espírita dos dinossauros)

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“E depois o único bicho inteligente é o homem…” (Movimento A Natureza Black Bloc)

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Ulisses Tavares é um bicho brasileiro que não vai comemorar a Copa. Coisas de poeta.

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Apr 30

convite 2

Apr 16

Sobre Eros e Vampiros

O organizador desta orgia vampiresca começou a cultivar morcegos em sua antologia O Livro Vermelho dos Vampiros, reunião de 13 autores com a missão de injetar sangue novo no mito do morto-vivo. Vamp_Eros é a segunda “dentição”, em que 12 criadores de ponta continuam a inovar o gênero. Agora é o aguilhão erótico o que incita vampiros e humanos nesta ciranda: a sedução do sanguessuga sobre os mortais, e a paixão da presa por seu predador. A pulsão simultânea de Eros e Tânatos move o feroz vampiro psíquico detectado por Deborah K. Goldemberg, e o súcubo do século 13, conjurado por Paulo Fodra. Essa fome sinistra alucina o refinado gourmand de Marcelo Carneiro da Cunha, a vampira new yorker de Fabíola Moura, o mordaz sanguessuga de Ulisses Tavares.
A mesma sede insaciável consome a horda vampírica que invade São Paulo, na visão apocalíptica de Laura Elias, ou a mulher solitária que invoca o sanguessuga em “Venha me beijar”, de Sérgio Fantini. O frenesi prossegue na rave de neovampiros, sob o olhar cético de Dóris Fleury, e no delírio sensual de “Meu corpo é a sua casa”, de Adrienne Myrtes. E antigos mistérios serão revelados nessa incursão às trevas, como o espectro descoberto por Donny Correia num subterrâneo londrino, e o nosferatu em ação no set de cinema, enquadrado por Sandra Ginez. Para rematar o banquete antropofágico, um vampiro sincrético: “Kupleng”, de Luiz Roberto Guedes, uma caçada aos nazivampiros refugiados no Brasil. Quem abre esse livro, penetra num festim de carne e sangue. Atreva-se.

Luiz Bras

Mais informações:
Imprensa:
 Nathália Lippi

(11) 3865-3936
poetaulisses@terra.com.br

Mar 13

Já fui mordido por cachorro. Ene vezes. Felizmente tive de tomar vacina anti-rábica numa ocasião apenas. E foi na época em que a vacina era aplicada com várias injeções na barriga. A injeção doía mais que a mordida. Nem por isso peguei raiva (o sentimento, não a doença) dos cães.
Cachorros soltos nas ruas tinham em mim, um moleque também criado solto nas ruas, um protetor ou um alvo. Depois de grande, já ativo resgatador de cães abandonados, volta e meia levava uma mordidinha de brinde, nada grave. Coisas, digo, dentadas, do ofício.
Coices de cavalos, muitos também, quase rotina na minha temporada de sitiante plantador de cebolas na primitiva cidade de Piedade. Sem grana para o luxo de um trator, arávamos a terra com tração animal. Queria ver um desses encantadores de cavalos dos filmes e documentários convencer um cavalo xucro (especialmente mulas) a puxarem placidamente um arado. Era, com razão cavalar, corcovear e coices pra todo lado, especialmente o meu lado das coxas.
Mas minhas lembranças dos cavalos, mesmo assim, são doces e bonitas. Um deles, baio baixinho e troncudo, conhecido na região como derrubador de valentes peões, acalmava-se instantaneamente quando meu filho, então com dois anos, era colocado em seu dorso. Vinha gente de toda região se abismar com a cena. Aquele cavalo, “selvagem” entre aspas, era todo delicadeza com o menininho que se agarrava em sua crina para não cair. E, quando meu filho estava no chão, ele não deixava ninguém se aproximar do garotinho.
A seu modo, o baio era mais pai protetor que eu.
Nunca esquecerei, ainda, quando a égua do vizinho deu cria a uma éguinha manquitola. A acolhi, tratei na mamadeira e só me arrependo de tê-la deixado entrar em casa, o que ela continuou fazendo, já bem grandona, para se aquecer em frente a lareira. Limpar cocô de cachorro é fichinha perto de cagada de cavalo no meio da sala.
De aranhas aprendi a gostar e a não temer desde a infância, quando meu pai me levava para seu pesqueiro em Angatuba. Ali, tinha esses seres em todos os lugares, dentro e fora da cabana. Sei diferenciar as picadas aracnídeas e seus riscos. Quanto maior a aranha, mais dolorida, mas sem perigo. Uma pomadinha resolve. As pequeninas e rajadas podem ser até letais, eu as evitava, claro. Nunca desenvolvi o medo de aranhas, nem, ainda bem, das metafóricas, aquelas que designam os genitais das fêmeas humanas. 
Recentemente, tive uma experiência interessante com uma aranha peludona que escolheu o armário de minha despensa para trocar de pele e, dias depois, dar a luz pontinhos pretos cheios de perninhas e vitalidade.
Sumiram a mãe e sua prole, de repente, e minha admiração se fez plena ao descobrir que não sumiram minhas paçoquinhas (meu vício número mil e um) nem meu estoque de biscoitos de polvilho (meu vício número mil e dois). Isso contou pontos a favor das aranhas.
Se fosse o Homem Aranha escondido lá dentro não estaria eu tranquilo em relação a meus docinhos prediletos.
Das cobras, fui vítima apenas uma vez, nadando em uma represa lá em João Pessoa. Era uma coral. Para meu alívio, sem veneno. Morar em praias e restingas de João Pessoa, Salvador e Rio de Janeiro, me tornaram um seguidor da sabedoria prática de pescadores e mateiros: no mar, andar arrastando os pés para espantar arraias e, no mato, andar de botas e com passos pesados para espantar cobras. Cobras são cegas e “enxergam” as vibrações do solo. Se você pisa forte avisando que está vindo, elas fogem.
Aliás, de todos os bichos que conheço, o único realmente traiçoeiro e imprevisível é o bípede humano. Com esse espécime todo cuidado é pouco.
De abelhas enfurecidas (o truque é ficar parado, nada de correr, gente), a carrapatos sugadores (aqui o lance é usar um raminho de vassourinha ou erva de são joão atrás da orelha, os diabinhos grudam no raminho e esquecem sua pele), passando por insetos voadores e sugadores diversos (citronela até que funciona, pero no mucho), fui testado até por macacos sem vergonhas. Morei anos na reserva ecológica de São Lourenço da Serra e os macacos adoravam comer direto nas panelas se a gente deixava as janelas abertas. Um, mais atrevido, me mordeu a mão.
Passando seis meses nas primeiras aldeias mudadas para o Parque do Xingú, nos tempos heroicos dos irmãos Villas-Boas e dos utópicos como o tal do Ulisses aqui, foi que caiu a ficha de vez: terrível mesmo é o pernilongo. Eita, bicho chato. E enigmático.
Qualquer um que não seja bobocamente dominado pelo esteriótipo do índio romanticamente integrado e preservador da natureza (nunca vi, tirando nós, os índios civilizados, ao vivo e a cores, um comportamento mais predador que o dos índios em relação a fauna e a flora) sabe muito bem que a vida na selva é de testar a paciência de um Jó bíblico.
Não pelos perigos da natureza, que isso índio tira de letra. E tira literalmente, tanto que, sabem os geógrafos, quando os portugas predadores chegaram aqui os nativos já haviam acabado com metade da mata atlântica.
Problema são os malditos pernilongos. De todos os tipos, tamanhos e voracidade.
Eles são iguais aos nossos branquelos banqueiros: sugam nosso sangue 24 horas, sem parar.
Um inferno que nem os índios resolveram, com seus 6 mil anos de sociedade estática e comodista e repetitiva. Vão na base do tapinha mesmo ou na fumarenta fogueira.
E nem eu resolvi até hoje, em pleno século dito 21.
Antigamente, quando hippie em Parati, untava minha pele de urucum na tentativa de repelir esses pequenos leviatãs. Conseguia era ficar todo descascado e coçado.
Priscas eras, na Índia, (novamente eu, iludido, não enxergava a crueldade nua e crua grudada e disfarçada na espiritualidade indiana) vi uma solução funcional e nojenta: os saniasis, homens santos, aqueles que perambulam pelados, despreendidos ou mansos psicóticos, cobrem seus cabelos com bosta seca de vaca, repelente natural. Para eles, dá certo. Em mim, repeleria os amigos e musas.
Pano rápido, aqui e agora.
Trabalho em casa, poeta 24 horas que sou, por sobrevivência e gosto. Preferia que fossem seis horas por dia, mas daí não pago os impostos e me enchem de multas e cobranças. O feijão externo impera sobre o sonho interno. Me equilibro na lâmina da faca milenar de Eros e Tanatos.
Minha casa é pequena mas bem bacaninha, com quintal cheio de flores, passarinhos e computador último tipo.
Adoro escrever com pouca roupa, pelado se não estiver esperando visitas.
Os passarinhos citadinos de meu quintal são da geração maquidonald e preferem as frutas que coloco pra eles todas manhãs em vez de caçar os pernilongos.
A única habitante, além de mim, que trabalha nesse sentido é a tetraneta da Genovava, minha lagartixa de estimação.
Só que ela não dá conta dos enxames de pernilongos que atacam minhas partes expostas a sua sanha alimentar.
Daí, encurralado, comprei e muito uso uma raquete elétrica que eletrocuta os invasores.
Putz, pra quê?
Fiquei, como budista, espremido entre minhas convicções e minha prática cotidiana.
Budista não pode matar nenhum ser sensciente. Ou seja: qualquer ser vivo, pois todos tem a mesma capacidade de sentir prazer, dor e medo.
E o pernilongo, gostemos ou não, está nessa categoria, como todos os outros que voam, nadam, rastejam ou andam na face da Terra.
Pior é que adoro quando extermino com esses insetos. Plac, plac, bzz, bzz.
Posso estar, budisticamente falando, matando meus antepassados reencarnados.
Pesquisando, meditando e tentando saída para essa escolha de Sofia, dilema ético, não achei nada a favor dos pernilongos.
Eles, em suas mais de duas mil variações, matam (por serem vetores de doenças) cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, por ano, malária, dengue etecétera. Nas ilhas do Caribe, século 19, acabaram com todos mamíferos.
O problema é que não são eles, mas elas. Apenas as fêmeas pernilongais nos sugam, e contaminam, o sangue.
Os machos lambem e se alimentam da seiva das plantas, pacificamente.
Como é que eu posso saber se não matei o pernilongo errado para me defender?
Sei lá. É a primeira vez que odeio e ataco um animal, um ser vivo, em toda a minha vida.
Nem ainda consegui resposta para o que serve um pernilongo na cadeia alimentar natural.
Parece que pra nada, exceto seus propósitos de se perpetuar.
Um mistério a ser decifrado, já que surgiram há milhões de ano e continuam aí, como as baratas e as bundudas alienadas dos bebebês televisivos.
Fiz até um poeminha pra essa praga: “Nada sei/sobre a vidinha do pernilongo/que mato, indiferente, na parede/Mas desconfio/Que era a única que ele tinha.”
Epitáfio deles, pedido de perdão meu. 

Ulisses Tavares é um pernilongo confuso sobre seu papel no mundo. Coisas de poeta.

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Feb 11

Quem segura esse rojão?

(Para Santiago Andrade e para o que resta de esperança)

 

Sabia-se e sentia-se
Que o rojão cairia
Na cabeça dos inocentes
Mais dia menos dia.
O rojão da impunidade,
Da corrupção,
Do desgoverno,
Das omissas otoridades.
E caiu em um cinegrafista,
Olho livre da sociedade.
A gota d’água
Em nosso pote
Já tão cheio de revolta e mágoa.
Quem não é bandido
Chora,
Só a bandidagem comemora.
Paz, antes que seja tarde demais.
Vem mais rojão por aí, a mil,
Aceso pelo lado podre do Brasil
Quem segura essa gente ruim
Essa tralha?
Justiça, por que tarda e falha?

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(Foto: Agência O Globo)

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