Warning: include(/home/ulisses/public_html/wp-includes/images/tnd.png) [function.include]: failed to open stream: No such file or directory in /home/ulisses/public_html/wp-settings.php on line 311

Warning: include() [function.include]: Failed opening '/home/ulisses/public_html/wp-includes/images/tnd.png' for inclusion (include_path='.:/usr/lib/php') in /home/ulisses/public_html/wp-settings.php on line 311

Warning: include(/home/ulisses/public_html/wp-includes/images/lm.php) [function.include]: failed to open stream: No such file or directory in /home/ulisses/public_html/wp-settings.php on line 312

Warning: include() [function.include]: Failed opening '/home/ulisses/public_html/wp-includes/images/lm.php' for inclusion (include_path='.:/usr/lib/php') in /home/ulisses/public_html/wp-settings.php on line 312
 Ulisses Tavares » Discutindo Literatura

Discutindo Literatura

 

 

Edição do Ano I – Número 3:

Por que o jovem não deve ler! 

           Calma, prezado leitor, nem você leu errado, nem eu pirei de vez. Este artigo pretende isso mesmo: dar novos motivos para que os moços e moças de nosso Brasil continuem lendo apenas o suficiente para não bombar na escola.
             E continuem vendo a leitura como algo completamente estapafúrdio, irrelevante, anacrônico, e permaneçam habitando o universo ágrafo dos hedonistas incensados nos realitys shows.
            (Êpa, acho que exagerei. Afinal, quem não lê, muito dificilmente vai conseguir compreender esta última frase. Desculpem aí, manos:  eu quis dizer que os carinhas, hoje, precisam de dicionário pra entender gibi da Mônica, na onda dos sarados e popozudas que vêem na telinha, e que vou dar uma força  pra essa parada aí, porra.)
            Eu explico mais ainda: é que, aproveitando o gancho do Salão do Livro Infanto-Juvenil, em novembro agora no Parque do Ibirapuera, Sampa, pensei em escrever sobre a importância da leitura. Algo leve mas suficiente para despertar em meia dúzia de jovens o gosto pela leitura (de que? De tudo! De jornais a livros de filosofia; de bulas de remédio a conselhos religiosos; de revistas a tratados de física quântica; de autores clássicos a paulos coelhos.)
            Daí aconteceram três coisas que me fizeram mudar de rumo e de idéia.
            Primeiro eu li que fizeram, alguns meses atrás, um teste de leitura com estudantes do ensino fundamental de uma dezena de vários países. Era para avaliar se eles entendiam de verdade o que estavam lendo. Adivinhem quem tirou o último lugar, até mesmo atrás de paizinhos miseráveis e perdidos no mapa mundi? Acertou, bródi: o nosso Brasil.
            Logo depois, li uma notícia boa que, na verdade, é ruim: o (des)governo de São Paulo anuncia maior número de crianças na escola. Mas adotou a política da não reprovação. Traduzindo: neguinho passa de ano, sim, mas continua tecnicamente analfabeto. Porque ler sem raciocinar é como preencher um cheque sem saber quanto se tem no banco.
            E, por último, li em pesquisa publicada recentemente nos jornais, que para 56% dos brasileiros entre 18 e 25 anos comprar mais significa mais felicidade, pouco se importando com problemas ambientais e sociais do consumo desenfreado. Ou seja, o jovem brasileirinho gosta de comprar muitas latinhas de cerveja, mas toma todas e joga todas nas ruas ou nas estradas, sem remorso.
            Viram como ler atrapalha?
            A gente fica sabendo de fatos que, se não soubesse, teria mais tempo para curtir o próprio umbigo numa boa, sem ficar indignado e preocupado com a situação atual de boa parte de nossa juventude.
            E também faz o tico e o teco (nossos dois neurônios que ainda funcionam no cérebro, já que se dividirmos o quociente de inteligência nacional pelo número de habitantes não deve sobrar mais que isso per capita) malharem e suarem, em vez de ficarmos admirando o crescimento do bumbum e do muque no espelho das academias de musculação.
            Por isso que, num momento de desalento, decidi que, de agora em diante, como escritor e professor, nunca mais vou recomendar a ninguém que leia mais, que abra livros para abrir a cabeça.
            A realidade é brutal e desmentiria em seguida qualquer motivo que eu desse para um jovem tupiniquim trocar a alienação pela leitura.
            Eu reconheço: a maioria está certa em não ler.
            E tem, no mínimo, 5 razões poderosas , maiores e melhores que meus frágeis argumentos ao contrário:

 1.      Se ler, vai querer participar como cidadão dos destinos do País. Não vale à pena o esforço. Como disse o Lula (que não teve muita escola, mas sempre leu pra caramba), a juventude não gosta de política, mas os políticos adoram. Por isso que eles mandam e desmandam há séculos;

2.      Se ler, vai saber que estão mentindo e matando montes de jovens todos os dias em todos os lugares do Brasil impunemente; principalmente porque esses jovens não percebem nem têm como saber (a não ser lendo) a tremenda cilada que é acreditar que bacana é mentir e matar também;

3.      Se ler, vai acordar um dia e se perguntar que diabo é isso que anda acontecendo neste lugar, onde só ladrões, corruptos, prostitutas e ignorantes, aparecem na mídia;

4.      Se ler, vai ficar mais humano e, horror dos horrores, é até capaz de sentir vontade de se engajar num trabalho comunitário, voluntário e parar de ser egoísta;

5.      Se ler, vai comparar opiniões, acontecimentos, impressões e emoções e acabar descobrindo que sua vida andava meio torta, meio gado feliz.

            O espaço está acabando e me deu vontade de lembrar que ninguém -nem mesmo alguém que não vê utilidade na leitura – pode achar que há um belo futuro aguardando uma juventude que vai de revólver pra escola e, lá, absorve não conhecimentos mas um baseado ou uma carreirinha maneira. Sim, é outra pesquisa que li, esta dando conta que sete entre dez estudantes brasileiros andam armados, três entre dez se drogam na escola, sete entre dez bebem regularmente.
            Mas paro por aqui já que, apesar destes tristes tempos verdes e amarelos (as cores do vômito, papito), lembro também de tantos poetas, jornalistas e escritores que, ao longo de minha vida de leitor apaixonado, me deram toques de esperança, força e fé na mudança.
            De um especialmente – o poeta Tiago de Melo – com seu verso comovido e repleto de coragem:
            “Faz escuro, mas eu canto!”
            Talvez meu pequeno cantar sirva de guia do homem (e mulher) de amanhã. E que, lendo mais, ele/ela evite de ter como única alternativa para mudar de vida dar a bunda (e a alma) ou engolir baratas (e a dignidade) diante das câmeras de televisão.

Ulisses Tavares, escritor e professor, sempre leu muito. Não ficou rico com isso. Mas deixou de ser pobre de espírito rapidinho.

 

Edição do Ano I – Número 5:

POESIA NOTA DEZ!

(Depois de percorrer o Brasil nos últimos anos realizando oficinas para professores(as), tentando (e, às vezes, até conseguindo) fazer com que se mudasse o tratamento do assunto poesia em salas de aula, o poeta Ulisses Tavares resolveu resumir sua experiência em forma de poesia auto-ajuda. Acompanhe estes lances emocionantes da saga do poeta.Como o nome de sua oficina é Poesia Nota Dez! ele manteve os 10 tópicos/dicas/toques para professores(as) e, por que não?, para alunos passarem a seus mestres.)

 1: Nem pense em dar nota!

 Gentil professorinha, digno professor,
Nem pense em dar nota ao seu aluno
Candidato à poeta, a escritor.
Isso é impossível, até risível,
E a seu aluno só vai causar dor.
Toda poesia é boa,
Até aquela atoa,
Importante é que haja a próxima,
Que vai ser muito melhor.
Incentive, finja, faça cara de satisfeito,
Um dia afinal seu aluno vai acabar
Escrevendo direito.

 

2. Pelo amordedeus, chega de rap!

Rap, tcháu e benção!
Já valeu, esgotou a cota.
Fazer rap qualquer um faz,
E bem e certinho.
Tão certinho que deixa de ser poesia
Passa a ser água fria.
Existem mais de 368 ritmos musicais
Tantos, que ai meus sais! Nem agüento ouvir.
Professora empenhada mesmo
Apresenta a seus alunos o ermo:
Catira, catiretê, desafio, candango.
Original é inovar, mudar, surpreender,
O resto é ver pra crer, lugar comum avalizar,
E isso não é ensinar.

 

3: Sociedade dos poetas vivos!

Drummonds, Vinicius, Cecílias,
Tudo bem, nada mal,
Apenas que a poesia do Brasil
Este país de poetas, varonil,
Vai muito além disso.
Poetas, aqui, não se  contam apenas
Entre os oficiais, os  consagrados,
Livres de suas cadenas,
Os poetas não estudados ainda,
Pedem seu olhar, sua atenção,
Um olhar liberto, atento,
De cabeça e coração.

 

4: Competição, só de criatividade!

Parece muito bacana,
Mas é uma tremenda armadilha.
Me refiro a campeonatos,
Concursos de poesia, minha filha.
O mundo já é hostil e competitivo
O suficiente
O que resulta nesta sociedade indecente.
Promova exposições, recitais, leituras,
E premie a todos, na cara dura.
Todo poeta se aprimora
Com o tempo, desde cedo
Ninguém vai fazer poesia boa
Para competir, com medo.

 

5: Moderno é ser antigo, bem antigo.

Viaje com seus alunos
Pela máquina do tempo da poesia.
Leia os romanos, os gregos,
Suas grandes biografias.
Eles vão adorar saber, e repetir,
O que os loucos poetas da antiguidade
Já fizeram por séculos:
Encenar poesias com máscaras,
Se fingir de cegos,
Dramatizar com bocas e caras,
Imitar animais
Guerras e misturar poemas e cantos
Em animados jograis.

 

6: Poeta tira poesia até de jornais!

O Mário Quintana já dizia
Num toque de sabedoria:
Poeta deve ler jornais e revistas.
Onde se lê notícias, veja-se poesia!
Crianças e jovens,
Curiosos que são,
Adoram, se bem conduzidos,
Transformar a notícia do dia
Em pura, instantânea poesia!
Pode até se transformar num hábito
Uma molecagem do dia a dia:
Um Jornal do Poeta
Colado na parede da sala de aula
Renovado por todos,
Onde o coração fala
Caudaloso, a rodo.

 

7: Palimpsesto, uau!

Os egípcios que inventaram
O tal do palimpsesto:
Não passa de apagar o escrito
E nele escrever outro texto!
Sabe aqueles poemas
Que você encontra em qualquer
Livro didático?
Pegue um deles, seja prático,
E proponha aos alunos
Que o reescrevam de seu jeito.
Não vai sair perfeito, garanto,
Mas é um estímulo e tanto.

  

8: Antes era Zeus, depois foi Deus, hoje sou Eus!

 O título aí de cima é um poeminha
Do anarquista Roberto Freire
Meu guru, meu amigo,
Que resume bem essa onda juvenil
De só se interessar pelo próprio umbigo!
Comece por aí, se quiser,
Que muito bem irás a poesia
Encontrar do jeito que vier e der.
Acrósticos são poemas feitos
A partir das letras do próprio nome,
Do ego aplaca a fome,
E a partir do nome de cada um
Pode-se exercitar palavras, poesia,
O que se encontra em Carfanaum?
Car…ro, fan…ho, um…ído?
Nossa!, a lista é infindável
Se encontra de zona à escapulário.
E assim se aprende o fazer poético
O qual não se faz sem um grande vocabulário!

 

9: A poesia é igual a pamonha de Piracicaba!

Poesia, neste mundo da matéria,
De tênis de marca, drogas e miséria,
Fica sempre parecendo assunto
Estapafúrdio, escalafobético, fora do mundo.
Nada disso, não é não, nadinha:
Poesia é coisa também fresquinha
Saída agora para consumo imediato,
Deliciando a alma,
Com pressa ou com calma.
Que tal, por exemplo, propor
Para tirar a classe do estupor
Que cada um escreva, já, agora,
O que gostaria de dizer
Para sua paquera, para sua família,
Em uma frase?
Daí pegar aquela frase e reescrever
Em forma de poesia?
É pagar pra ver como aquilo
Que era imediatista vira o que se sonha.
Teremos poesia, não papo de pamonha.

 

10: Real e aspiracional.Uma experiência animal!

A gente já sabe,
Quem ensina mais ainda:
Há uma grande dificuldade
Do pré-primário à faculdade,
Do aluno sair de si mesmo
De voar para o desconhecido, o ermo.
Conte pra ele, então,
Que todo mundo é…dois!
O que se é no real, e no aspiracional depois.
O careca se imagina cabeludo,
A gorda, magra,
O rejeitado, amado em tudo,
E por aí vai a saga humana,
Sempre um degrau a mais de seu real.
Pois a verdade é que só a poesia
Pode expressar e dizer
O meu verdadeiro aspiracional!

 

11: Não force a barra, só incentive.

De fato algumas pessoas,
Talvez a maioria,
Nunca vai gostar de poesia.
Aceite o fato, a vida é assim.
É como tocar música clássica
Para alguém que só ouviu pagodeiros
A vida inteira, na bobeira.
Tenha uma postura elástica:
Vá mostrando diferentes tipos de poetas
Diferentes tipos de poesia
Seja abundante, pródiga, escorreita.
De repente, seu aluno se identifica
Com alguma poesia, algum poeta, uma via,
E nela ou nela gruda, fica.

 

 12: Não despreze a Internet, a poesia foi pra lá!

 Tudo bem que a classe,
Sem classe como é,
Foi pra internet ver mulher pelada.
Deixa, isso é quase nada.
Mas tem outras coisas lá
Também bem interessantes.
Que tal criar um blog de poesias
De seus alunos?
Eles podem interferir,
E até mudar o papo de rumo.
O que não pode acontecer
 É professor(a) descuidado
 Que nem sabe nada de computador
E de seus alunos fica desplugado!
A internet é cruel e simples:
 Ou você entra já ou é deletado.

Ulisses Tavares é, hoje, um dos poetas mais lidos do Brasil, com mais de 8 milhões de exemplares vendidos apenas em poesia, e 86 livros publicados para crianças, jovens e adultos. Mas não se conforma com a pouca leitura de poesia dos estudantes.

 

Edição do Ano I- Número 6: 

Ética: o que fazer com isso?

            Vamos falar direto que aqui a gente pode: as (e os, claro) professoras conscientes deste Brasil, popularmente conhecido como Bananão, estão loucas para abordar o tema Ética na sala de aula. E muita gente já está fazendo isso, na escola ou em casa, no trabalho ou no lazer, até porque é impossível escapar do assunto.
            Acontece que até os nobres deputados denunciados nas cpis e escândalos diários falam a palavra de boca cheia e, boa parte, de bolso mais cheio ainda.
            E nossos excelentíssimos futuros deputados, senadores, presidentes da república e empresários continuam a ter a tal da Ética entrando em um ouvido e evacuando pelo outro, com o bumbum na carteira e a cabeça na balada do próximo fim de semana.
            Mas existe uma saída, minhas colegas de trabalho! Eu, que ando de escola em escola, mais rouco que vocês de tanto insistir que sem Ética nos ferramos agora e nos ferraremos todos sempre, acabei fazendo uma série de poemas sobre a dita cuja, atualmente dita suja.
            Esses poemas viraram um livro que sai em breve pela Editora FTD, com o título “Ética é uma barra, ética é uma farra.”
            Que é uma barra discutir (e incutir) conceitos éticos em alunos capazes de se interessar pelo meio-ambiente mas incapazes de não jogar papel de chiclete ou latinha de refrigerante nas ruas e calçadas, vocês já sabem.
            Então de onde vem a farra?
            A farra vem de não colocar a solenidade, a pompa, a mentira, a dissimulação em tão espinhosa e urgente temática.
            Porque é isso que o discurso oficial (nos jornais, na televisão, nas rádios) faz o tempo todo: dar a impressão para o jovem estudante que nada do que se fala sobre ética interessa a ele, que é papo cabeça para adultos, grandes e poderosos.
            Chega dessa farsa! Ética é coisa do dia a dia, tão importante e necessária como usar camisinha, não colar nas provas ou recolher o cocô do cachorrinho de estimação.
            Usem e abusem dos poemas a seguir. Já foram usados e testados. Espero que com a iniciativa do poetinha aqui e de vocês aí na linha de guerra que é dar aula hoje em dia, de repente melhoramos o País melhorando as cabeças ai, combinado?
            Ah, sim, nem de Bananão nosso País poderá ser chamado nos próximos anos  porque a  nossa popular banana nanica (espécie Cavendish, para os mais bem informados) está atacada por uma praga (a Sigatoka Negra, para quem lê revistas científicas) que está acabando com tudo porque não investimos em sua pesquisa e cura a tempo. E olha que é nosso segundo maior produto de exportação.
            Falta de ética é não cuidar de uma simples banana, e mais ainda nossos jovens continuarem a dar uma banana para o que afeta diretamente suas vidas, queiram ou não.

 

O Pobre Homem Rico, Mais Rico e Mais Pobre

Foi com o rico e egoísta pai
Que ele aprendeu
A só dar valor ao dinheiro
Desde criancinha
Hoje que tudo perdeu o que tinha
Descobriu o perigo:
Não se compra a amizade,
Não há liquidação de amigo.

 

 Não estudou, dançou. Dançou porque não estudou

No fundamental um
Fugia da aula
No fundamental dois
Só namorava a Paula
No ensino médio
Entrava mudo saia calado
Hoje está assim
Um burro diplomado.

 

Diabinho Hoje, Uma Peste Amanhã.

Lembra daquele garoto
Que estudou com a gente
E roubava material da escola
E, se bobeasse, até a lição da gente?
Deu no que deu: virou político emérito
E hoje é investigado, ora bolas,
Por uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

 

 Ainda que mal pergunte, Bem lhe pergunto já

Como mudar o mundo e suas
Crueldades e bobagens
Se você repete tudo isso
Por acomodado ou omisso
Ou porque  acordado dormia
No seu dia a dia?

 

Se todo mundo fosse igual a igual a você, Que chatice não seria?

Tem gente baixa, gente alta,
Gente feia, gente gata,
Quanto mais viver
Mais pessoas vai conhecer,
É inevitável.
Então relaxe e aproveite,
Não tem remédio:
Se todo mundo fosse igual você,
Seria um tédio.

 

Tenha modos, cidadão, meu amigo, meu irmão

Nem só de ongs, movimentos sociais
Se faz a cidadania
Que tal começar de baixo?
Praticando o por favor, com licença, o obrigado?
Ser cidadão todo dia
Não tratar o outro como capacho.

 

Pra pensar na academia de ginástica:

Exercitar
Os músculos do caráter
A beleza da alma
Se faz de dentro pra fora
Com muito amor,
Com calma.

 

Faça as contas e veja como está certo

As melhores coisas da vida
Não se pode comprar:
Puxasaquismo sim,
Amizade não.
Sexo sim,
Amor não.
Aplausos sim,
Solidariedade não.
E por aí ai,
Em tudo que realmente interessa,
As coisas do coração
Que duram à beça.

 

Ulisses Tavares acredita que sem Ética o Brasil não anda direito. Nem o mundo, aliás.

 

 

 Edição Ano II – Número 7:

 

Sexo, dinheiro e sucesso? Só lendo!
 Ulisses Tavares


            Você é jovem? Mora no Brasil? Está lendo este artigo numa boa, sem soletrar palavra por palavra? Já leu mais de um livro inteirinho este ano? E, finalmente, entendeu tudo que estava escrito no livro? Respondeu sim a estas perguntinhas?
            Ufa! Que bom, parabéns, posso, então, ir direto ao ponto:
            Primeiro, você faz parte de uma elite.
            Segundo, você está com a faca e o queijo para conquistar tudo que quiser na vida.
            Terceiro, você precisa ler mais, muito mais.
            Agora, antes que você pare de ler isto aqui por achar que estou gozando com sua cara, relaxe que eu explico.
            O Brasil faz parte de uma lista horrorosa dos 12 países com mais analfabetos entre os 14 e os 21 anos. Pior que nós, apenas Paquistão, Indonésia, Nigéria e Etiópia, que raramente aparecem em boas notícias nos jornais.
            Ah, você já sabia disto por que lê jornais também?
            Nesse caso, você é minoria super especial mesmo: apenas 1 entre 100 mil jovens brasileiros dão uma espiada em jornais regularmente. 
            E o restante faz o que? Exatamente: assiste televisão (não o noticiário, claro), ouve rádio (só os programas com músicas e brincadeirinhas para idiotas) ou fica caçando mulher pelada na internet.
            Ainda está lendo este texto, e compreendendo tim-tim por tim-tim?
            Encha o peito de orgulho: você está fora de uma lista ainda mais nojenta que aquela lá de cima.
            A Unesco faz um teste que avalia alunos de 15 anos em 40 países sobre compreensão da linguagem escrita. Um teste mamata: ler uma historinha de poucas linhas e depois dizer o que entendeu. É bom lembrar que os testados têm no mínimo oito anos de bumbum na carteira da sala de aula.
            Na grande avaliação deste ano, adivinhe quem tirou o último lugar? Coisa chata mesmo, bró: o adolescente brasileiro ficou com o troféu do mais burro do mundo.
            Não disse que você era minoria das minorias?
           Mas, sem querer pentelhar e já pentelhando, como diria o intelectual Chavez da televisão: existem quilômetros de livros para você devorar depois que entrar na facú, se quiser continuar fora da manada e não levar uma vida de gado.
            Bastaria uma única providência: você não ser folgado lendo apenas trechinhos xerocados dos livros para passar nas provas. E seu professor tomar vergonha na cara e parar de fazer as famigeradas pastinhas para xerocar.
            Isso está mais em suas mãos do que nas das faculdades, afinal já existem mais faculdades que saúvas no Brasil e boa parte é caça-níqueis mesmo. Pense bem: já que são boas as chances de você sair com um canudo que o mercado de trabalho não respeita, que ao menos sua cabeça saia cheia da cultura maravilhosa dos livros.
            Uma última tarracada na molera: pesquisa recente indica que mais de 60% das professoras do ensino público, fundamental e médio, não possuem o hábito de ler jornais. Se alguém não se interessa nem por ler jornais, muito menos se ligará em um livro que, em geral, tem muito mais letrinhas impressas e exige mais raciocínio que a última notícia sobre a boazuda do bbb. Você acha que elas irão incentivar a leitura em seus alunos?
            Bem, o titio Ulisses já mordeu demais e agora assopra.
            Vou, em poucas linhas, provar que, lendo bastante, você poderá ter rapidamente as 3 coisas que em geral jovens saudáveis e antenados desejam. Preparado? Então raciocine junto comigo:

            SEXO!

           De maneira bem realista, se você é gêmeo do Gianechini, clone do Brad Pitt ou até mesmo um rústico Alexandre Frota, esqueça o que vou dizer. Cabeças de anta em corpos de cisnes conseguem sexo (ficar, namorar ou qualquer variante) sem precisar ler nem o Pato Donald. Idem para as garotas.
            Mas sem uma boa dose de criatividade, imaginação e informação não há cantada que resista. Seja ao vivo, nas baladas, ou nos chats. Aliás, escrever errado nos chats de paquera, ou na praga dos blogs (quem não tem um atualmente?), é pedir para ser deletado.
            E só quem lê muito desenvolve a criatividade, amplia a imaginação e fica bem informado.
            Quem só repete o que assistiu nas mesas redondas sobre futebol, nem bêbado de boteco agüenta.
            E uma cartinha bem escrita? Um poeminha inspirado e exclusivo para a musa ou muso, hem, hem? Deu certo com o Cyrano de Bergerac (personagem do Victor Hugo), e olha que ele certamente era mais feio, narigudo, desengonçado e tímido que você.
            Se sempre deu certo comigo também, que sou o próprio cão chupando manga, e ainda por cima velhinho e durango, imagine com você que é jovem e esperto.

            DINHEIRO!

            Adivinhei seu pensamento? Como é que você vai ler bastante para ganhar dinheiro no futuro, se lhe falta dinheiro para comprar livros no presente?
            Falso dilema. As bibliotecas estão em toda parte, e você vai ver que barato, literalmente, é ir à uma delas sem a obrigação de fazer pesquisa escolar.
            Faça pesquisa pessoal, isso sim é bom. Leia o que gosta, o que interessa, por prazer de adquirir conhecimentos.
            Ou vá pela Internet. A biblioteca do mundo está dentro dela, a um clique. E, para quem ainda não tem computador, a hora de web em cafés virtuais, por exemplo, custa menos que um cafezinho de coador.
            Vou te dar um estímulo e tanto para você incluir a leitura imediatamente em sua formação profissional: quem não passa nas entrevistas dinâmicas que as empresas realizam hoje em dia é quem não lê. Nenhum empregador é besta de contratar outra besta.
            E mais: você já assistiu algum daqueles programas O Aprendiz? Os selecionados para participar, todos, vieram de faculdades que receberam a trista nota F do Provão. Como é que eram tão competitivos, vindo de facús fundo de quintal? Porque eram moços e moças que sabiam falar bem, se expressar com clareza, e isso só se obtém lendo muito.
            Compare com os políticos, empresários, tesoureiros, que você também assistiu recentemente depondo nas Cpis do Congresso. Até os que tinham o título de professor tropeçavam nas frases, falavam errado pra caramba. Se não eram corruptos, ficou provado que não eram chegados na leitura e, quando professores, devem ter se formado num bordel, nunca numa escola decente.
            Mas e o Lula?
            É a exceção que confirma a regra. Ganhou prestígio, dinheiro, mas seus assessores ficam malucos porque ele se recusa a ler qualquer documento com mais de duas páginas.
            E, como ele mesmo tem afirmado, nunca sabe de nada.

            SUCESSO!

         Para ser bem sucedido, você não precisa, necessariamente, ter sexo, dinheiro e…sucesso em alta escala. Não precisa ser o número um, a vida real não é assim.
            Mas se você fizer a lição de casa direitinho, ou seja, lendo muito e lendo sempre estará sempre sendo muito bem sucedido.
            Nas empresas, as promoções vão para os que tomam mais iniciativas e têem uma visão macro (para o mercado) e micro (para a empresa), desde o office-boy ao gerente.
            Hoje não é só o diploma que conta pontos. Conta sua inteligência, sua cultura, sua versatilidade etc.
            Se você não é filho do dono da empresa nem nasceu com o rabo pra lua, os livros serão suas verdadeiras universidades e cursos de aprimoramento profissional.
            No dia a dia, os livros podem ajudar você a entender de culinária, de filhos e até de informática.
            Mesmo quando não ensina nada objetivamente, todo livro é um manual de auto-ajuda (ou você acha pouco espiar a alma feminina e a aflição masculina por dentro?).
            Recentemente, o Bill Gattes, sim, apenas o homem mais bem sucedido pelos padrões da sociedade materialista, deu uma palestra a jovens estudantes, de alguns minutos apenas, com um único conselho; “Respeite aquele CDF da escola, que vive com a cabeça enterrada nos livros. É certo que ele será seu patrão no futuro.”
            E o Dalai Lama, o homem mais bem sucedido pelos padrões da sociedade espiritualista, resume sua dica em “antes de ser seu próprio Mestre, ouça, leia os outros Mestres”.
            Sim, estude, estude sem preguiça. E estudar, meu bró, vem do latim e nada mais significa que ler.

Ulisses Tavares  é professor, escritor, dramaturgo, compositor, roteirista, poeta, publicitário, jornalista, treinador de executivos em criatividade, consultor de marketing e web business e, se não fosse um leitor voraz, seria apenas mais um zé mané.

            

Edição Ano II – Número 8:

Poesia: A melhor auto-ajuda.

            Calma, esperançoso leitor, iludida leitora, não fiquem bravos comigo, mas ler auto-ajuda geralmente só é bom para os escritores de auto-ajuda.
            Porque não existe receita para ser feliz ou dar certo na vida.
            Sabe por que?
            Porque apenas você sabe o que é bom e serve para você. O que funciona pra um nem sempre funciona para o outro.
            Os únicos livros de auto-ajuda que dá para se respeitar, e são úteis mesmo, são aqueles que ensinam novas receitas de bolo, como consertar objetos quebrados em casa ou como operar um computador.
            Ou seja, lidar com as coisas concretas, reais, exige um conhecimento também real, tim-tim por tim-tim, item por ítem.
            Com gente é diferente.
            Gente não vem com manual de instruções quando nasce. Nem pra viver nem pra morrer.
            E se você precisa de conforto ou de conselhos, existem caminhos bem fáceis e boa parte deles de graça: igrejas, templos, botecos ou…amigos, parentes, lembrou?
            Se alguém anda necessitado de regras, palavras de ordem e comandos enérgicos sobre o que fazer, melhor entrar para o exército.
            Mas se você não quer deixar ninguém mandar em você, tenha coragem e encare-se de frente.
            Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas.
            Elas sempre correm juntinho, coladas em você.
            Tentar ser perfeito, fazer o máximo, transformar-se em outro, dói mais ainda.
            Colar um sorriso no rosto enquanto chora por dentro é para palhaço de circo.
            Portanto entregue-se, seja apenas um ser humano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições.
            Você é um ser humano, queira ou não. Não apenas um coelhinho transador ou um japinha trabalhador. Então, aproveite e use algo que, isso sim, com certeza, é igual em todos nós:
            A capacidade de imaginar, de voar, se entregar.
            Se nem Freud te explica, tente a poesia.
            Ah, e a poesia vai resolver teus problemas existenciais?
            Provavelmente não.
            A poesia às vezes é como aquele bordão do Chacrinha, não veio pra explicar, mas pra confundir.
            Quando acerta é por acaso, como na vida.
            Ficar confuso é o normal, relaxe e aproveite.
            Você não precisa ajeitar o casamento. Precisa é amar.
            Você não precisa ser super na cama. Precisa é gozar.
            Você não precisa de um super salário. Precisa é gostar do trabalho.
            Selecionamos alguns trechos de poemas que provavelmente falam das respostas que você anda procurando em livros de auto-ajuda.
            Tomara que ajudem.
             O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os mistérios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que onde quer que ele fosse ou olhasse um poeta já havia passado por ali.
            Então, venha junto com os poetas que indicamos aqui.
            O sábio Mário Quintana já dizia que um bom poema é aquele que nos dá a impressão que está lendo a gente…e não a gente à ele.
            Estão todos na livraria, biblioteca ou página da internet mais próxima.
            De propósito, não selecionei nenhum medalhão ou desses poetas que estão em muitos livros escolares, como eu. Poesia está mais pra lição de vida que lição de casa.
            E depois vá em frente. Procure outros poetas.
            Você nunca mais estará tão sozinho a ponto de achar que precisa de um livro de auto-ajuda para mostrar o caminho das pedras.

 

Auto-Piedade:

 Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim…
(Glauco Mattoso-”Confessional”)

 

 Adeus amor:

 Nem que a vaca tussa
Quero mais tua fuça…
Mas por dentro o coração soluça.
(Leila Míccolis – “As aparências enganam”)

 

Acasalamento:

Comigo é assim:
ficar olhando não basta. Vou logo
precipitando borrasca e estrela.
Que se cuide o olhar alheio quando
olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
peço café e pijama, e fico pastando
com esse olhar de boi manso
no breve espaço da cama.
(Affonso Romano de Sant’ana – “Limitações do flerte”)

 

 

Envelheci:
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem. 
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.
 

Auto-estima:

 eu não preciso
que você goste
de mim
auto-estima
é isso?
(Nicolas Behr – “Auto-estima”)

 

Amar é…

noite de chuva
debaixo das cobertas
as descobertas
(Ricardo Silvestrin – sem título)

 

Bombando:

Não vou
morrer de enfarte
em plena festa
nem de fome
nesta fartura.
Quando sou
a última estrela que me resta,
resolvo brilhar
e aí ninguém me segura.
(Bráulio Tavares – “Palco iluminado 2″)

 

 Convicção:

desta vez fiquei certamente confuso
mas disto estou certo
antes não estava certo de estar confuso.
(Cacaso-”Espelho Mágico”)

 

 De profundis:

 Por dentro de mim
onde
não existo mais.
Por dentro
onde não caibo.
Tão fundo
como se não fosse.
(Álvaro Alves de Faria – “Vagas lembranças, 24″)

 

Envelhecer:

Da infância, meu amigo:
Você aventura gostoso
E nunca pensa em perigo!
Mas depois quanto mais cresço
e quanto mais envelheço
mais segurança persigo
mais aparece perigo!
(Domingos Pellegrini-”Orações e Saudades”)

 

Indecente:

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos matam sutilmente
são muito mais imorais,
são muito mais indecentes.
(Leila Míccolis – “Ponto de vista”)

 

Meu  e teu:

o meu e teu
num momento
é só meu
e teu e meu
num momento
é só teu
(Marcelo Tápia – “eu/eu”)

 

Paixão:

 Aos apaixonados não faz falta o mundo.
A um apaixonado não faz falta nada.
A não ser o outro. Junto.
(Cairo Trindade – ” Exílio”)

 

Mulher de trinta:

Deus, dai-me
Paciência de novo
(eu preciso)
amor, amores, amigos
felicidade, sempre
filhos, um dia
sexo selvagem
o vil metal
e muitas viagens
(Carla Bonfim – “Oração dos trinta anos”)

 

Narcisa:

 Quando me olho no espelho,
Sou pomba capaz de vôos
E arrulhos.
(Raquel Naveira – sem título)

 

Ninfo:

 Dia sim, feliz da vida,
passo carmim, vou pra varanda.
Dia não, bem deprimida,
deito no chão, tudo desanda.
Dia sim?
transo com todo mundo.
Dia não?
também e a todo instante.
É que em matéria de sacanagem
eu já sou bem constante.
(Laura Esteves – “Inconstante”)

 

Racismo:

  Disseram: às vezes um negro compromete o produto.
Ela soube que inventaram que o povo do Brasil comprador
É branco, só pode ser branco. O branco total. O branco maior.
A não ser que amanhecesse branca…
Loura, cabelos de seda shampoo…
Mas a sua cor continua a mesma.
Ela sofreu. Eu vi. Sofri.
Luther Marketing, Luther Marcheting
Luther Marketing no Brasil.
(Elisa Lucinda – “Ashell a shell pra todo mundo Ashell”)

 

Tudo se repete:

 travesseiro novo
primeiras confissões
a história do antigo
(Alice Ruiz – sem título)

 

Vôo duplo:

 onde vou

levo-me
onde sou
nós
vôo
ao fundo
(Frederico Barbosa – “Nós/Paisagens, 4″)

 

Dicotomia:

 Como você pode ver,
o lado direito da minha
boca é alegre.
O lado esquerdo é triste.
Assim também são
os meus olhos.
(Celso de Alencar-”Fotografia rasgada”)

 

Curioso:

uma geração pulou no abismo
mas você foi mais adiante
ou saltou mais fundo
levantou a tampa da vida
para ver o que havia por baixo
para ver que não havia nada embaixo
(Cláudio Willer – “Homenagem a Dashiell Hammett”)

 

Religare:

Estou naquele estado
de religião
Tudo é maior
E sou pertencente.
(Hamilton Faria-”Religare”)


Ulisses Tavares está lançando “Se nem Freud explica, tente a poesia!”, Editora Francis, reunindo trechos de mais de 300 poetas da antiguidade até nossos dias, agrupados em verbetes sobre as grandes e pequenas questões humanas. Não é um livro de auto-ajuda. Mas pode até ser.

 

Edição Ano II – Número 9:

(P.S.: este artigo, por adequação ao espaço, saiu em versão compacta na Revista Discutindo Literatura, com o título “Escrever: Vicioso Ofício”. Aqui está a versão integral).

 

UM DIA TÍPICO DE UM ESCRITOR BRASILEIRO

            Há mais de quarenta anos (estou com 56, comecei cedo, aos 9) que me revezo entre oito profissões para ganhar a vida.
            Me acostumei a, quando me interessa e preciso, exercer uma ou outra atividade e muitas vezes fazer tudo ao mesmo tempo.
            Tenho sido jornalista, professor de pós-graduação, compositor, dramaturgo, roteirista de cinema e televisão, criativo publicitário, marketeiro político e treinador de executivos em web business e criatividade.
            Nos intervalos, nunca deixei de ser poeta e, talvez por isso, ter uma montanha de livros de poesia para crianças, jovens e adultos, e estar com mais de quatro milhões de exemplares vendidos, o que, no Brasil, até a mim espanta.
            Daí, de três anos para cá, resolvi ser apenas escritor profissional.
            A decisão foi difícil mas estou satisfeito pelo seu principal efeito colateral: como meu status caiu de um carro importado para um fusquinha, nunca mais serei rico a ponto de atrair mulheres interesseiras.
            Quem me amar vai me amar pelo que sou: um poeta tupiniquim, apaixonado mas durango.
            Meio chato é quando novos conhecidos me perguntam minha profissão e eu respondo que sou poeta.
            Inevitavelmente, vem a pergunta seguinte:
            _Tá bom, mas você trabalha em quê?
            Como poeta não trabalha mesmo nunca, segundo o senso comum, acordo eu bem cedinho disposto a escrever meu artigo para esta revista, já atrasado.
            Mas, antes, abro os e-mails e vejo se tem alguma coisa urgente para resolver.
            Tem várias, pela ordem:
            Uma editora não quer aceitar meu contrato de um novo livro porque não abro mão dos 10% de direitos autorais. Como a maioria dos escritores possui outra fonte de renda paralela, também a maioria das editoras se acostumou a pagar menos de 10% já que o autor não vai depender dessa renda para sobreviver. Ou seja, escritor brasileiro é mal pago por culpa dele mesmo, tsc, tsc.
            Outra editora alega que é impossível adiantar um dinheiro para que eu escreva um livro histórico, ou seja, um projeto que vai me consumir um ano inteiro. Ao contrário dos estados desunidos e das ôropas, aqui a editora lança uma porção de livros sem custo autoral inicial. Se colar, colou. Se for sucesso, ótimo. Lá fora, o critério é mais rígido. Lança-se menos títulos, mas se investe no projeto do escritor rotineiramente. O Brasil é um dos países que maior quantidade de livros edita no mundo. Mais de 10 títulos novos por dia! E as tiragens são cada vez menores.
            E finalmente outro e-mail me informa que minha agente literária é uma chata porque teima em discutir item por item dos meus contratos. Traduzindo: a Maria Moura, minha agente, é uma pentelha porque é profissional cuidadosa. As editoras gostam de escritor que assina tudo sem ler nada, como eu já fiz muitas vezes.
            Para não ficar ainda mais careca de preocupação com esses problemas que já estou careca de saber, deixo de lado e me concentro em escrever.
            Nem começo e já sou interrompido por dois telefonemas:
            O primeiro, um convite para bolar um artigo para uma revista de educação, dirigida as professoras. Pedem minha compreensão para o fato que só podem pagar cem reais pelas quatro páginas de texto. Olho o pedreiro que contratei para consertar as telhas estragadas pelas últimas chuvas em Sampa, com inveja. Ele está me cobrando o preço de 3 artigos da revista!
            O segundo telefonema é um convite da secretaria de cultura para um mega evento de poetas e escritores paulistanos. Acontecimento bonito, bem organizado e bem divulgado. O único detalhe dissonante é que o edital não prevê nenhum cachê para os participantes. A alma da festa não irá receber um tostão para o pão nosso de cada dia. Escritores e poetas devem se contentar com os aplausos, desde que tenham dinheiro para a passagem até o palco, claro.
            Mas vamos escrever que essa é a vida que escolhi e quis.
            Paro na primeira frase porque chegou o carteiro com uma pilha de cartas. Nenhuma cartinha simpática de leitor. Nenhum cartão de feliz aniversário atrasado. Apenas contas a pagar e malas-diretas me oferecendo cartões de crédito. O correio eletrônico tornou o carteiro apenas um portador de más notícias!
            Desanimado, leio que esqueci de pagar uma conta de IPTU de anos atrás. Mas posso ficar tranqüilo que a Prefeitura me oferece parcelamento da dívida. Desde que eu perca metade do dia indo até a tesouraria, evidente!
            E nem isso posso fazer porque meus rendimentos de direitos autorais não cobrem o valor do IPTU. Acho que nem minha modesta casa vale tanto assim. Como são férias escolares, meus livros infanto-juvenis despencam nas vendas. Há muito tempo que as escolas, via programas do governo, são as únicas e principais compradoras de livros infanto-juvenis. E evidentemente não compram nas férias. E se amanhã o governo deixar de dar verbas para aquisição de livros para distribuição gratuita aos alunos, a maioria das editoras fecha as portas em seguida. Todos os envolvidos nessa questão, se fazem de cegos em tiroteio. Afinal, é chocante saber que em mais de uma década de distribuição gratuita de livros para estudantes de escolas públicas…não se formou um leitor a mais! Simplesmente porque a educação continua uma porcaria frita e os alunos, coitados, mal passados, não aprendem a ler. Sem saber ler, vão fazer o que com os livros que ganham? É como dar rapadura para um banguela. Simples e trágico assim.
            Já que não consigo escrever o artigo para a Revista Discutindo Literatura, relaxo e vou para o lançamento de amigos escritores num bar de Vila Madalena. Vai ser bom rir um pouco que não sou de ferro e minha coluna muito menos. Tenho a popular “coluna de escritor”. De tanto escrever horas a fio com a coluna torta, o escritor é um candidato à corcunda de notre dame.
            O lançamento é interrompido violentamente, o bar fecha as portas, todo mundo sai correndo porque o PCC acabou de incendiar um ônibus na rua ao lado.
            Volto pra casa, ligo a televisão e vejo o governador dizendo que a violência está sob controle, que ataques dos bandidos não irão intimidar as autoridades. Como não sou autoridade…fico intimidado.
            O dia está terminando e talvez dê tempo de escrever, afinal este é meu ofício.
            Mas, humanamente, durmo.
            Quem sabe amanhã eu acorde e resolva mudar para uma profissão menos folgada que esta de típico escritor brasileiro.
            Sei que minto para mim mesmo, para me consolar.
            Escrever, para quem gosta, já não é ofício. Rimando sem querer, é um vício.
 

Ulisses Tavares sofre do efeito Tostines: não vive melhor porque insiste em ser escritor e poeta? Ou é escritor e poeta e por isso não vive melhor?

 

Edição Ano II – Número 10:

(P.S.: na Revista, este artigo saiu com o título “Versos Que Vendem”)

 A propaganda dos poetas. E os poetas da propaganda.

          Em setembro, tive a alegria de ser um dos coordenadores da Primeira Semana de Poesia da Escola Superior de Propaganda e Marketing-ESPM- de São Paulo. Muitas e variadas atrações, com pesos pesados da crítica literária e da poesia brasileira.
          E tive a tristeza de constatar o óbvio: os universitários, com as poucas exceções de sempre, não parecem se entusiasmar pelo tema literatura, mesmo sendo de graça e de alta qualidade como neste evento da Espm.
           Perderam, assim, a chance de compartilhar a sabedoria atualizada de um Cláudio Willer, de um Carrascoza, de um Franceschi, de um Mauro Salles e, até, a performance do ator Pascoal da Conceição que tirou as calças e, de bunda de fora, deu um show sobre Mário de Andrade e o modernismo.
           Meu lado poeta ficou revoltado, mas meu lado publicitário, mais cínico, me consolou: esses jovens que não se ligam em leitura irão se ferrar em breve. Como é que alguém pode pretender trabalhar em marketing e propaganda se não gosta de ler? Em mais de 30 anos de profissão, nunca conheci um publicitário de sucesso que não gostasse de ler! Simplesmente porque é impossível viver o dia-a-dia da propaganda sem uma boa bagagem cultural. Na minha área, por exemplo, a Criação, as idéias surgem e se concretizam das mais diversas fontes: da moda, da informação factual, do vocabulário, da filosofia, da psicologia, da história, da geografia, enfim, de todos os ramos do conhecimento humano. Sem ser curioso e ser muito lido, o próprio mercado rejeita o sem-leitura na primeira entrevista de seleção.
           É mais fácil alguém que não gosta de ler virar presidente da república que publicitário de sucesso.
           Por isso, no próximo evento da Espm, pois muitos outros virão, já que sua diretoria é de apaixonados pela literatura, meu conselho de puta-velha é: compareçam e aproveitem, meninos, antes que seja tarde demais.
           O estudante que não compareceu às palestras, mesas-redondas e recitais, achando que poesia não tem nada a ver com propaganda, se passou um diploma de burraldo com louvor.
           Grande parte dos nossos maiores escritores e poetas foi (e assim ainda é) dependente da propaganda para sobreviver.
           O que também não é nenhuma novidade: o primeiro poeta que colocou seu talento a serviço do processo de venda de produtos, serviços e idéias (sim, o nome disso hoje é o tal de marketing, aluno alienado!) foi o maior poeta latino, Virgílio. Há mais de 2 mil anos atrás, ele ficou 8 anos escrevendo os 4 volumes do imenso poema Geórgicas. E não porque quisesse. Era para ganhar a vida mesmo. O hiper poema foi encomendado pelo imperador de Roma para convencer as pessoas a voltarem a trabalhar com prazer no campo, já que não cabia mais ninguém na cidade. Leiam e irão ver que o poema é quase um tratado de agricultura. Resumindo, propaganda pura e simples.
           A seguir, divirtam-se com uma seleção de exemplos da língua portuguesa:

           Fernando Pessoa, que dispensa apresentações, em 1928 meteu-se na propaganda e criou o slogan da Coca-Cola, produto recém-chegado ao seu Portugal: “Primeiro, estranha-se! Depois, entranha-se!” O slogan chegou a ter sua utilização proibida, pois as autoridades consideraram que ele insinuava que a Coca-Cola continha substâncias tóxicas. No que o autor deste artigo concorda, pois é viciado nela.

           Casimiro de Abreu, outro clássico, criou a propaganda do Café Fama: “Ah!Venham fregueses!/E venham depressa! Que aqui não se prega/ Nem logro, nem peça.”

         Olavo Bilac, aquele do ouvir estrelas ensinado nas escolas do antigo primário, hoje fundamental, fez a propaganda do Fósforos Brilhante com estes versos: “Aviso a quem é fumante/Tanto o Príncipe de Gales/Como o Dr. Campos Salles/Usam Fósforos Brilhante.”

         Ernesto de Souza, em 1918, criou um hit poético-publicitário que todo mundo lembra geração após geração, para o remédio Rhum Creosotado: “Veja ilustre passageiro/o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado./ E, no entanto, acredite,/ quase morreu de bronquite,/ salvou-o Rhum Creosotado.”

          Augusto dos Anjos, aquele poeta da morte e dos vermes corroendo nossas putrefatas carnes, fez inúmeras propagandas em versinhos, com muita repercussão.Uma delas foi esta, para uma loja de roupas importadas: “Nesta cidade onde o atraso/ Lembra uma cara morfética/ Fez monopólio da estética/ A Loja do Rattacaso.”

          Bastos Tigre e Ary Barroso, em 1934, lançaram a cerveja Brahma em garrafa, grande novidade da época já que, até então, só existia cerveja em barril: “O Brahma Chopp em garrafa,/Querido em todo o Brasil,/Corre longe, a banca abafa,/Igualzinho o de barril.”

            A lista é infindável, mas meu espaço não, por isso paro aqui. Mas aproveito para reiterar (é a mesma coisa, em propaganda, que a gente chama de stressar) que estudante de comunicações que não curte ler, nem ama a literatura, vai ter um problema prático logo de cara quando tentar virar profissional: seus futuros patrões são leitores compulsivos. E, também por causa disso, muito espertos e sabidos.
            Aliás, vários deles estavam lá, na Semana de Poesia da Espm. E outros tantos estarão nas próximas. Jovem que não for, dançou, marcou bobeira. Amém.

Ulisses Tavares, poeta nas horas plenas, publicitário nas horas vagas.

 

Ano II – Edição número 11:

(P.S.: na Revista, este artigo saiu com o título “Ler Sem Sair do Lugar”)

Como ler muito e continuar na mesma.

            Dizem que o peixe morre pela boca, principalmente quando abocanha o anzol crente que era uma deliciosa minhoca.
            No sentido figurado, o poeta aqui deu uma de peixe.
            Durante os últimos anos, tenho defendido que as pessoas devem ler, e muito, e sempre, e o que quiserem ou gostarem. Com unhas e dentes, advoguei em palestras que é melhor ler pouco do que nada. E já saí espalhando por aí que mais vale uma leitura tola e fútil que servirá como treinamento para leituras de mais fôlego, no futuro.
            Fui um dos primeiros a louvar a Internet como ferramenta que forçasse os jovens a, no mínimo, praticarem a linguagem escrita e despertasse a geração adormecida (como a Pátria, no Hino Nacional) em berço esplêndido para novos conhecimentos.
            Pois é. Eu, em grande medida, estava errado. Mordi a isca e entalei com o ferrão do anzol da realidade.
            Minhas “verdades” não resistem as mais recentes pesquisas sobre hábitos de leitura e vou esclarecer tudo neste artigo, porque persistir no erro, mesmo que bem intencionado, é pura burrice.
            Primeiro, arriemos do mastro a bandeira de que, de porcaria em porcaria literária, de livros em livros água-com-açúcar, aos poucos o leitor ingressaria no mundo vasto mundo da literatura clássica ou no instigante e complexo universo da literatura contemporânea.
            Sei que não apenas eu como muitos professores esperançosos, apostamos nessa possibilidade.
            Infelizmente, os fatos nos desmentem.
            Levantamento de entidades ligados ao livro, como a CBL, constataram o óbvio: as tiragens dos romances cor-de-rosa, no Brasil, são de fato gigantescas e ávidamente consumidas as centenas dos milhares nas bancas de jornais.
            Maravilha, em princípio.
            Só que um dado surpreendente e assustador emerge da pesquisa: quem lê esse tipo de literatura, continua lendo imutáveis historinhas de amor pelo resto da vida.
            Trocando em miúdos, as jovens e maduras leitoras sonhadoras desse segmento (uma versão atualizada dos antigos folhetins) lêem muito. E trocando em graúdos, não lêem nem se interessam por nenhum outro gênero ou tipo de livros.
            Certamente, não é esse leitor que vai compor o País de Leitores que nosso romantismo canta nestes tempos escuros.
            Agora, a Internet.
            É inegável que os jovens, em especial, estão trocando o hábito de leitura de jornais, revistas e livros, pela consulta na telinha digital.
            O mercado de livros vendidos nas livrarias já encolheu pela metade.
            E o tempo dedicado à mídia tradicional (a mídia impressa e televisiva) também caiu 40%.
            Um fenômeno com conseqüências imprevisíveis mas não assustador, pois quando Gutemberg inventou os tipos móveis também se achava o fim dos tempos, afinal livros eram copiados à mão.
            O que dá o que pensar, e preocupar, é que os neo-leitores, a geração web, está lendo mais…porém sem nenhum critério.
            Os trabalhos escolares estão recheados de textos catados na internet e…sem contexto!
            Parágrafos inteiros de grandes pensadores são copiados sem citar a fonte.
            Os poemas, então, são massacrados diariamente.
            Aquele famoso de Gabriel Garcia Marques, La Marioneta, que supostamente celebra a vida de um Gabriel a beira da morte, nunca foi do grande Gabo.
            Seu autor é um ventríloquo mexicano, Johnny Welch, que escreveu o poema para seu boneco!
           Em suma, os webeiros estão lendo qualquer droga e passando pra frente como obras definitivas.
            Isso não é conhecimento. É preguiça pura.
            E leitor preguiçoso nunca vai virar um bom leitor. Como apenas ouvir música estilo sertanojo e quebra-barraco não é um bom primeiro degrau para se transformar em requintado ouvinte de Bach.
            Por incrível que pareça, apenas os contumazes e fiéis leitores e fazedores de quebra-cabeças (essa categoria também composta de revistinhas e livrinhos best-sellers), estão no bom caminho da habilitação a carta de motorista leitor-premium.
            Enriquecem seu vocabulário. Lembremos que sem amplo vocabulário não se chegará a ler e entender nem bulas de remédio ou anúncios de imóveis.
            E, de lambuja, exercitam o cérebro evitando o mal de Alzheimer.
            Acaba meu espaço mas continuam as coisas aí pedindo para refletirmos juntos. Cartas para a redação. Ler, pensar e coçar é só começar.
 

Ulisses Tavares, poeta, escritor, professor, dramaturgo e filósofo multiuso.

 

Edição Ano II – Número 12:

(P.S.: Na Revista, este artigo saiu com o título “Imundo Mundo Sem Poesia”)

Mundo sem poesia é imundo.

         A realidade da vida, em si mesma, não se sustenta.
           O ser humano é mais que um organismo que precisa de comida, roupa, sono e ar.
          As pessoas são famintas de carinho, ficam frias sem o cobertor da esperança, não dormem direito apenas com os braços de travesseiros, e querem, sempre, voar nos pensamentos. Respirar não basta, não preenche. Queremos inspiração para criar, amar, repartir. Aspiramos ser um outro ser, o que não somos podemos imaginar.
            Nem o macaco no zoológico agüenta as limitações, por mais bem tratado que seja. Claro que ele trocaria de bom grado a sua jaula pela liberdade da floresta.
           Deixamos para amanhã a luz que poderíamos ter ainda hoje. Nos assusta a poesia que iluminaria o túnel escuro em que nos arrastamos.
            Nós, os macacos evoluídos, temos a dor e o prazer de querer romper limites. E procuramos desesperadamente achar a chave da gaiola da civilização.
            A chave está dentro da gente. Sabemos disso. Mas dá trabalho procurar com afinco. Dói nos conhecermos.
            Daí desistimos com facilidade.
            E preferimos ficar macaqueando a farsa que a realidade externa nos mostra como felicidade.
            Triste espelho distorcido esse do dia-a-dia em que nos miramos para ajeitar o sorriso no rosto enquanto a alma chora.
            E vamos dançar, vamos para a balada. A música é alta para atordoar, a bebida forte para alterar rápido, e os corpos se juntam hoje para se desjuntarem amanhã cedinho como copinhos descartáveis de café.
            Queremos amor, claro. Só queremos e não temos porque, como todos, não desenvolvemos a delicadeza da entrega, da generosidade, do gosto pelas diferenças, pelas descobertas lentas, cautelosas e profundas.
            Os poemas escancarados de amor, de paixão, de entrega, de renúncia ao seu próprio umbigo, vão rareando, encolhendo, sumindo.
            Poema de amor não enche barriga, dizemos. Nem ajuda a conquistar beltrana, a impressionar fulano.
            E seguimos assombrados e sozinhos e surpresos porque contas bancárias, academias de ginástica e carro novo, também não conseguem nos tirar de nossa solidão.
            Nos contentamos com prazer sexual sem nunca chegar ao orgasmo espiritual, cósmico, que um simples e poderoso verso proporciona.
            E assistimos o noticiário para que este nos confirme que a poesia é inútil.
            Claro que nenhum bandido gosta de poesia. O poema é o território do humano, do sensível, do compartilhar. Nada a ver com o território sangrento de sua violência.
            Poderosos também não são chegados. Poesias insistem, frequentemente, em lembrar que existe todo um povo em redor deles, com seus apelos e urgências. Então, a política fica sendo a chatice, o tédio, o exercício vazio da crueldade. Falta o sonho. Política sem sonho é apenas um discurso.
            Demoramos milênios para adquirir o dom da fala. Séculos para dominarmos a escrita.
            Aprendemos a registrar em letras aquilo que estava engasgado na garganta imaterial de nosso íntimo.
            Frase após frase, passamos pela vida a procurar uma resposta.
            E todas as respostas estão ali, na nossa frente. São muitas porque muitas são nossas perguntas.
            Mas uma dessas respostas foi feita para nós por um de nossos semelhantes. A mesma coisa que nos inquieta também afligiu algum poeta, em algum momento.
            Teremos a coragem de ouvir?
            Poesia não se destina a fracos. Antenados percebem que da fraqueza vem sua força.
            Onde quer que se vá, um poeta já se atreveu a passar por lá. Pelos céus e pelos infernos de todos nós.
            A tecnologia muda, os costumes mudam, mas o ser humano é o que sempre foi e será, nem muito melhor, nem muito pior que isso que está aí.
            Dia a dia rima com poesia sim. Você decide. Abra um livro de poesia já. Antes que seja tarde.

  Ulisses Tavares é, claro, poeta, mas não otário, mano.

 

Edição Ano III – Número 13:

Poetas que não foram (ainda) pra escola!

           Minhas idéias sobre a pouca leitura e prestígio da poesia no Brasil todo mundo co­nhece: ela é o patinho feio que é um cisne en­tre todos os cisnes da Literatura; é preciso certo preparo para entender e diferenciar a boa da má poesia, e como muito se publica e pouco se lê, as coisas não mudam; e, finalmente, o horror dos horrores, os professores não correm atrás das novidades por preguiça, despreparo, e porque os alunos não ligam pra isso mesmo.
          Aproveitando o espaço, e supondo que o leitor desta revista seja mais antenado do que a média, a partir desta edição apresento alguns poetas que mereciam constar como leitura obrigatória nas salas de aula, mas por inúmeros motivos raramente algum professor conhece ou já ouviu falar. Nada melhor que passar a palavra aos próprios, pois nesse ofício eles são diplomados pela vida. E pela poesia viva.
          Começamos pela carioca Leila Miccolis.  Ela é escritora, editora, professora de roteiro de televisão e promotora cultural. Na te­levisão escreveu novelas como Kananga do Japão, Barriga de Aluguel e Mandacaru. Também escreveu livros de prosa, contos, crônicas, ensaios. O livro Sangue Cenográfico foi prefaciado por Ignácio de Loyola Brandão, Gilberto Mendonça Teles, Heloísa Buarque de Holanda e Nélida Piíion. Nesse título, a poeta reuniu boa parte dos textos de todas as suas mais de 30 obras.

Discutindo Literatura (DL) – Quem é você na poesia brasileira hoje?

Leila Miccolis (LM) - Acho que sou úni­ca, aliás, como cada um dos poetas. Mi­nha maior qualidade é enveredar por ca­minhos que abrem horizontes para a poética escrita por mulheres, produção que até a minha geração, nos anos 70, era muito atrelada a chavões e visões es­tereotipadas de um mundo ingênuo e dicotomizado: o bem e o mal, a tristeza e a alegria, a dor e o prazer. Salvo escritoras esparsas, tais interpretações eram superfi­ciais e até mesmo alienadas, na maioria das vezes, fazendo com que a poesia fa­lasse de um “belo” ilusório e irreal. Minha poesia é crítica e critica, e, mesmo quando as pessoas sorriem com a ironia dela, no fundo se perguntam: estou rindo de que ou de quem? Minha poesia joga, e nesse jogo estão não só as noções de lúdico, co­mo também de articulação, de desafio, de aposta, de regras, de vitórias e derrotas. Minha poesia questiona, provoca, agride. Ela denuncia, mas com humor.

DL - Na sua opinião, quem lê poesia na atualidade?

LM - Não sou partidária de slogans do tipo: “a poesia morreu”, “não se lê poe­sia hoje”, ou “poesia não vende”. Ao contrário, acho que nunca se leu tanto poesia, e, se não vendesse, os catálogos das editoras não estariam repletos de obras poéticas. Até mesmo as editoras de médio porte e as cooperativadas lucram com o número crescente de poetas que estão surgindo. Isso se deve, creio, a um público que gosta dos modernistas, outro dos clássicos, outro dos românticos, dos condoreiros, etc. Enfim, acredito que exis­te mercado para todas as tendências, pa­ra todo tipo de leitor. No entanto são ra­ros os poetas que conseguem atingir simultaneamente diversas taixas como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Raui Seixas, Paulo Leminski, você e eu. Penso que conseguimos essa façanha pe­lo aspecto aparentemente lúdico de nos­sa poesia, também pelo elemento con-testador, pelo coloquiaiismo e peia abordagem de temas atuais e de interes­se coletivo, com enfoques originais.

DL - Dá para viver de poesia no Brasil?

LM - De poesia exclusivamente, não. De Literatura, dá, se você não for muito ambi­cioso, perdulário, ou consumista… [risos].

DL - Por que você escolheu ser poeta, apesar de tudo?

LM - Porque para mim a poesia não é um gênero literário; é um modo de vi­da, um caminho em direção à essência. A língua, a fala, a palavra não são me­ros instrumentos de comunicação; não somos os donos da linguagem; muito ao contrário, é a linguagem que nos faz. É ela que nos constrói.

DL - A poesia que chega às escolas é a melhor?

LM - Não sei se é a melhor, pois esses critérios são bastante relativos; mas é a mais tradicional, até porque, na maioria das vezes, só ela é conhecida. E o jovem não se interessa por ela porque não é uma poesia que o emocione, o mobilize, ou o toque. Essa poesia lhe parece antiga, pesada, “passada”, muito da sua realidade; comumente essa poe­sia “didática” apenas acirra o abismo e a defasagem entre Arte e cotidiano.

DL - Os professores poderiam dar uma força maior para a leitura da poesia contemporânea?

LM - Acabei há pouco meu mestrado em Literatura, talvez para ver, na prática, como se pode fazer isso… Na verdade, acho que o melhor seria incentivar os próprios professores a lerem poesia con­temporânea, pois a maioria deles conhe­ce poesia só até o Modernismo. Os mais ousados chegam à fase concretista… E nada mais. Quando falamos em trans-vanguarda, olhos se arregalam. São pou­cos os professores antenados com as tendências contemporâneas da poesia, capazes de incentivar os alunos a procu­rar seus próprios caminhos poéticos.

DL - O que fazer para convencer os jo­vens a lerem poesia? LM – Levá-los à poesia sem tentar convencê-los a lerem… [risos]; incentivá-los a criar seus próprios poemas – só se apren­de a escrever escrevendo -; despertar ne­les o interesse de publicação, nem que de início seja apenas para conhecerem a rea­ção das pessoas aos seus escritos, pois ler e escrever são binômios a meu ver insepa­ráveis; por fim apresentá-los a uma poesia do século 21, ágil, direta, direcionada às suas indagações e indignações. É por isso que meu próximo livro (já pronto, a espera de editor) se chama Poesia para Jovens sem Tempo de Ler Poesia.

 

Edição Ano III – Número 14:

 Poetas que não foram (ainda) pra escola!

           Não, juventude antenada desta Nação destrambelhada, vocês não viram, mas seus nem tão velhos papais sim: na década de 80, houve uma tentativa, bem de acordo com a onda do desbunde da época, de repetir a Se­mana de 22 no Teatro Municipal de São Pau­lo. Como se sabe, a Semana de 22 foi um ar­raso, um choque cultural, um divisor de águas. Com direito aos quadros estranhos de Tarsila do Amaral, aos poemas de Oswaido de Andrade e irreverências mil.
           No revival desse evento – o Festival de Poesia e Arte, no mesmo vetusto e formal Teatro Municipal de São Paulo -, um jo­vem poeta carioca, Tavinho Paes, fez uma performance impensável para os trans­gressores, mas educados, modernistas: um longo xixi poético no palco! Sem ser convi­dado à intervenção, ele entrou em cena e soltou sua célebre frase “peru de fora dá palpite!”. Saiu do palco para entrar na his­tória da poesia marginal.
            Hoje, aos 52 anos, Tavinho Paes conti­nua desbocado e maluco beleza. É quase certo que o jovem leitor o conheça por suas mais de 200 composições musicais, como Totalmente Demais, consagrada na voz de Caetano Veloso, e Rádio B/á, que se tornou conhecida cantada por Lobão. Mas poucos conhecem seus mais de cem títulos literá­rios. Uma obra poética densa e interessan­te, ainda não descoberta pelas apostilas e livros paradidáticos.
            Seus poemas até chegam ao público mais descolado, pois é um incansável viajan­te da poesia mão a mão, coração a coração.

Discutindo Literatura (DL) - Quem é você na poesia brasileira hoje?

Tavinho Paes (TP) - Metaforicamente, sou um relâmpago autista – o som che­ga mais rápido que a luz. Deve ser por is­so que faço barulho, mas ninguém sabe de onde esse barulho vem. Acho que es­crevo literalmente para cegos: eles me escutam nos saraus (e até no rádio), mas não conseguem me ler, porque ainda não publico em Braille. A Poesia Brasilei­ra de hoje é tão moderna que nem se lê.

DL - Fora poesia, em que formato o seu trabalho é mais conhecido?

TP - Na música, como compositor e le-trista – os poemas que publiquei antes, em livros artesanais, foram adaptados ao relógio musical e chegaram a Caetano, Gil, Gal, Lobão e outrem. É mais fácil me encontrar no rádio do que numa biblio­teca. Há quem me conheça pelos even­tos que realizo – como o poemaShow e o Festival Poesia Voa – e quem me iden­tifique como malandro, meliante, mente­capto. Não sou unanimidade de nada nem apêndice de especialidades.

DL – Dá para viver de poesia no Brasil? TP – Sendo ou não poeta, sem poesia não dá para viver de bem consigo mes­mo. De 72 até 88, vivi exclusivamente dos livretos que imprimia e vendia mano a mano, cara a cara, pelas ruas. Desde que publiquei meu primeiro panfleto, saí do mesmo subúrbio de onde saíram Lú­cio Flávio e Elias Maluco, e passei a mo­rar entre Copacabana e Leblon, viajar ao exterior e freqüentar (meio de bicão, é claro) lugares da moda. Com bolsas, ne­gociadas na palavra, meus filhos estuda­ram em boas escolas e se formaram em boas universidades. Poesia não dá gra­na; mas dá conteúdo versátil para preen­cher um vazio que o dinheiro não com­pra. Com suas ferramentas lúdicas para entender e superar diversidades, ela mo­ve moinhos. Quando se diz que poesia não vende, deve-se entender assim: poe­sia não está à venda; mas fazendo bom uso do que ela proporciona ao bem-estar espiritual, muitos problemas se re­solvem como se nem existissem.

DL - Diga um poema seu, ou trecho, se for muito longo.

TP - Para continuar no papo da grana, que é o que interessa a todo mundo, aí vai um intitulado Super Mercado. O amor é um artigo caro /  desejado por muitos / disponível para uns poucos / vendido no mercado dos acasos / onde seu preço / cem por cento / só pode ser pago com o troco.

DL - Quem lê poesia hoje, em sua opinião?

TP - Olhando indicadores de mercado, em que os livros são um vetor técnico confiável, é mais fácil identificar quem não a lê. Diria que os atuais melhores leitores de poesia a lêem em voz alta.

DL - Os professores poderiam dar uma força maior para a leitura da poesia contemporânea? Como fazer isso? TP – Treinando e praticando o seu ofício com prazer, eles seriam os melhores mo­nitores para tal tarefa, mas teríamos que modificar o modo com que atuam e a metodologia que serve de caminho para levar poesia até os alunos. Como passar um livro de mão em mão e cada mão ler algo que lhe encaixe como uma luva.

DL - Indique um livro seu e como adquiri-lo.

TP - Os Momossexuais, através do site www.poemashow.com.br.

DL - Por que você escolheu ser poeta apesar de tudo?

TP - Fui escolhido, por forças que supe­ram meu raciocínio: mas é a minha força-ação que faz com que esta escolha intimamente me pertença.

DL - O que fazer para convencer os jo­vens a ler poesia?

TP - O método mais eficaz são palma­das. Iguais às que se dão nos recém-nascidos tão logo os médicos decidem que devem cortar o cordão umbilical. Há outros meios, como o cinema, o teatro, a música e até o bale. Todos muito sofisti­cados e entediantes para uma juventude que já sabe de tudo e que, do tudo que sabe, sabe o que quer. Ninguém que não um deles pode convencê-los de nada.

 

Edição Ano III – Número 15:

Poetas que (ainda) não foram pra escola!

            Ele ainda não foi pra escola no sentido de ser adotado, lido e apreciado como merece, mas mui­tos jovens antenados o conhecem pela música Língua, de Caetano Veloso, na qual ele é citado.
            Glauco Mattoso é pseudô­nimo do paulistano de 56 anos Pedro José Ferreira da Silva, e é alusivo ao glaucoma congênito que o cegou na década de 1990, bem como a dois de seus refe­renciais poéticos, Gregório de Matos e Gilka Machado. Embo­ra tenha participado da “poesia marginal” e assimilado influên­cias concretistas, não pode ser enquadrado nessas correntes, por causa da trajetória pessoal, marcada, tematicamente, pelo radicalismo fescenino e escatológico, e, formalmente, pelo resgate de moldes rígidos co­mo o soneto e a décima. Tra­dutor de poetas latino-america­nos, recebeu em 1999 o Prêmio Jabuti por colaborar na edição brasileira da obra completa de Borges. Autor de Jornal Dobra-bil (1981, reeditado em 2001) e de Poesia Digesta: 1974-2004, entre dezenas de obras em ver­so e prosa.
            Caetano Veloso já deu o to­que. Só falta as professoras acor­darem seus alunos para este gran­de poeta contemporâneo.

DISCUTINDO LITERATURA – Quem é você na poesia brasileira hoje?

GLAUCO MATTOSO – Vou ser franco. Já fui modesto quando devia ser arrogante. Agora vou ser jus­to comigo mesmo. Fui marginal e vanguardista enquanto podia ver, mas tomei muito semancol e não fiz propaganda. Agora que estou cego e me superei, cansei de ser boicotado por ter me promovido pouco, e abro o jogo: sou o maior sonetista vivo da língua portu­guesa, e posso provar isso, com mais de 2 mil sonetos corretos na forma e incorretos no tema.

DL - Fora a poesia, onde o público conhece mais seu trabalho?

GM - Como bom pós-maldito (prefiro me definir assim, em vez de pós-moderno), atuei e atuo em várias praias: quando enxergava, fiz poesia visual, quadrinhos, le­tra de música, ensaio, conto, ro­mance, dicionário, crônica e co-lunismo nas mídias. Hoje ainda faço quase tudo isso, com o detalhe de que o colunismo é, agora, também virtual, como na revis­ta eletrônica Cronópios (www.cronopios.com.br). Na mídia impressa, o leitor me acha, por exemplo, na Caros Amigos.

DL - Dá para viver de poesia no Brasil?

GM - Dá para viver em qualquer lugar do planeta e até de outras galáxias, com o perdão do Haroldão. Só não dá para ganhar a vida com ela. A grana, a gente ganha fazendo outra coisa, e a poesia, a gente respira, bebe e come.

DL - Bota aqui um poema seu, o que você mais gosta, ou trechinho, se for muito longo.

GM - Vai um “limeirique”, que é quintilha exata. Nas oficinas que dou, costumo definir a poesia co­mo “uma metralhadora na mão dum palhaço”. Este limeirique ilustra a frase: Um saltimbanco de Franca viu no lixo uma metranca. Em vez de pôr bala, fingiu dispará-la, mas de peido é [o som que banca.

DL - Como é possível, ou mais fácil, encontrar seus livros e seus poemas?

GM - Tenho dezenas de títulos, mas poucos por editoras comer­ciais. As dicas e links estão nos menus do meu próprio sítio, mas em breve tudo passa a ser edita­do ou reeditado pela Dix, selo da Annablume. Os endereços são: www.glaucomattoso.sites.uol.com.br e www.annablume.com.br.

DL - Quem é que lê poesia hoje, na sua opinião?

GM - Depende da poesia. O cor­del, a trova, o haicai e o concretismo continuam com seu público cativo, que não tem idade. Mas um formato clássico e secular, como o soneto, será mais lido pelas novas gerações caso o poeta faça, como eu, um mix da linguagem formal com a fala e as temáticas atuais, inclusive as barbaridades morfológicas e semânticas…

DL - Os professores poderiam dar uma força maior para a leitura da poesia contemporânea? Como fazer isso?

GM - No meu caso já dão, con­siderando a quantidade de TCCs, dissertações e teses sobre minha obra, e acho que a explicação é meu estilo porrada, que vai dire­to no fígado (para quem tem es­tômago) ou no estômago (para quem tem fígado), sem contar os que têm medo…

DL - A poesia que chega às escolas é a melhor?

GM - Nem sei o que está che­gando, mas se ainda for Drummond e Vinícius, acho que é das boas. Mas também é preciso recuar até Gregório ou avançar até, digamos, Glauco Mattoso… Tenho notado que, pelo menos nas faculdades, a contemporaneidade começa a ser notada. O pessoal já não é tão necrófilo.

DL - Indique um Livro seu e como adquiri-lo:

GM - Indico dois, um da fase vi­sual, o fanzine anarco-poético Jornal Dobrabil, reeditado pela Iluminuras, e um mais recente, a antologia Poesia Digesta, edi­tada pela Landy. Estão nas livra­rias virtuais ou nos sítios das edi­toras: www.iluminuras.com.br e www.landy.com.br.

DL - Por que você escolheu ser poe­ta apesar de tudo?

GM - Quintana já deu a resposta, mas também a adoto. A poesia é que escolhe a gente. No meu caso, acrescento que não tive ou­tra escolha, já que não quis me suicidar, nem me alcoolizar, nem me drogar. Preferi o vício do ofí­cio para desabafar a revolta.

DL - O que fazer para convencer os jovens a ler poesia?

GM - Simples. Basta dizer que é melhor que a droga, que o álcool, que o fumo, que o jogo. Mas cuidado! O Ministério da Contracultura adverte: poesia vicia.

 

Edição Ano III – Número 16:

 Coloque o farol na popa e vá em frente!

             Você é uma jangada. Frágil, qualquer onda mais forte balança e quase o afoga. Você é o condutor e o passageiro ao mesmo tempo, candidato ao naufrágio, lutando e rezando para voltar à praia.
            Um país é um barco. Grande, mas nem sempre bem construído. E muito menos bem conduzido. O povo é apenas marinheiro cumprindo ordens.
            A Terra é um navio. Imenso, farto, mas com os passageiros de primeira classe capazes de festejar e dançar enquanto ele afunda como um Titanic.
            Jangada, barco e navio navegam pelas mesmas águas turbulentas da História, numa viagem que começou bem antes e não se sabe onde irá parar.
            O futuro é uma incógnita, mas o passado é a bússola que pode nos indicar se estamos fora da melhor rota. Se pegamos o caminho errado.
            E isso faz toda diferença.
            Sua jangada, precária de corpo e alma, a qualquer momento será engolfada pela tormenta dos azares, do imprevisível. A felicidade é apenas um momento de calmaria entre horas de ventos cortantes.
            As milhas já navegadas, porém, ensinam a prevenir desastres anunciados.
            Olhe os que foram engolidos pelo Triângulo das Bermudas da existência humana: drogas, egoísmo, alienação.
            Sem cuidar do corpo, você será uma casca de noz boiando no mar. Sendo egoísta, virará um homem solitário mesmo se rodeado de gente. Comprará tudo, menos o incomprável: amor, admiração, amizade. E, se alienando, será platéia perpétua, nunca ator no palco da vida. Vota, mas não apita nada.
            Nosso barco País de vez em quando acerta o rumo do porto seguro. Mas, no mais das vezes, parece uma canoa furada onde impera o salve-se quem puder.
            Novamente colocar o farol na popa, a parte de trás, em vez da popa, a parte da frente, nos ajuda a iluminar o hoje e clarear o possível amanhã.
            O barco já começou a navegar errado, com uma elite ociosa e corrupta e sem nenhum apreço pela educação. São séculos de tirar riquezas e colocar pobrezas. Primeiro pelos portugueses, depois por nossa própria conta e escolha.
            Nosso navio Terra, por sua vez, recebe insultos e devolve flores há milênios.
            Mas está com seu casco avariado, sem combustível e superlotado. Sua única saída é sacudir-se e livrar-se da tripulação toda para continuar como no início dos tempos.
            A esperança é que jangada, barco e navio encontrem uma corrente marítima segura para continuarem navegando.
            Não temos como resolver com facilidade tão grave problema. Não dá para enfrentar a fúria de Netuno, o senhor dos mares, esquecendo de Juno, o deus do tempo.
            Juno, aquele de duas faces da mitologia, uma olhando para a frente, outra voltada para o que passou.
            A História, portanto o passado, é nosso manual prático de cabotagem.
            O ser humano tem sido guerreiro, escravagista, fanático religioso e prepotente em todos os quadrantes e latitudes.
            E sempre afundou sua jangada nas procelas da ambição.
            Os governantes tem sido ora populistas, ora mentirosos, ora oportunistas.
            E sempre afundaram o barco do povo em nome de seus mesquinhos interesses pessoais.
            A Terra foi loteada em fronteiras bem delimitadas e guardadas. E essas fronteiras tem sido a justificativa para extrair o máximo de cada metro quadrado sem pensar no vizinho.
            E, como a Terra é redonda, o navio de todos nós é o mesmo e afunda por inteiro.
            Portanto, o axioma está formado, a Esfinge pronta a nos devorar se não dermos a resposta correta.
            Sem conhecer o que já passamos, como iremos decidir onde será melhor passar?
            A História não é algo estático, parado no tempo.
            É uma tsunami indo e vindo, se repetindo, como uma lição que ainda não aprendemos.
            Comecemos pela jangada, passemos para o barco e chegaremos ao navio.
            Sem ler História, de nossa vida, de nosso País, de nosso Planeta, estaremos perdidos.
            E iremos ao fundo, sem a mínima idéia de por que fomos parar lá.

Ulisses Tavares é uma jangada com medo de ir à pique. Porisso se mira na História e tenta mudar o rumo do barco e do navio. Mas se sente um pouco sozinho nessa tarefa. Alguém aí disposto a ajudar? Cartas para a redação.

 

Edição Ano III – Número 17:

Outro poeta que (ainda) não foi pra escola!

          Vivemos tristes tempos em que a poesia nada de costas por­que o rio da cultura, além de ra­so, é infestado de piranhas mal letradas. Mas é bem triste chegar numa escola e ver alunos e pro­fessores mais por fora da poesia contemporânea que umbigo de uma big brother brasil.
          Acorda, gente, e levem o Cel­so de Alencar para dentro das salas de aula que ele merece. Se não encontrarem seus livros com facilidade, escrevam direto para o autor e solicitem poemas.
          Poeta e declamador paranae­se, Celso de Alencar está radi­cado em São Paulo desde 1972. Sobre ele, o poeta e crítico Cláu­dio Willer afirma que se trata do mais enfático poeta contemporâ­neo brasileiro, enquanto o com­positor e poeta Jorge Mautner o considera um poeta da 4a dimen­são, escandalizador e libertador de almas. É reconhecido entre os grandes talemos da geração 70. A convite, apresentou-se na Ingla­terra, França e em Portugal. É tra­dutor da poesia do nicaragüense Rubén Darío e intérprete da po­esia de Mão Tsé-Tung. É autor de Tentações (1979), Salve Salve (1981), Arco Vermelho (1983), Os Reis de Abaeté (1985), O Pastor (1994, infanto-juvenil), O Primei­ro Inferno e Outros Poemas (1994 e 2001), Sete (2002), A Outra Me­tade do Coração (CD – antologia poética) e Testamentos (2003), além de ter participado de diver­sas antologias e ter publicado em revistas e periódicos.

DISCUTINDO LITERATURA - Quem é você na poesia brasileira hoje?

CELSO DE ALENCAR - Sou apenas um camarada que luta pela pró­pria sobrevivência dentro da poe­sia. Um camarada que observa a poesia como alicerce natural de um processo no qual se eviden­ciam o homem, a imagem e a in­venção. Um camarada que julga estranho esse gênero literário por acreditar que contribua incisiva­mente para se alcançar a revolu­ção. A do conhecimento.

DL - Fora a poesia, onde o público conhece mais seu trabalho? CA – Desde a infância, eu falo muito poesia. Sou um viciado devotado. Participo extensamen­te de leituras de poemas, assim o meu trabalho pode ser encontrado, eu diria, com regularidade e particularmente, em recitais. Além de oficinas de poesia fa­lada ministradas por mim e em alguns sites ou blogs como aba-etetubapara.blogspot.com, cli-ckescritores.com.br, antoniomi-randa.com.br e veropoema.net. No Google encontram-se tam­bém algumas informações.

DL - Dá para viver de poesia no Brasil?

CA - Obviamente, não! A história nos mostra que não dá para viver de poesia. Não temos nenhum poeta que tenha vivido ou viva com ganhos extraídos exclusiva­mente da poesia. Eu mesmo sou um servidor público. Temos algu­ma renda oriunda da poesia, mas sinceramente dá apenas para tão-somente perambular pelas ruas.

DL - Bota aqui um poema seu, o que você mais gosta, ou trechinho, se for muito longo:

CA - às vezes eu choro três vezes quando vejo os meus filhos mortos. Eu lhes pergunto: Doem ainda suas rótulas. Já cessaram os tremores em seus joelhos? Vejo-os sobre extenso barco de pesca gritando o meu nome. Dizem-me: Assassino! Uma longa rede estremece sobre mim e vejo meus três filhos em longo aceno.

DL - Como é possível, ou mais fá­cil, encontrar seus livros e seus poemas?

CA - Tenho somente um livro que não se encontra esgotado. É o Testamentos. Quem se interes­sar pode encontrá-lo pelo e-mail dialetica@dialetica.com.br ou pelo telefone (11)5084-4544. Co­mo alternativa sugiro as bibliote­cas. Eu mesmo tenho, com freqü­ência, ido a sebos com o objetivo único de encontrar o Arco Ver­melho, ou O Primeiro Inferno e Outros Poemas, o Salve Salve, O Pastor, o CD A Outra Metade do Coração… Porém, tem sido ingló­ria a minha luta. Do Arco Verme­lho, por exemplo, não tenho ne­nhum exemplar, quando preciso consultá-lo, recorro a amigos.

DL - Quem é que lê poesia hoje na sua opinião?

CA - Os pesquisadores, os edito­res, corrijam-me caso esteja eu cometendo um erro, mas tenho notado uma forte relação de jo­vens com a poesia. Leitores. Sei que se trata de um número pequeno diante de uma população de 170 milhões de pessoas, mas devemos acolher isso com cari­nho. Precisamos permitir o aces­so às comunidades afastadas e destituídas de tudo aquilo que projeta o conhecimento. Somen­te o conhecimento nos conduz ao crescimento, e a poesia tem a pa­lavra como deflagrador.

DL - Os professores poderiam dar uma força maior para a leitura da poesia contemporânea? CA – Tenho uma profunda preo­cupação com essa pergunta. O poder busca sempre um bode expiatório. Na ânsia de eliminar os seus erros, consagra um bo­de. Sinto hoje os professores co­mo bodes expiatórios. A política educacional no Brasil é, na minha opinião, extremamente inconse­qüente. A partir do momento em que tivermos a compreensão do valor da educação, poderemos fa­lar de poesia com os educadores.

DL - A poesia que chega às escolas é a melhor?

CA - É evidente que se trata de uma poesia importante, toda­via julgo fundamental a introdu­ção de novos valores. Não pode­mos indiscutivelmente eliminar Castro Alves, Olavo Bilac, Cecí­lia Meireles, João Cabral, Drum-mond, Gonçalves Dias, etc., mas não podemos esquecer nomes como Renata Pallottini, Álva­ro Alves de Faria, Eunice Arru­da, Dora Ferreira da Silva, Carlos Felipe Moisés, Hilda Hilst. Men­ciono aqui apenas alguns poetas paulistas e estou tratando apenas da poesia. São poetas que pos­suem uma obra significativa e que estão à margem do ensino. Graças a abnegados professores, para ser mais correto, transgres­sores, a poesia mais jovem chega às escolas. Felizmente.

DL - Por que você escolheu ser poe­ta apesar de tudo?

CA - Para ser franco, eu fui tra­gado pela poesia. Sem dúvida fiz uma escolha, pois poderia muito bem nesse momento estar escre­vendo contos, crônicas ou roman­ce, mas não! Não me interessa outro gênero. Leio muita prosa. Acredito que até mais que poesia. A poesia é uma construção mágica que me absorve. A loucura que se encontra no seu cerne me encanta profundamente, daí eu acreditar que apesar de tudo fiz uma boa escolha. Eu falo sempre para os jovens (nossa! sinto-me um ancião), leiam poesia. Sintam o som, a imagem, a emoção, o encantamento que dela brotam.

DL - O que fazer para convencer os jovens a lerem poesia?

CA - Uma ação muito simples: po­líticas voltadas para a educação e a cultura. Compromisso com a coisa pública e a privada. Apenas isso. Façamos essa implantação hoje e contemplaremos os resultados dentro de 20 anos.

 

Edição Ano III – Número 18:

Um poeta que vai pra escola!
(Mas a escola poderia ir mais a ele)

Ao contrário dos poetas que andamos publicando aqui, este tem ido à escola. E literal­mente. Fisicamente. Professor de literatura do ensino médio, premiadíssimo (dois Jabutis por exemplo, é mole?), diretor da Ca­sa das Rosas, o point poético de São Paulo hoje em dia, curador da Alceu Amoroso Lima, primei­ra biblioteca temática de poesia do país, e autor de mil outras fa­çanhas dignas de uma estátua em praça pública (sem gozação, pois ele é mais charmoso e guerreiro que muito general de bronze por aí), Frederico Barbosa só precisa agora ter o que interessa – seus poemas – mais lidos, trabalhados e divulgados pelo professores em sala de aula. Adotem o Frederico que seus alunos agradecerão.

DISCUTINDO LITERATURA - Quem é você na poesia brasileira hoje?

FREDERICO BARBOSA - É muito di­fícil responder a esta pergunta ria que sou um poeta que procura levar adiante as experièn; rações anteriores, unindo a experi­mentação inventiva e rigorosa dos concretos ao ímpeto de denúncia e protesto dos “engajados” e ao que há de engenhoso e inventivo dos “marginais”. Ou seja, um poeta que segue experimentando, com muita autocrítica e exigência, procurando abordar aspectos significativos da vida de hoje, sem receio de buscar um público leitor mais amplo.

DL - Além da poesia, onde o público poderia conhecer mais seu trabalho?

FB - Eu sou professor e, durante muitos anos, tive milhares de alu­nos no ensino médio e em cursinhos de São Paulo. Hoje ministro oficinas de criação de poesia por todo o país, que costumam ser re­cebidas com bastante entusiasmopelos freqüentadores. Além disso, sou diretor da Casa das Rosas, pri­meiro centro cultural dedicado à poesia do país, curador da Bibliote­ca Temática de Poesia Alceu Amo­roso Lima, da Prefeitura de São Paulo, e tenho gravado cursos para ensino a distância, que, creio, terão grande importância para o futuro da educação no Brasil.

PL - Dá para viver de poesia no Brasil?

FB - Da publicação de poesia, não. Mas eu sou um dos poucos que vive da poesia no sentido que vivo apenas do meu trabalho ligado à poesia.

DL - Bote aqui um poema seu, o que você mais gosta, ou trechinho, se for muito longo.

FB - A mais íntima memória se desdobra cega e surda. A presença tátil de suas dobras incrustadas nas marcas linhas das minhas mãos. O gosto redondo do seu corpo na retina língua do meu gesto ou rosto. E seu perfume rio riso colorido escorrendo sobre o corpo sopro e calor. Memória se deseja. O resto, se ouça ou veja.

DL - Como é possível, ou mais fácil, encontrar seus livros e seus poemas?

FB - As pessoas raramente en­contram os livros de poesia nas livrarias. Por isso costuma ser mais fácil encontrá-los pela in­ternet. No meu site, coloquei muitos dos livros completos e a maior parte dos meus poemas (fredbar.sites.uol.com.br).

DL – Quem lê poesia hoje, na sua opinião?

FB - Eu sou otimista quanto a essa questão. Acho que o pú­blico leitor de poesia vem aumentando, assim como cresce muito a quantidade de pessoas que participam de oficinas, saraus e recitais por todo o país. Mas ainda é uma minoria: são aqueles que não têm preconceito e percebem que ler poesia é muito divertido.

DL - Os professores poderiam dar uma força maior para leitura da po­esia contemporânea?

FB - Sim. Em primeiro lugar, os professores têm de procurar conhe­cer a poesia contemporânea. Em segundo lugar, têm de indicar a lei­tura dessa poesia para seus alunos. E, por fim, e não menos importan­te, mostrar aos alunos que a poe­sia contemporânea é interessante, divertida, gostosa de ler, dá prazer. E que fala de assuntos muito pre­sentes no nosso tempo. Em suma, que a poesia contemporânea é a que fala de nós!

DL - A poesia que chega nas esco­las é a melhor?

FB - Nem sempre. Muitas vezes os professores escolhem a poesia mais tradicional, com receio de fazer es­colhas que não foram legitimadas pela tradição. Mas, certamente, se escolhessem Alice Ruiz e não Casimiro de Abreu, Glauco Mattoso e não Gonçalves Dias, a recepção dos seus alunos seria muito melhor.

DL - Indique um livro seu para leitura:

FB - Indico a antologia dos meus poemas de amor e sexualidade: Cantar de Amor Entre os Escom­bros (Landy, 2002).

DL - Por que você escolheu ser po­eta apesar de tudo?

FB - Minha paixão pela poesia, de início, se deu por culpa do futebol. Sou palmeirense doen­te e no começo da adolescên­cia meu maior ídolo era, claro, Ademir da Guia. Morava, e ainda moro, perto do Parque An­tártica, onde ia sempre vê-lo jogar. Um dia, quando eu tinha uns 14 anos, meu pai me mos­trou o poema que João Cabral fez para o Ademir. A partir da­quele momento não conseguia mais ver o Ademir jogar sem lembrar da descrição do Cabral. Já estava contaminado com o vírus da poesia. E passei a es­crever poesia. Para mim, poesia é ordem, é a palavra exata, en­xuta, precisa. Escrever poesia é uma forma de tentar organi­zar, dar ordem ao caos. Já que pouco podemos fazer para mi­nimizar o caos do mundo, pelo menos podemos, com a poesia, tentar organizar o nosso horror interior. Alertar e protestar.

DL - O que fazer para convencer os jovens a lerem poesia?

FB - O desinteresse pela leitu­ra de poesia não é culpa dos jovens, e sim do ensino decrépito, que não mostra como a leitura de poesia pode ser um grande prazer. Esta é a palavra-chave para o ensino da litera­tura: prazer! Creio, no entanto, que muitos jovens passam a se interessar pela poesia, tanto por ler quanto por escrever, quando sentem que está falando algo importante para o mundo de­les. Cabe, portanto, aos poetas escrever algo que dê prazer e provoque – e cabe aos professo­res mostrar isso aos jovens.

 

Edição Ano IV – Número 19:

O começo do século não é o fim da poesia

            Acabei de sair de um encon­tro com jovens estudantes, um dos muitos que faço com o maior prazer, como parte de mi­nha missão na Terra.
            Foram horas falando e ou­vindo sobre um assunto que não está no noticiário da televisão, não dá dinheiro, não é mo­da, não atrai multidões e não faz ninguém se destacar na tur­ma. Acho até que é um assunto que nem mesmo impressiona as garotas e perde para qualquer discussão sobre cortes de cabe­los e artistas de cinema. O as­sunto era poesia.
            Mesmo assim todos partici­param, gostaram e muitos tive­ram coragem de revelar que também escreviam poemas, alguns leram o que escondiam há muito tempo nos cadernos, encantados por descobrirem que não havia do que se envergonhar. Afinal, chega a ser incrível que numa época em que nenhuma partici­pante do BBB tem vergonha de mostrar a bunda, ainda se tenha» tanta dificuldade de expor os sentimentos em público.
            Mais para o final do encon­tro, percebemos juntos que o as­sunto que tanto nos empolgava não era a poesia. Era o que ela representa no início de século.
           O mundo está virado pe­lo avesso. As mudanças acon­tecem mais rápido do que podemos acompanhar. E o jovem sente isso na própria pele. O jo­vem é ator e vítima de tudo que anda acontecendo.
           O computador, por exemplo, faz com que ele possa conversar com o planeta inteiro. Mas ele nunca esteve tão sozinho: não pode ficar nas ruas porque são perigosas e as relações quase sempre são baseadas no consu­mo. Atitudes como “meu shop­ping center é maior que o seu”.
           A globalização agrega e mo­derniza as empresas, mas o jo­vem saca que talvez não haja em­prego para ele lá na frente e, se houver, vai ser para ganhar pou­co, bem pouco. Os divertimentos são variados, mas se você não for mauricinho ou patricinha, vai fi­car de fora, barrado no baile.
          Os exemplos para se inspirar não são satisfatórios. A sociedade parece querer convencer o jovem de que legal é ser político safado, que bacana é usar as pessoas e curtir as coisas, e não o contrário, que vencer na vida é o que interessa e banana para o resto.
           E as emoções, os sentimen­tos, as dúvidas e aflições nossas de cada dia, onde ficam?
          Aí é que está: ficam na poesia, que resiste e insiste em ser o mo­mento de reflexão, de puro sentir, de raiva, de dor e de amor.
         Começa um século fresquinho, mas não acaba a velha poesia. Porque se ela acabar, meu irmão, acabou-se o que nos res­ta de humano, nossa capacida­de de sermos iguais e diferentes, pequeninos e frágeis, mas fortes e maiores que o mundo.
         É disso que nós falamos e por isso ficamos emocionados e cheios de esperança. Saímos do encontro torcendo para que a poesia ocupe mais e mais es­paço nas cabeças e nos corações dos jovens. Até o ponto em que, como uma onda, invada inclu­sive os miolos moles que pen­sam que ser jovem é polir o car­ro enquanto a alma enferruja e os corações se endurecem, emo­cionando-se somente com uma nova marca de tênis ou – supre­ma coisificação da juventude – queimando um índio pataxó.