Caros Amigos

Setembro 2007:

Vá ao teatro. Mas não me convide.

Esse era o título de uma camiseta, genial, do povo incorreto políticamente do Casseta&Planeta.
E que eu visto e assino embaixo.
Ninguém, hoje, tirando o pessoal de teatro, gosta de assistir o verdadeiro teatro.
Quem vai, vai pra se divertir, esquecer os problemas, passar o tempo.
E teatro-cabeça incomoda, põe minhocas na cabeça, faz pensar.
E quem quer pensar hoje em dia se já pensa tanto no dinheiro, na profissão, no dia a dia, no cotidiano, em geral medíocre?
Bacana é ver um espetáculo que predispõe, põe, à pizza, ao jantar alegre com os amigos.
De problemas basta a vida, curtida, parida, sofrida, entre negócios e agenda apertada.
Teatro bom é teatro-espelho. Aquele que confirma como eu devo ser/continuar a ser alienado, pirado, desplugado.
De repente, dou um giro por aí.
Teatro pensante só acho nos porões, nos guetos, nos alternativos.
Quase sempre entregue às moscas, poucos na platéia, quase todos amigos e convidados e um ou outro incauto que parou lá de paraquedas.
Teatro bom é espécime em extinção.
Feito na raça, na graça, na praça Roosevelt.
O resto, teatrão, lotadão, fica para a classe mérdia, que engole tudo que a mídia avaliza, autoriza, patrocina. O texto entra por um ouvido e evacua pelo outro.
Esse negócio de apenas ser viável encenar uma peça aqui no Bananão através de paitrocínios de empresas privadas ou estatais transformou o investimento teatral em outra modalidade de lavagem de dinheiro. O paitrocinador prefere conteúdos palatáveis, assuntos que não cheiram nem fedem. Transgressões, polêmicas, nem pensar. Pega mal prá marca. O mercado não é louco de dar tiro no próprio pé, com conteúdos contraculturais
Vai indo que eu já fui ver o que ainda resta do verdadeiro teatro, aquele que remexe a ferida viva, que surpreende. Antes que acabe. Ou acabem com ele.

Ulisses Tavares assiste e gosta de peças alternativas, fracassos de bilheteria. Coisas de poeta.

Outubro 2007:

Nem Cristo Silva

Pode ser que um dia o mundo acabe para os maus, condenados a eternidade de enxofre e dor. Mas nem unzinho deputado corrupto ficou na cadeia até agora. E minha crença foi para o inferno das boas intenções.
Admito que é dando que se recebe. Muitos pastores garantem isso. Só que tenho dado mais da metade do pouco que ganho para os impostos de César e não sobrou para Deus. Vai ver que é porisso que Ele me castiga com juros e multas de sofrimento e continuo pobre como Jó.
Maravilha o pensamento positivo, que atrai mulheres, sucesso e alegrias sem fim. Me atrapalho, porém, com o trânsito pesado, as caras fechadas, as balas perdidas e fico pessimista como um urubu voando baixo. O otimismo não está, definitivamente, ao alcance de todos.
Gosto muito de ler e ouvir sobre os poderes dos cristais, dos duendes, dos gnomos, das massagens sem mãos, das programações neurolinguisticas. Hipocondríaco de carteirinha, procuro médico e tomo remédio ao primeiro espirro. Daí saro da gripe, a gripe não vira pneumonia e sou excluído do fantástico mundo holístico, onde até câncer é curado com a terapia das cores e dos abraços.
Meditação, concentração e mantras bastam para se viver bem, em paz. Claro que assino embaixo. Só que, limitado e carente que sou, valorizo mais bundas que Buda. E acabo aflitivamente correndo atrás de amores terrenos, deixando o amor divino para depois.
Nem a tradicional igreja católica que educou minha família e a mim desde criancinha me atrai mais. Não consigo deixar de usar camisinha, sou a favor do aborto e não tenho nada contra os homossexuais.
Sou de fato um desastre como homem de fé. Desconfio da religião. Tenho excesso de necessidades do corpo e fome zero de alma.
Condenado a um humanismo sem esperança e sem futuro, do amor fraterno. Afinal, ninguém mais acredita no ser humano.

Ulisses Tavares
só não sofre de torcicolo por não ficar olhando direto para o céu. Coisas de poeta.

Novembro 2007:

A grande solidão

Sozinhos nascemos. Sozinho morreremos.
Assim é, assim sempre será.
E morrer, como todos sabem, é uma grande chatice. Algo que não se evita, infelizmente, nem malhando em academia e deixando de fumar. O ruim da morte é que evita a continuidade de nossos queixumes e esperanças.
Mas tem, sim, uma coisa pior que a grande e afiada foice.
É a morte em vida.
Aquela que permitimos, autorizamos, mas não deixamos rolar.
Me refiro, denuncio, essa morte estúpida e cotidiana de nada fazermos para romper a solidão. A minha, a sua, a de todos nós.
Custa pegar o telefone? Custa tanto assim abrir a porta? Custa algum dinheiro irmos de encontro ao outro?
Custa sim. Custa tanto que poucos fazem, preferindo se encapsular, como disse Fernando Pessoa, em sua própria cabeça.
Me refugio em meus pensamentos e excluo o Outro de meu mundo. Simples assim. Cruel assim. Meio masoquista, meio sádico.
Afinal, o Outro não me entende, compreende, me abraça.
Meus problemas são meus e ponto final.
Existe coisa mais estúpida que essa? Que tipo de animal somos nós que acha a solidão uma forma de defesa? Algum meteorito caiu sobre nossos genes e alterou nosso existir no mundo? O que existe de tão terrível em abrir nossa alma, escancarar nosso coração, nos entregar a braços e corpos estranhos? Será que ser frágil e finito e humano é mesmo uma fraqueza?
Nós, esquisitos humanos, por meios culturais ou genéticos, conseguimos o que pareceria impossível: sermos um organismo vivo que renega outro organismo vivo. Porisso colamos rótulos de inimigo na testa de quase todo mundo.
Mas a verdade é uma só e se sobrepõe a tudo:
Se estou sozinho, estou morto. Orgulhoso zumbi.
É minha culpa, minha responsabilidade. Cabe a mim tomar uma providência já, agora. Será que sou capaz de fazer isso? Ou vou continuar esperando que o Outro tome a iniciativa?

Ulisses Tavares
é o Outro,um cara igual a você. Idiota e solitário. Coisas de poeta.

Dezembro 2007:

Seres natalinos e imaginários

Em Deus eu não acredito. Acho tedioso e inútil, entrar num revendedor autorizado de Deus (a igreja) e pedir alguma coisa a um ser do imaginário infantil e patrocinador das guerras. O Tio Patinhas do universo ouve apenas o tilintar das moedas.
Já em Papai Noel eu acredito. Fruto do sistema capitalista, do qual também faço parte se bem que da banda dos explorados, suas regras são claras. Pagou, levou.
Onipresente e espalhafatoso, este portador de obesidade mórbida e roupa de palhaço é acessível ali no shopping center ou no camelô. Brega, interesseiro, oportunista, mas gente como a gente.
Se você quer algo terráqueo, pode se dirigir ao Papai Noel mais próximo e obter na hora. Democrático, o adiposo vestido com as cores da coca-cola, tem de tudo para todos.
O rico, da zélite, encontra no saco do velho polonortista, do bom e do melhor. O pobre, da zémanélite, também sai com seu presentinho made in china e, se der sorte, com um cartão de esmola, digo, benefício governamental.
Papai Noel, realista, dá a cada um conforme sua posição na pirâmide social, que é aquela onde meia dúzia fica lá em cima, na pontinha, cagando na cabeça da maioria.
Já Deus é um cara nebuloso. Única prova de sua existência é aquela que se vê nos noticiários: todo bandido brasileiro, de colarinho branco ou encardido, ao entrar ou sair da cadeia garante que Deus não o abandonará.
Mais convincente é Papai Noel que, também nos noticiários da televisão, distribui panetones vencidos e brinquedinhos vagabundos para os pobres que moram lá naqueles lugares onde as empregadas se escondem nas ceias natalinas.
Deus faz parte da mitologia. Papai Noel da nossa idiotia.
E, afinal, Deus não tem cara.
Já Papai Noel é a cara de um presidente que um dia nós acreditamos muito. E que, se Deus quiser, ainda vai trazer o presente prometido. Ou não?

Ulisses Tavares
acredita que a esperança às vezes morre antes. Coisas de poeta.

Janeiro 2008:

Ano novo, velhas resoluções.

Todo ano novo é de novo a mesma coisa. O mesmo conflito. A mesma mistura de euforia, esperança e cansaço. Em francês, esse sentimento é mais chique: déjà vu. Mas em português é mais cru: já vi esse filme antes.
Vou mudar tudo. Nada vai mudar.
Nisso sou igual aos poderosos fdps de plantão no phoder. Prometo mas não cumpro. Eles animam e frustram milhões de pessoas. Eu apenas uma, a única que acredita em mim por falta de opção. Me engano que eu gosto.
Coerente com os novos tempos, vou reciclar minha velha listinha de resoluções de ano novo. Em último caso, troco minhas decepções por créditos de carbono. Taí. Se o mundo pode eu também posso trocar seis por meia-dúzia. Se os países trocam sujeira de um lugar por dinheiro limpo em outro (esquecendo que a terra é redonda!), porque não eu? Também solto pum e respiro, ora.
Lá vai minha listinha, portanto, atualizada pela experiência:

1.      Vou encontrar meu grande amor. Ou meu amor meia-boca. Ou meu amor xinfrim. Amor tipo casas bahia, sempre em liquidação, já está bom para portador pca (puzta carência afetiva).

2.  Vou continuar sendo honesto. Se bem que isso não é opção.Poetas e pobres são sempre incorruptíveis. Nome de rico vai para a Polícia Federal, nossos vão é para o Serasa.

3. Vou cuidar melhor da saúde. Cigarros, bebidas e combatem o stress, esse vilão da vida moderna. Quando os médicos não sabem o que tenho, dizem que é stress, portanto urge combater o stress.

4. Vou praticar mais exercícios. Se bem que pensar já é um exercício e tanto, prometo caminhar até o balcão em vez de chamar o garçom.

5. Vou ser mais otimista. Prestar atenção em notícia ruim atrapalha o pensamento positivo, azeda o alto-astral. Cancelarei minha assinatura de Caros Amigos. Com sorte acabo o ano sendo dizimista evangélico ou terapeuta holístico.

Ulisses Tavares faz a mesma lista de ano novo há mais de vinte anos novos. E nunca cumpriu. Coisas de poeta.

Fevereiro 2008:

Compulsões físicas e institucionais

Compulsão é aquele impulso que nasce lá no sistema límbico, portanto fora do racional, do consciente, e nos leva ao descontrole, ao vício.
Eu tenho cinco compulsões já analisadas, detectadas, e que, a menor bobeada, o menor vacilo, a menor baixa de vigilância, me levam ladeira abaixo. Sou um selvagem acorrentado pela civilização e auto-censura, como diria o Freud que tudo explica menos tesão de pica que é aquele que fica.
Quatro delas são: álcool, tabaco, sexo e leitura.
Já li a bíblia de Gideon em quartos de hotel. Instruções de emergência em avião. E até rótulo de papel higiênico, na falta de coisa melhor e acessível.
Esta compulsão até que deixo fluir e me é útil: como escritor, preciso mesmo ler muito e sem parar.
Alcoolismo trato em reuniões no Alcoólicos Anônimos e, com isso, fazem bons anos que não sou mais um bêbado público.
Tabagismo é complicado parar, mas só me permito uma pequena cota de cigarros por dia, como se fossem injeções de insulina para diabético.
Sexo, na ausência eventual de parceira, faço com quem conheço melhor e está, literalmente, sempre à mão: meu próprio corpo.
Mas minha compulsão pela leitura é pinto perto dos cinco jurados que a Funarte nomeou para seu último concurso literário, em dezembro.
Acreditem se quiser: no dia 12 de dezembro, a Funarte recebeu 500 (isso, quinhentos) trabalhos de escritores inscritos.
E já no dia 14 (isso, dois dias depois), o Diário Oficial publicava a lista dos 10 escolhidos para receberem a polpuda bolsa financeira como premio.
Ou seja, leram 20 originais e propostas (algumas com mais de 200 páginas) por hora!
E conseguiram ler até as obras que nem haviam chegado pelo Correio!

Compulsão institucional é isso aí.

Ulisses Tavares tem uma quinta compulsão que, apesar de brasileiro e intelectual, nunca deixou vir à tona quando foi jurado de concursos literários: a velhacaria. Coisas de poeta.

Março 2008:

O poeta roda a bolsinha.

Ei você!, jovem com pretensões literárias, ansioso para publicar seus livros e, com eles, mudar o mundo e mudar de vida.
E ei você!, coroa beletrista, mais que passado da hora de eternizar suas verdades, em prosa ou verso, seu cantos do cisne.
Nos dois lados da ampulheta, tudo isso fiz, faço e farei.
E hoje, escritor profissional, posso dizer com todas as letras, literalmente, que esse sonho, o de viver apenas do que se ganha como autor no Brasil belga e indiano é uma roubada.
Deliciosa, heróica e furada canoa.
Em qualquer idade ou ritmo de produção, trabalha-se muito e ganha-se pouco.
Numa rápida contabilidade, dou a seguir alguns números do padrão Livros Vendidos = Poder de Consumo. Ganha-se 10% do preço de capa, lembrem-se.
Portanto, para um café com pão na padaria da esquina, tenho de vender 3 livros. Para um quilo de feijão, idem. Para um almoço com refrigerante dolly, 6 livros.
Ir ao cinema com a paquera, 22 livros. Somando a pipocona estilo americano, 28.
Para comprar um carro popular usado, 13 mil livros. Viagem a Paris, 15 mil livros numa trip de mochileiro.
Precisaria existir um Bolsa Escritor pra aliviar a barra? Não sei. Precisamos é de mais leitores, não de mais escrevinhadores.
Porisso existem tão poucos escritores e poetas profissionais tupiniquins. A grande maioria, que não é louca nem estóica como eu, amarra seu burrico num carguinho do governo e deixa a literatura como um luxuoso e supérfluo hobby.
Se bem que vender a alma ao diabo do sistema e a deusa da literatura raramente produz um Carlos Drummond de Andrade. A maioria escreve e publica só por vaidade mesmo.
Mas o excluído do capitalismo aqui, continua rodando a bolsinha mas não abre.
Chato é que aquilo que uma garota de programas de um Bahamas ou bordel top ganha em uma hora, eu só ganho se vender 500 livros!
É soda.

Ulisses Tavares vive só com o ganha escrevendo. Porisso vive mal. Coisas de poeta.

Abril 2008:

Procuro uma mulher

A mulher que procuro é tão simples e básica como eu.
Ela só quer que não lhe toquem nas feridas da alma mais do que o mundo já faz.
Deseja colo e aconchego essa mulher. Mas nunca que os dedos leves que lhe fazem cafuné se aproveitem para lhe apertar, pesados, a garganta com cobranças e compromissos impossíveis.
Aceita críticas e correções. Desde que não estraguem as horas plenas do prazer, da descontração, da entrega quando está bem acompanhada. E essas são 24 horas por dia. Mesmo que durem apenas minutos.
É uma mulher estranha, diferente, única. O fato de ser rotineira, igual e previsível, ora, é um detalhe irrelevante. Ela se reflete, e acredita, na imagem que vê num espelho mágico. Se o espelho quebrar não conseguirá juntar os caquinhos.
Independente. Totalmente. Irrestritamente. Não precisa do outro pra nada. Nem para trocar lâmpada ou consertar chuveiro ou arrumar emprego de bom salário. Ela se basta e pronto. E ponto. Mas não ponto final. Três pontinhos, reticências…Vai que alguém lhe alivie o fardo…que lhe tire o dardo cravado no sonho e no cheque especial. Esse alguém não existe, se diz ajustando o despertador para mais um dia de problemas.
Na falta de um homem, ideal, pega outro, menos mal. Até que o mala cresce e aparece e é trocado pelo menos pior. Antes mal acompanhada do que sòzinha consigo mesma. Meio cansada de só ficar para não ficar só.
Ah, essa mulher que procuro tem muitas teorias bonitas sobre as relações sentimentais.. A prática, porém, a faz tropeçar e chorar feio.
Resolve o mundo fácil. Ela, porém, é um mundo indecifrável. Talvez um corpo de galã com uma cabeça de gênio lhe tragam a resposta. Serve separado, corpo de gênio e cabeça de galã nas madrugadas insones.
A mulher que procuro sou eu de saias. Por isso nunca a encontro. E, quando encontro, saio correndo. De medo.

Ulisses Tavares idealiza as mulheres que ama. E erra sempre. Coisas de poeta.

 

Maio 2008:

Chamem o sábio chinês para o Tibete

O Tibete é o cocô do cavalo do bandido chinês.
Aliás, o Tibete inteiro é uma titica perto da grandeza da China: sua economia representa apenas 0,14% da economia chinesa e sua população só míseros O,2% do total da chinesada.
Além do mais, os tibetanos são majoritariamente tibetanos, os chineses são de outra etnia, a han. Quer dizer, são vizinhos mas não parentes.
Então porque, desde 1950, a China não larga a rapadura tibetana?
A resposta está na cara: se o Tibete volta a ser independente outras fatias da colcha de retalhos que o governo chinês mantém costuradas pela força também podem ter idéias separatistas.
Como diria o sábio chinês, a China quer ter tudo sem abrir mão de nada.
Querem -e ganham- o lucro do capitalismo sem a democracia.
Querem produzir mais e fodam-se os rios, morram as florestas e que se empesteie o ar.
Daqui a pouquinho o mundo vai ver o que é bom pra tosse quando um bilhão de chineses comprarem seus carrinhos poluidores.
Os extremistas árabes soltam bombas. Os chineses emergentes soltam o peido nuclear de mil megatons de fuligens e resíduos.
Pulmões, paz, cultura budista de milhares de anos, nada muda a antiqüíssima filosofia chinesa de opressão liberticida.
Não existe sabedoria humanista na China, nem nunca existiu sábio algum por lá.
Só houve Confúcio com seus tratados que serviam mesmo era para justificar a vassalagem do povo diante de despóticos senhores.
Nem o Dalai escapa da lama chinesa.
O Buda deles continua sendo Mao Tse Tung, um genocida que matou mais de 20 milhões em sua loucura. Um cara que nunca escovou os dentes e passou sífilis para centenas de chinesinhas camponesas. Um grande iluminado.
Claro que o povão chinês não tem culpa. É apenas gado marcado e numerado numa ditadura infinda.

Ulisses Tavares já flertou com o maioísmo quando era jovem e tolo esquerdista mal informado. Hoje é praticante do budismo tibetano. Tashi delek!

Junho 2008:

Traveco. Quem nunca cobiçou um, que atire a primeira pedra.

Antes de pipocarem os escândalos dos galãs globais e dos ronaldinhos envolvidos com travestis, muita gente nunca havia atentado para o fato disso ser um espelho de uma sociedade esquizofrênica como a nossa.
Ou seja, falamos mais de sexo do que fazemos. E fazemos mais por baixo dos panos do que falamos.
O problema, evidentemente, não é o travestismo. É a velha e milenar luta entre moralidade repressora versus sinceridade sexual. O esfuziante Eros e o sisudo Tanatos.
Freud já sinalizou para nossa bissexualidade. Reich avisou sobre o mal que a repressão sexual causa no corpo, na couraça do caráter. Young alertou sobre os sonhos eróticos e liberação da libido indistinta. E a biologia abunda de exemplos sobre a ambigüidade sexual.
E as associações de travestis, bem organizadas em São Paulo e Rio, ao menos, confirmam que sua clientela principal é de casados prontos a serem viadinhos.
Sendo mais rasteiro, li as reclamações, inúmeras, da mulherada na web e vi que elas acham os travestis mais sérios concorrentes que suas rivais tradicionais. E imbatíveis.
“Como posso vencer uma mulher com pinto?”- perguntam elas.
Mais rasteiro ainda, sugiro um pênis de plástico, a venda em qualquer sexshop, ora.
A maioria dos homens que procuram travestis é casado, heterosexual convicto e, na hora agá, ficam de quatro e pede para serem passivos.
Sócrates, Platão, Aristóteles, gregos e troianos nunca se chocaram com um guerreiro machão sendo mulherzinha de outro machão. Homem se sente mais à vontade com outros homens, vejam-nos assistindo futebol e nos desmintam se forem capazes.
Talvez seja a hora da moral tirar a máscara e admitir que o tesão não tem identidade mesmo.
E parar de atirar pedra na inocente Geni.

Ulisses Tavares na última vez que transou com um travesti estava tão bêbado que é capaz dela ter sido uma mulher com clitóris avantajado. Coisas de poeta.

Julho 2008:

Encalhei

Meu navio corpo encalhou num banco de areia quando comecei a singrar velozmente as léguas dos vícios. E agora o vigor da juventude é uma ilha perdida a mil milhas daqui.
Meu navio espírito encalhou em maré baixa quando minha fé foi saqueada pelos piratas do templo é dinheiro. E agora rezo às vitrines dos shoppings, esses altares iluminados e profanamente sagrados para o homem contemporâneo.
Meu navio coração encalhou nos recifes para onde as sereias me atraíram. E agora confundo seus cantos dantes melodiosos com estridentes risadas de escárnio.
Meu navio ideologia encalhou quando votei, errei e meus eleitos partiram em seus iates. E agora estou jogado aos tubarões que comem peixinhos mirrados e plebeus como eu.
Meu navio consumidor encalhou nos ouvidos surdos do teleatendimento, que só tem tempo para vender. E agora corro atrás da furreca da garantia do liquidificador. O que era para facilitar o meu dia-a-dia serve apenas para desperdiçar os meus dias.
Meu navio cidadão encalhou no chiqueiro imenso da economia porcalhona. E agora procuro, sem achar, uma ong não corrompida. Havia uma, disseram, mas afundou por falta de financiamento.
Meu navio desejo encalhou no furacão dos corpos nus, reais e virtuais, que me envolvem. Não tendo igualmente corpo tentador para trocar me restaria o consolo de comprar unzinho, mas agora estou pelado com a mão no bolso vazio.
Meu navio contribuinte encalhou e a guarda-costeira só acode mediante propina. E agora espero um fiscal mais compreensivo e mais baratinho.
Meu navio transcendental encalhou na porca miséria da matéria. E agora medito sobre as contas a pagar no final do mês, no final dos tempos dos eternos carnês.
Já me imaginei navio senhor dos sete mares.
Encalhei na realidade e me vi canoa furada. E a água continua subindo.

Ulisses Tavares até sabe que o navio de nossa vida nem sempre chega ao porto pretendido. Mas não se conforma. Coisas de poeta.

Agosto 2008:

Feio por fora, bonito por dentro.

Vou direto ao ponto: ser feio é triste, dá trabalho, enjoa, mas tem lá suas vantagens.
É triste porque um feio é sempre o último da fila na batalha pela mulherada.
Nem plástica resolve. Um feinho de nascença como eu com implante de cabelos é apenas um feinho cabeludo.
Porque saradão um feiote raramente é. Seu senso de realidade nunca vai permitir que ache que uma barriga de tanquinho vai substituir ou desviar a atenção de seu conjunto genéticamente anti-estético de frankestein.
Mulheres adoram ter um feio e um gay como melhores amigos. Para o gay, tudo bem, já que não está interessado nela. Mas o feio morre por dentro ouvindo aquela gostosa chorar em seus ombros pelo bradpitt que a rejeitou.
Feio sempre tem dez vezes mais trabalho para seduzir.
Desprovido de estampa, desfalcado da famosa impressão é a que fica e leva pra sua pica, só lhe resta tentar desesperadamente fazer a moça olhar para seu interior.
George Guinle dizia que só existe uma saída: atordoar a donzela com seu papo. Só que ele era feinho mas ricaço. Para os pobres, haja baldes de saliva.
Enjoa ser feio num mundo onde a boniteza leva direto ao sucesso e a inteligência e o talento ao cheque sem fundos.
Não conheço nenhum forma-de-fazer-diabo que tenha levado uma cantada.
A vantagem de ser feio é que você fica esperto.
O argentino Gonzalo Otálora, em seu livro “Feo”, destaca: se alguma menina linda quiser ficar com um de nós e, em seguida, desejar ir para nossa casa, isso significa que algo está errado.
Feio e meio velho, eu acrescento, está na categoria Homem Invisível. Elas nem olham pra gente e, quando olham, é de viés. Nem é por maldade. É auto-defesa.
A vantagem final é que, garantem as mulheres tipo a gurua das encalhadas, Martha Medeiros, é que mulher tem faro, não se contenta com a embalagem.
Tomara que sim.

Ulisses Tavares é bem bonitinho por dentro. Pena que elas não notem. Coisas de poeta.

 

Setembro 2008:

Com sedén,
até o Lula pula!

Ao receber a comissão (no bom sentido) de divulgação da famosa Festa de Rodeio de Barretos, nosso rei da simpatia (no bom sentido), o presidente Lula, proferiu uma frase que só dói quando rimos (no mau sentido):
“Separem um boizinho para eu domar!”
A imprensa (a chapa branca, preocupada em puxar o saco do poder, e a alternativa, ocupada com problemas sociais maiores), filmou mas não destacou. Só a meia dúzia de gatos pingados defensores dos animais, tipo eu, chiou inutilmente.
Em um Brasil de tanta escrotidão, como o narcotráfico unindo otoridades e marginalia faturando alto, e de polêmicas candentes como a da maior bunda (será da Mulher Melancia ou da Mulher Filé?), defender os animais não é politicamente correto nem dá ibope.
Literalmente.
Quando Glória Perez criou sua novela “América”, tentamos contrapor um personagem ativista anti-rodeios. Ela até que topou, mas a Globo vetou na hora.
Compreensível: os anunciantes gostam de patrocinar o “esporte” de torturar filhotes de bois, cavalos e mulas, na arena. Os músicos sertanojos também glorificam a festa. E a mulherada adere com entusiasmo se deixando laçar nas ruas de Barretos como vacas.
O que a maioria não sabe, nem parece querer saber, é que os bichos não pulam atoa.
Importada dos Estados Unidos (o povo do Bush é bom nisso, torturar sem matar), a prática do sedén corre solta. Sedén é um couro molhado amarrado na virilha do cavalo. Vai secando e apertando o saco do coitado e daí ele pula bonito.
Também se utiliza introduzir pólvora e salitre no ânus eqüino, com resultados excelentes.
Já os novilhos a serem laçados volta e meia morrem estrangulados pela corda, mas isso não tira o brilho da festa.
A galera e o presidente gostam. Haverá uma ong para proteger essa “cultura popular”, o cáuntri. Querem apostar?

Ulisses Tavares tem essa bobagem de lutar por veadinhos, cavalinhos, boizinhos, cachorrinhos etc. Coisas de poeta.

Outubro 2008:

Proibido para menores
de 12 centímetros.

Sim, prezado leitor, se você tem um bilau menor que 12 centímetros, pare de ler agora mesmo para não se sentir humilhado.
Em caso de dúvida, pegue a régua, meça direitinho e volte a esta leitura. Mas antes lave as mãos, claro.
É que vou falar de pau, piroca, rolete, cacetete, parafuso, enfim, dessa coisa que temos entre as pernas e que tanto nos preocupa. Principalmente porque tem cabeça e vida própria, além de ser a única superioridade que nos sobrou depois da emancipação feminina.
Para nós, dinossauros machos, o tamanho é o que interessa.
E a ciência tirou nossas dúvidas infantis que se prolongam apenas até mais ou menos 70 anos (ou um pouco mais, com o viagra):
Pinto médio tem no mínimo 12 centímetros, enquanto duro mas sem perder a ternura jamais.
E pinto médio mole, raro fenômeno que nos acomete enquanto a mulher melancia não passa em nossa frente, mede a partir de 7 centímetros.
Menos que isso, três saídas cruéis: cirurgia para aumentar; amarrar pesos no coitado todo dia para esticar; ou comprar um grandão de plástico e apagar a luz na hora de afogar o ganso para a franga não perceber.
Para nos consolar, as pesquisas científicas mostram que um adolescente apresenta 12 minutos de ereção e, depois dos 15 anos, a bandeira fica o dobro do tempo hasteada.
E, para nos encucar, um número crescente de mulheres também declara que prefere balaustre tamanho GG (grande glande).
Mordendo e assoprando , os pesquisadores profissionais de pingulins (os amadores não valem) lembram que, para o prazer das fêmeas, conta mesmo é a grossura.
Portanto, inseguro leitor, volte para a régua.
Garotas não sabem a angústia de uma competição de tamanho de pintos nos vestiários.
Curto e grosso, porém: pau ideal é aquele que a mulher desejada acha de bom tamanho.
Se ela não gostar, beijinho, beijinho, bilau, bilau.

Ulisses Tavares tem uma grande…imaginação. Coisas de poeta.

Novembro 2008:

O que aconteceu com o amor?

Poetas, namorados, mamães, seresteiros, correi…é chegada a hora de escrever e cantar…talvez a derradeira noite sem matar.
Adaptei o refrão da música do Gilberto Gil porque os tempos são outros.
E muito mais brabos, raivosos, sanguinolentos.
Na época da música, a ameaça era o homem chegando na Lua e tirando o charme dela.
Por enquanto ainda não aconteceu. Embora, conhecendo o poder do predador bípede humano, como diria o filósofo Schopenhauer, daqui a pouco olharemos para o alto e veremos enormes anúncios luminosos substituindo o luar.
Mas isso é refresco perto da onda de infanticídio, matricídios, parricídios e assassinatos de ex-mulheres e ex-namoradas e ex-amantes.
O amorticídio virou moda.
A ex-esposa arrumou outro?
Vai lá e mata ela e o outro.
A mãe da namorada é contra o namoro?
Vai lá e mata a mãe e a namorada de lambuja.
O pai expulsou o folgado de casa?
Trucida, rouba e tudo bem. Se a namorada reclamar, dá um fim nela também.
A namorada não quer mais beijinhos do machistão?
Assassina e esquarteja.
A polícia vai prender o bandidão?
Ele põe a faca ou a arma na cabeça do próprio filho para se proteger.
Nasceu o bebê da gravidez indesejada?
A jovem mamãe simplesmente joga o recém-nascido no rio ou na lata de lixo.
Rompeu-se o dique dos limites do amor. Virou um pulp fiction sanguinolento e covarde.
Triste, mas inevitável. Uma sociedade que transformou o amor em mercadoria o próximo passo seria mesmo tornar o amor descartável, um traste, um nada.
Mãe mata filho, pai aprisiona e come filha, ex-amantes e ex-maridos assassinam as ex-musas numa boa, a sangue frio.
Esqueçam mães doando os filhos para uma possível vida melhor.
Esqueçam amores perdidos afogando as mágoas em álcool e versos.
O amor está de luto. Porque, hoje, quem ama, mata sim. E nem sente remorsos.

Ulisses Tavares, que até já pensou em se matar por amor não correspondido, está perplexo. Coisas de poeta.

Dezembro 2008

Coisas que não farei no próximo ano.

Pensando no ano novo, a maioria faz planos.
Meu único plano é estar vivo. E assim mesmo é apenas uma pretensão, óbvio. Depois dos 50 anos, a macabra foice começa a nos retirar a alma aos poucos por entre os músculos, ossos e órgãos.
Mas sei, ao menos, o que, certamente, não acontecerá comigo ano que vem.
Não farei uma tatuagem. Até porque não distingo uma tribal de uma pinta maligna. E se eu tatuar o nome de uma viagem inesquecível, a Katmandu, com as rugas vai encolher e virar Ku.
Piercing, nem pensar. Em jovem, é interessante. Num idoso, parecem mini-ganchos de açougue, daqueles de se pendurar pelancas.
Virar gay, fora de cogitação. Passivo e cheio de amor pra dar, então, seria uma desgraça. Quem iria querer comer uma bicha velha, feia e pobre?
Me converter para alguma religião, um pouco tarde demais. Desconfio da seriedade de qualquer igreja que me aceite como fiel. Eu, que já fui Ateu, depois Zeus, depois Deus e agora sou só Eu.
Trocar de mulher também não vou. Precisaria ter alguma para fazer isso. E, se conseguir uma que me agüente, não largo mais. Se, de quebra, rir de minhas piadinhas infames, até caso.
Plástica, nem de graça feita pelo SUS. Cheguei ao ponto em que só ressuscitar resolve.
Ficar rico, improvável. Na minha idade, Onassis já tinha o maior iate do mundo. E eu, apenas bóio sem bóia nas águas do viver.
Ter carrão, não me atrai. Além do mais, com a lei seca, que graça tem encher a cara sem poder, depois, se imaginar piloto de fórmula um pelas ruas?
Envelhecer mais ainda não irei. Sou programado geneticamente, e poeticamente, para ser um eterno adolescente descobrindo o mundo e a si mesmo. Sem nunca entender nada.
Escrever uma obra impactante, original e de alto valor literário? Duvido muito. Não sou páreo para o talento de Paulo Coelho, Bruna Surfistinha e Zibia Gasparetto.

Ulisses Tavares continuará sendo o etê de varginha em sampa. Coisas de poeta.

 

Janeiro 2009

Reformando a casa mil vezes.

É tão certo como campainha tocando na hora do banho.
Bastou eu ter um problema pessoal começo a ter mil idéias para reformar a minha casa.
Levei um pé na bunda, fiquei com dor de cotovelo?
Lá vou eu elaborando a planta de uma nova cozinha, chamando os pedreiros e quebrando tudo.
Projeto longamente acalentado não deu certo?
Fácil. Só preciso planejar um novo puxadinho, uma nova laje, expandir a sala.
O livro novo que lancei não vendeu nem estourou como imaginava?
Nada que uma mexida cheia de cimento, ferro e tijolos não resolva.
Como tenho uma vida imensa de frustrações e construções, perdi a conta de quantas casas já construí e quantas reformas já fiz em todas.
Cada louco com sua mania. E um louco criativo tem mais manias que a média, claro.
Isso me ocupa, me preenche temporariamente e me nutre da tola certeza de estar resolvendo minha vida de maneira, literalmente, concreta.
Claro que nunca deu certo. Só consegui foi fugir de mim mesmo.
Mas é uma solução existencial tapa-buraco emocional.
Não faz muito gastei dois anos construindo uma casa no meio do mato. A imaginei, no final, cheia de gente, amigos, amor, quentinha. Nada disso. Acabei com um trambolho em que até eu mesmo tinha dificuldade de chegar, por ser tão longe. No começo, olhava a porteira e pensava: que bom estar aqui sem ninguém. No final, a porteira nunca aberta sinalizava que eu me isolara a toa. Justo eu, que gosto tanto, e preciso, estar rodeado de gente.
Demorei para aprender que minha Casa sou eu mesmo, meu corpo, minha alma, meus anseios e desejos. Varanda nova do mundo.
Agora, quero construir e reformar meu Eu.
Mas daí a coisa emperra. São tantas mudanças que nem sei por onde começar a planta básica.
Difícil ser arquiteto e construtor de si mesmo.

Ulisses Tavares é uma casa assombrada por fantasmas, passados e futuros. Para se defender, reforma o que pode, sem alicerce que aguente. Coisas de poeta.

Fevereiro 2009

Superioridade canina sobre os bípedes humanos.

Pastor alemão não cobra dízimo.
Poodle de madame não faz shopping.
Cães não distinguem cafuné de rico e carinho de morador de rua.
Evitam o lobo come lobo na selva de pedra.
Vira-latas ficam felizes se na lata virada tem comida.
Puxam o saco sem disfarçar. Demonstram hostilidade sem meias palavras, digo, latidos.
Se bobear, transam a mãe, a filha e a sobrinha sem ligar se Freud explica a sua pica. As fêmeas dão pra matilha inteira sem pedir pensão depois.
Para o status, cagam e andam. Literalmente.
Esnobam os perfumes. Preferem o cheiro de um fiofó ao natural.
Se não há nada a fazer, fecham os olhos e dormem o sono dos justos. E não se reviram na cama, insones, pelos problemas passados ou futuros.
Comem com vontade. Passeiam com vontade.
O tempo presente é o que lhes importa. Total falta de ambição.
Se o bípede humano forçar, até fingem que são quadrúpedes humanos, por mera gentileza.
Não lhes passa pela cabeça montar um exército de pit bulls.
A morte não é temida, nem ritualizada.
Não possuem cartão de crédito. Nem débito.
Deus algum os interessa ou preocupa. Nascem abençoados pelo ateísmo.
Não têm preconceito de cor, raça ou sexo.
Também desconhecem quem foi que inventou a frase “quanto mais conheço os humanos, mais gosto dos meus cachorros”. Afinal, a maioria também ignora que foi Virginie di Castiglione, ex-amante de Napoleão III, em 1854, em carta para um amigo onde expressava seu desejo de ser enterrada com as coleiras de seus amados cachorros.
O filósofo Arthur Schopenhauer, quando repreendia seu cão chamava-o, justamente, de “humano”.
Há mais de quatro mil anos sabem os canídeos, pela convivência, que humanos são animais bem primitivos e mais carentes que eles.
E que, por isso, não resistem a uma bela lambida e a um rabinho abanando.

Ulisses Tavares, porém, quanto mais conhece sua malcriada cadela, mais prefere as mulheres. Coisas de poeta.

Março 2009

Nero, o meu imperador.

O Nero lá de Roma todos conhecem. Ou no mínimo sabem que ele tacou fogo na cidade e culpou os cristãos.
Já o meu Nero apenas meu coração conheceu. Ou no mínimo sabe o fogo que ele ateou em minha vidinha besta de criança do Interior, sem culpa alguma.
Nero foi o primeiro de uma longa série de cachorros que acompanharam e acompanham o solitário vira-latas da poesia que ainda sou.
Naquela época, eu nem imaginava que as musas e mulheres passariam em minha vida, algumas tratadas como cadelas de rua, outras que me tratariam como cachorro sarnento. Umas me fazendo abanar o rabinho de alegria, outras me obrigando a uivar para a lua de dor. Cedo aprendi que mil pessoas passeiam em nossa vida, a maioria sem deixar marca maior que um xixi no poste de nossas lembranças.
Mas cães não. Eles nos marcam com seu amor inesgotável e aquelas capacidades perdidas do ser humano, como a espontaneidade e a carência explícita de cafuné e brincadeiras.
Me recordo de cada cachorro de corpo e, me atrevo a afirmar, alma.
Nenhum foi esquecido ou não deixou saudades profundas.
Cada um está em alguma casinha do meu ser pronto para, a meu chamado, vir para um determinado tempo presente.
Momentos de desemparo, trazem de volta o Fera, com seus olhos compreensivos.
As horas más puxam pela guia a Milady e seus pelos macios.
Dias de fossa, me fazem mais um na matilha quente e acolhedora de Tutty Antonio e Ferinha Mel, meus cães de hoje em dia.
No topo da lista, claro, permanece Nero, meu primeiro amigo de quatro patas.
Aquele que me viu crescer, cresceu comigo, andava sem coleira e acabou atropelado pelo trem da Estrada de Ferro Sorocabana.
A estrada de ferro era longe, mas Nero, sangrando e agonizante, se arrastou até chegar em casa e morrer em meus braços.
E, como um rei, vive hoje dentro de mim.

Ulisses Tavares acha que a vida sem cães seria um osso duro de roer. Coisas de poeta.

 

Abril 2009

De tempos em tempos,
Eles crescem e aparecem.

Sempre que aparecem novos místicos na face da terra, parecem ser os mesmos, apenas travestidos de novos traços. E talvez até sejam.
Jeitão de sábio que descobriu que a roda é redonda, bons de gogó, demagogos com pinta de transgressores do pensamento vigente, arrastam multidões atrás do trio elétrico de seus ensinamentos e palavras de ordem. E o resultado todos conhecem: intolerância, dor e guerra.
Os mais antigos vieram e são cultuados na Índia.
Lá, nada menos que 240 mil deus recebem altares, velas, incensos, flores, ajoelhações, festas e, claro, fartos donativos a seus revendedores autorizados.
A grande maioria prega a bondade e o pacifismo.
E funciona? Não.
Inspirados no deusão maior, Brahma (aqui virou cerveja cultuada, assim como Che Guevara virou camiseta, o Ocidente esculhamba tudo), os indianos continuam com seu sistema abjeto de casas. Ou seja, quem é paria vai continuar sendo o burro de carga da sociedade, limpando esgotos com as mãos, por exemplo. Nem roupa podem comprar, usam as camisolas dos cadáveres.
Isso porque são apenas a poeira das sandálias de Brahma, fazer o quê?
Na China, reina o filósofo Confúcio ao lado do genocida Mao.
Adiantou o confucionismo pregar a ética?
Nadinha. Os governantes chineses são liberticidas de carteirinha.
Basta ver o que fazem com seu próprio povo e com os coitados dos tibetanos desde 1950.
Maomé até que tentou botar um pouco de ordem nas bárbaras e belicosas tribos árabes de seu tempo.
E forneceu a pólvora para extremistas se auto-implodirem e explodirem os inféis.
Sem contar Jesus Cristo, que virou fiador de milhares de pastores comprando carros novos, emissoras de televisão e mansões.
Prometendo o céu para quem enfiar a mão no bolso e o inferno para os desconfiados.
José Saramago está certo: tem deus demais neste mundo.

Ulisses Tavares acredita que a humanidade tem o deus que merece. Coisas de poeta.

Maio 2009

Casamento é um negócio

Você dorme comigo, mas pode acordar com uma pensão de ex-marido.
Pode desejar outro homem desde que ele seja eu.
O príncipe encantado era um sapo. Agora lava os pratos e vem dormir, comedor de mosca.
Minha casa tem sofá, televisão, pano de prato e, ah, sim, você, meu patrimônio podre de pobre.
Sua boceta não é novidade.
Meu pau não é novidade.
Você é aquele pacote morno que dorme à minha direita.
O lado esquerdo é meu e pronto.
Concordo em discutir a relação, mas você chama isto de relação?
Absolutamente não é possível discutirmos a relação na disputa final do campeonato.
Os filhos de seu casamento anterior foram falta de planejamento familiar. Agora, se vira.
Meus filhos são ótimos, quem não presta é minha ex-mulher. Pior que errei de novo, arrumando você.
É entediante esse seu hábito de ir sempre ao banheiro, de defecar e tomar banho para dar uma simples rapidinha.
Vejo você de calcinha e nem penso em tirar.
Essa plástica funcionou, ficou ótima, mas só quando você está vestida. Pelada, a cicatriz salta aos olhos.
Não é que eu não goste de sexo oral, mas com esse corrimento e minha afta na língua está difícil.
Xeretou meu perfil no orkut de novo?
Daqui a pouco vai querer me instalar um gps, né?
Reclama que não saímos de casa porque esqueceu que mês passado mesmo fomos ao supermercado.
Está certo que fogão novo não é um presente muito romântico, mas eu sempre fui prático, você sabia disso.
Estava me masturbando no banheiro, sim, mas pensando em você.
Bom dia por que?
Boa noite pra quem?
Nunca tinha reparado que você comia de boca aberta.
Antes, meu bem pra cá, meu bem pra lá. Agora, meus bens pra cá, meus bens pra lá.
Porque não ficou com ele?
Porque não fiquei com ela?
Vou explicar nada. Você não entenderia mesmo.
Tenho sonhos mas troco por sono que amanhã é dia de batente.
Também te amo, querida.

Ulisses Tavares acha que casamento é uma coisa, amor é outro troço. Coisas de poeta.

Junho 2009

Quem quer sexo levante a mão.

Levante a mão e use o dedo.
Isso. Agora tecle
www.sexlog.com.br na barra do buscador.
Pronto. Veja, confira. Lá tem tudo, como em muitos outros sites da internet.
Tem pra punheteiros, tem pra safadinhas, tem pra casais entediados, tem para solteiro e solteira safado.
Não existe o disk pizza, quando você está com fome e com preguiça de sair?
Pois a internet fez essa revolução em nossa vida sexual.
Inventou o disk sexo, o pênis e a buça delivery.
Como eu sou xereta, carente e curioso, fui testar.
Olha, conferi que é pra valer sim, é vida real extraída do mundo virtual.
Funciona, pode dar certo.
Quem está nesse tipo de sítio, quer sexo ao vivo, e a maioria parece que consegue.
Igual acontece aqui fora, longe do computador, depende de química, sorte, acaso, compatibilidade.
Mas bem mais fácil  e rápido.
O cardápio é variado, conferivel, pré-avaliado.
Tem mulher gostosa querendo dar para o marido ver. Tem homem pintudo querendo mulher para comer. Tem de tudo e mais um pouco. Difícil é escolher.
O impacto que esse tipo de facilidade provoca em nossas vidas, só o tempo dirá.
Mas, pessoalmente, acho que esse impacto já é sentido e, sem dúvida, nos assusta a todos.
A arte da sedução deixa de ser uma habilidade pessoal, olho no olho, mão na mão, e passa a ser mera habilidade de digitar a mensagem certa, colocar a foto certa.
Só por brincadeirinha, coloquei uma foto minha num desses chats, trocando-a por uma do ator Sean Conery, aquele dos antigos filmes do James Bond.
Resultado: ninguém se deu ao trabalho de conferir o original (eu, também uma figura pública, embora de menor proporção (escritor brasileiro versus ator internacional), ao me contatar;
Sei lá onde isso pode nos levar.
Mas aquela paquera antiga. Essa já era.

Ulisses Tavares é um amante a moda antiga, mas vai se adaptando rapidinho. Coisas de poeta.

 

O Timo é tímido, mas poderoso.

O timo é uma glândula que fica abaixo da traquéia, a veia jugular e a artéria carótida. Para achá-lo, é fácil: está no meio do peito, aquele que a gente toca involutáriamente quando diz “eu”.
Seu nome em grego, thýmos, significa energia vital. Precisa dizer mais?
Ou seja, esse pequeno ser, conjuntivo e cavisolo, interfere mais em nossas emoções que o consagrado coração. Se bem que seria esquisito um verso começando assim: “quando te vi, minha glândula timo aumentou/afinal, que timo teu?”
Surge vermelho no feto e depois amarela. No idoso, atrofia para 5 a 15 gramas.
Chiquitito pero cumplidor, o timo é fundamental na linha de defesa imunológica do organismo.
Curioso é que atua para dentro e para fora.
Produz células de defesa na mesma hora em que somos invadidos por micróbios ou toxinas.
E também reage a cores, luzes, cheiros, sabores, gestos, toques, sons, palavras e pensamentos.
Não é papo esotérico ou holístico.
Amor e ódio afetam o timo da mesma maneira daquela que imaginamos, poéticamente, seja o papel do coração.
Também não precisa ser médico para sentir, na pele, que luto, acidente e separação amorosa provocam um estrago danado na saúde.
Recomenda-se cuidar do timo com a regularidade de uma escovação dental ou lavada nas partes baixas.
Exercício dos melhores é dar pequenas e leves batidinhas com a ponta dos dedos (a polpa, não a unha, seu desajeitado) no esterno (dois centímetros abaixo da clavícula).
Perceba que o timo reage e aquece a região.
Sendo sensível a seu jeito, o timo ouve nossas palavras e pensamentos de carinho e consideração.
Aristóteles dizia que a alma e o corpo são siameses: mexeu com um, alterou o outro.
E um dos chackras trabalhados pelo budismo e yoguismo e hinduísmo e xeretismo é o ponto do coração, ao qual o timo é vizinho parede e meia.
Torça por meu timo que torço pelo teu.

Ulisses Tavares não tem juízo, mas tem timo. Coisas de poeta.