Década 80

Calendários de Bolso (1980)

Na época dos dinossauros, pré-internet, sem tantas mulheres peladas virtuais, estes calendários de bolso chamavam a atenção da classe média leitora para os novos poetas que estavam se firmando, como Ulisses Tavares e seu Grupo Pindaíba e o jornal alternativo Poesias Populares.

“Programa Balancê” (1982-1983)

O radialista Osmar Santos, além de marcar a locução esportiva do Brasil  (para quem gosta de futebol, procure sua biografia “O Milagre da Vida”, com prefácio do Rei Pelé), abriu caminho para muita gente boa. Entre eles, Fausto Silva, que assumiu seu programa de sucesso na Rádio Excelsior, atual CBN, em 1983).
Fausto continuou sua fórmula de música e humor e variedades e acabou na TV com “Perdidos na Noite”, depois transformado no Domingão do Faustão, já na TV Globo.
Osmar Santos e Faustão (este menos) chamavam Ulisses Tavares ao vivo para declamar poemas irônicos sobre datas comemorativas como Dia das Mães, dos Pais etc.

“O Amor é Nosso!” (REDE GLOBO) (1981)

Globo – 19h
de 27 de abril a 24 de outubro de 1981
155 capítulos
novela de Roberto Freire e Wilson Aguiar Filho
escrita por Roberto Freire, Wilson Aguiar Filho e Wálter Negrão
direção de Gonzaga Blota, Mário Márcio Bandarra e Jorge Fernando
direção geral de Gonzaga Blota.
Novela baseada na vida e nos poemas do poeta marginal
ULISSES TAVARES

ELENCO:

Núcleo:

FÁBIO JÚNIOR – Pedro
MYRIAN RIOS – Nina
TÔNIA CARRERO – Gilda
STEPAN NERCESSAIN – Chico (no papel do poeta Ulisses Tavares)
STÊNIO GARCIA – Padre Leonardo

(Clique na imagem para melhor visualização)

Do tempo em que até cinema do Interior
exibia literatura na programação.
(Cine Emília – Altinópolis – 1980)

A invejável programação cultura acima, ocorreu em um cineminha de uma cidadezinha do Interior de São Paulo, Altinópolis, com menos de 10 mil habitantes na época e, ainda hoje, com mais de 30 cachoeiras e 10 grutas. “Bassano Vaccarini”, inspirador do evento, foi autor de belas esculturas, hoje expostas num dos três únicos museus a céu aberto do mundo. Sim, fica na simpática Altinópolis. cidade que o artista italiano escolheu como seu grande atelier.

Rio de Janeiro, cidade
maravilhosa para o poeta paulista!

Em 1986, Ulisses Tavares muda-se de mala e cuca para o Rio de Janeiro. E, lá, agita todas e mais um pouco, acolhido como um carioca da gema que nasceu na cidade errada.
Retornaria a morar em Sampa apenas em 1990, mas sempre mantendo um pé, um olho e metade do coração no Rio.

Ulisses Tavares imitando seu ídolo, Vinicius de Moraes.

 

 

Como se sabe, o poetinha Vinicius de Moraes passou anos mergulhado numa banheira, onde recebia os amigos, compunha e escrevia.
Morando numa bela casa antiga no bairro do Catete, Rio de Janeiro, tentou imitar seu ídolo (reparem o radio de pilha, os petiscos e o copinho de uísque).
Depois desistiu da brincadeira porque a longa imersão deixava seu pinto enrrugadinho e pequenininho e pegava mal receber as musas assim.

 

Acredite se quiser:
Isto era comunicação eletrônica de ponta!
(Centro Cultural Cândido Mendes – RJ – abril 1988)

Na revolução digital de hoje, palavras correndo eletronicamente num painel é coisa de museu. Mas, no século passado, em 1988, a poesia eletrônica de Ulisses Tavares era notícia de jornal e provocava filas.

Discípulos de William Reich, Presentes!

 

 

“Amor, trabalho e conhecimento são fontes de nossa vida. Deveriam, portanto, também governá-la”. W. Reich

Com o aval do psicanalista maldito Willian Reich, e seguindo suas pegadas, duas publicações marcaram as décadas de 70 e 80: a revista Rádice, voltada para o espaço Psi e a luta anti-ditadura e, e no segundo momento (1981-1983), o jornal Luta & Prazer, mais voltado a aplicação prática, no cotidiano, das alternativas psicoterapeutas corporais.
Ulisses Tavares, com seus anos de discípulo de Reich, Rolando Toro (biodança) e José Ângelo Gaiarsa (terapias corporais sem palavras), não poderia ficar fora dessa. E nem ficou.
Coerente com seu nome, o jornal Luta & Prazer faz um grande show no histórico Teatro Tuquinha (SP), onde se apresentam,  em 1982, uma trempa de alternativos.
O show reúne dança, artes plásticas e poesia.

Ulisses com sua parceira de performances, na época, a baiana Dedé Dendê, que fazia mais sucesso com seus pentelhos que com a poesia do Ulisses Tavares, rs.

Eduardo Tornaghi, que já foi o galã das novelas da Globo.

Ismael Ivo, o grande dançarino que hoje arrebata platéias na Alemanha.

Movimento de Arte Pornô
(Tirem as crianças da sala!)
(1981-1988)

 

 

Por muito menos, em novembro de 2009, os alunos da Universidade Taleban, digo, Uniban, aqui de São Paulo, quase lincharam uma mocinha por usar saia curta. Teve de sair escoltada pela polícia, foi xingada de puta, vaiada e os universitários foram à televisão dizer que ela estava “defamando” e “degrenindo” o nome da escola. Barbaridade, sinal dos tempos: alunos medievais de uma faculdade de quinta categoria.
Em tempos menos bicudos, Ulisses Tavares, Cairo Trindade, Denise Trindade, Eduardo Kac, Teresa Jardim e um bando de poetas, tiraram a roupa da poesia e as suas no Rio de Janeiro, com o Movimento de Arte Pornô. Até as crianças participavam!
E nunca foram vaiados, ao contrário. Aplaudidos e aceitos foram e marcaram a poesia conteporânea.
Embora, pensando bem, até hoje nem as faculdades de letras mais atualizadinhas, tipo pucs, usps etc., nunca tocaram no assunto. Para elas, o Movimento de Arte Pornô incomoda até agora.
Na opinião de Ulisses, este não é apenas um País conservador como de uma indigência cultural de dar dó, em todos os níveis. Do povão ao intelectual, pouca gente aceita o novo.

(Para melhor visualização clique nos quadrinhos)

Eram muitas frentes, muita pretensão, mas tínhamos pressa de mudar o mundo ou, pelo menos, nosso cenário existencial.

No palco, só pessoas que admiro até hoje.

Nesse protesto, Ulisses estava bem sozinho. Mas foi em frente. Hoje o tema é, tiquinho, mais bem aceito.

Varal de Poesias,
uma a mais no bloco
dos Poetas Unidos Jamais Serão Vencidos.

O Varal de Poesias ficou exposto na Estação Cinelândia do Metrô do Rio de Janeiro em setembro de 1986. Os anos 80 consolidaram a tendência dos anos 70, de poetas de todo o Brasil se unindo, todos por um, um por todos. Essa postura não deixou frutos bons. Virou cada panela por si, todos pela mesma panela e foda-se o resto.

Poesia Livre
Ouro Preto – MG – 1980

Durou bom par de anos esta interessante publicação que utilizava papel kraft dentro de um saquinho. Longe de encher o saco, esta galera ajudou em muito divulgar a poesia contemporânea. Muita gente boa, como Leminsky, apareceu ali antes de aparecer para todos.

 

AIDES – Antologia Indecorosa dos Escritores Sacanas
Rio de Janeiro – 1981

Em formato de jornalzinho, mais uma provocação de Cairo Trindade e dos poetas do Movimento de Arte Pornô, um tapa na cara da hipocrisia. Ah, sim, na época a Aids não tinha mostrado sua face assustadora e até permitia trocadalhos do carilho como desta antologia.

 

Encontro UNICAMP – Rebate de Pares 1980
Revista Bula – por Cláudio Portella

Em setembro de 1980, o departamento de teoria literária da Unicamp, reuniu um grupo de poetas para fazer o balanço da década anterior. Em pauta, a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal. O Encontro foi chamado de Rebate de Pares. Partes das gravações do encontro são transcritas nesta edição.

Os anos oitenta foram retratados pelo pop-rock. Setembro de 1980. Unicamp. Mesa redonda no departamento de teoria literária. Em pauta a poesia. E não poderia ser outra, senão a marginal. Os anos setenta foram retratados na poesia marginal.

Tinha inicio uma nova década. A anterior vivera o aparecimento de experimentações poéticas as mais diversas e latentes. A poesia encabeçou as manifestações de cunho políticas que mapearam a segunda fase da ditadura militar brasileira, revelando-se um caleidoscópio de possibilidades estéticas e semânticas.

Essas possibilidades exigiam do poeta um posicionamento de campo de batalha. E a poesia fazia-se presente nas universidades (não como elemento de estudo, mas como vanguarda), grafites, planfletos, cartazes, leituras coletivas e passeatas. Em decorrência desse posicionamento do poeta, nasciam grupos literários, formas de produção, edição e distribuição, imprensas marginais no contrafluxo independente ao mercado editorial, que também, implementou bastante no tocante à editoração de poesias em livros, revistas, coletâneas e jornais. Uma das grandes heranças que os poetas atuantes dos anos 1970 deixaram foi o caminho aberto as grandes editoras. Tanto é que muitos deles foram, e continuam no caso de alguns, editados nos 1980 e 1990. Todavia, há hoje, um redargüir contrário aos novíssimos poetas.

Sensível às manifestações da poesia ao longo dos anos 1970, a Unicamp organizou uma mesa redonda de dois momentos. No primeiro, os poetas fundamentais (em todos os níveis) da geração 1970. No segundo, críticos ligados à universidade que analisaram (na medida do possível) a produção dos poetas.

A intenção do departamento de teoria literária da Unicamp em promover o rebate de pares, em setembro de 1980, era, começando uma nova década, fazer o balanço da anterior. Recortar e registrar a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal.

São mais de vinte horas de gravação (possuo as fitas), onde os poetas — (Glauco Mattoso, Roberto Piva, Régis Bonvicino, Cláudio Willer, Lúcia Villares, Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Alcides Villaça, Ulisses Tavares) — apresentam-se, falam de suas poesias e discutem vanguarda. Por sua vez os críticos — (Alfredo Bosi, Benedito Nunes, Boris Schnaiderman, João Alexandre Barbosa) — abordam a poesia desde a “República de Platão” no século V a.c à “Inventário de Cicatrizes” de Alex Polari de Alverga, poeta que esteve preso durante muitos anos e que foi condenado duas vezes à prisão perpetua. “Inventário de Cicatrizes” foi publicado em 1980, quando o poeta ainda estava preso.

Transcrever mais de vinte horas de gravação seria impossível. Não ouso sequer cogitar a façanha. Intenciono mostrar alguns trechos das gravações dos poetas. Poetas que, por uma feliz coincidência de compreensão, são os que acredito verdadeiramente percussores da geração atual.

Leia mais em: Rebate de pares 1980 | Revista Bula