Década 70

Núcleo Pindaíba Edições e Debates
(1974-1994)


Na foto, o comitê do poetariado da Pindaíba, Aristides Klafke, Ulisses Tavares e Paulo Nassar (falta Arnaldo Xavier nesta foto), arma sua barraquinha em feira-livre, vendendo seus peixes poéticos.

“Nos anos 70, poetas e contistas se uniram em torno da Pindaíba (1974-1994), um dos grupos que convencionaram a identificar como “literatura ou poesia marginal”. No período mais inquietante, de 1974 a 1982, a publicou mais de 80 mil exemplares: livros individuais e antologias. Sem contar jornais, cartazes, posters, e a participação de seus integrantes em recitais, palestras e performances, que, inclusive, geraram do então Regime Militar intimações para averiguações ameaçadoras.
Se a “geração marginal” do Brasil não revelou grandes poetas e escritores – qualidade que os cânones acadêmicos sempre acabam reforçando, até hoje, a visão empresarial míope vigente no pais -, com certeza ampliou o número de leitores e fez crescer a leitura da obra de muitas “celebridades literárias”, que saíram das tiragens de mil livros, dos feudos dos suplementos lítero-compadristas (“do tu me citas, que eu te cito”) e “algumas” até do anonimato vitalício e hereditário.

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“O concretismo é o AI-5 da poesia!”
(Faculdade de Letras da USP – agosto 1977)

A conservadora Faculdade de Letras da USP reagiu super mal quando o provocador poeta Arnaldo Xavier (o mais agressivo dos quatro poetas do Núcleo Pindaíba, (formado ainda por Aristides Klafke, Roniwalter Jatobá e Ulisses Tavares), em vez de declamar, conforme combinado, fez um discurso contra o movimento concretista, comparando-o ao execrável Ato Institucional número 5, aquele que instaurou a fase barra pesada da Ditadura Militar brasileira. Foi como xingar o Papa no Vaticano! Já não se fazem debates literários acalorados como antigamente…

 

Na foto de Paulo Gil, Aristides Klafke, Paulo Nassar, Arnaldo Xavier e (deitado na estátua do Largo do Arouche-SP, atrás) Ulisses Tavares.

 

 

Dois bicudos se beijam:
Ulisses Tavares e Caetano Veloso.
(1973, São Paulo)

Os jeitos eram bem diferentes, mas a posição a mesma: oposição a caretice, a censura e a ditadura militar.
Caetano Veloso, talvez o primeiro andrógino da música popular brasileira, já dava seus pitacos na literatura e lançou seu primeiro livro, “Alegria, Alegria”, Editora Pedra Que Ronca, na Rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo, na frente da Livraria Brasiliense, em outubro de 1973.
Ulisses Tavares, editor do jornal-movimento marginal Poesias Populares, também estava lá, agitando e divulgando o proscrito tablóide.
A curiosidade é que divulgava exatamente a edição da qual a colaboração de Caetano foi recusada (“Tempo de Estio”). Ulisses e os outros editores do jornal consideraram que “Tempo de Estio” era letra de música, não literatura. E era mesmo, tanto que estourou em música no ano seguinte.
Mas zuzo bem: Caetano botou o jornal também para autografar e vender junto com seu livro.
A briga dos resistentes poetas paulistas e dos baianos odaras não era entre eles, nunca foi.
Estávamos todos no mesmo lado da trincheira.

EM SÃO PAULO, O LIVRO DE CAETANO

“Nos fins de semana, diminui sensivelmente o movimento nas ruas centrais de São Paulo. Mas naquele dia 8 de outubro, a Rua Barão de Itapetininga foi congestionada por pessoas que queriam apenas ver Caetano Veloso ou ter seu livro “Alegria, Alegria” autografado por ele. Mas as confusões não aconteceram somente em São Paulo, já que em Salvador foram requisitados os serviços da polícia, apesar do cordão de isolamento.
São Paulo foi o último local onde Caetano lançou seu livro. Além de Salvador, a Editora Pedra Q Ronca, satisfeita com a segunda tiragem de mais 10 mil exemplares de “Alegria, Alegria”, levou o autor de seu primeiro livro também ao Rio e a Belo Horizonte, onde o lançamento se deu no movimentado Edifício Maleta.

Em São Paulo, ao chegar à Livraria Brasiliense, ao meio dia, estando o previsto seria às 11 horas, Caetano disse: “Estou me sentindo numa praia”, ao mesmo tempo que tomava sua inseparável Coca-Cola. Enquanto isso, o editor Wally Sailormoon apanhava os livros, muitos pedacinhos de papel e até bandeiras do Corinthians para serem autografados. […]”

Fonte: Revista Música, a nova impressão do som, 1973.

Uma das poucas matérias sobre o assunto. Lembrem-se, meninos, a imprensa gorda estava ferozmente censurada.

 

 

 

O dia em que os poetas e os passarinhos
venceram os inimigos da natureza.
(Caucaia, SP, 26 outubro 1978)

Se vocês acham que atualmente as “otoridades” cagam e andam para o meio-ambiente, precisam ver como era em 1978.
Os fdps resolveram fazer um novo aeroporto metropolitano…exatamente na reserva floresta de Morro Grande, próxima da capital, SP.
E, quando questionados, a cínica resposta foi esta: “Ser contra o aeroporto é coisa de poeta!”
Imediatamente, Ulisses Tavares escreveu o panfleto-poema “Chamada Geral”, convocou os poetas e foram reforçar os protestos.
Coincidência ou não, o aeroporto não saiu do papel. Ufa.

 

Bixiga, o greenwiche village paulistano
na década setenta

O bairro do Bixiga, em Sampa, reduto da boêmia e da poesia nos anos setenta, hoje só boêmia com pouca poesia. O primeiro café literário da região, Café do Bixiga, abrigava recitais e eventos poéticos variados. Um paladino da poesia, o jornalista Oswaldo Costa Pepe, tinha iniciativas como esta aqui. Altas noitadas, com maconha, sexualidade e expressão bem liberadas. Ulisses, mal comparando, acha sim que o mundo ficou mais careta e chato. Até a Marcha da Maconha atualmente só acontece com aval da Justiça. Baseado em quê tanto conservadorismo?