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Mar 13

Já fui mordido por cachorro. Ene vezes. Felizmente tive de tomar vacina anti-rábica numa ocasião apenas. E foi na época em que a vacina era aplicada com várias injeções na barriga. A injeção doía mais que a mordida. Nem por isso peguei raiva (o sentimento, não a doença) dos cães.
Cachorros soltos nas ruas tinham em mim, um moleque também criado solto nas ruas, um protetor ou um alvo. Depois de grande, já ativo resgatador de cães abandonados, volta e meia levava uma mordidinha de brinde, nada grave. Coisas, digo, dentadas, do ofício.
Coices de cavalos, muitos também, quase rotina na minha temporada de sitiante plantador de cebolas na primitiva cidade de Piedade. Sem grana para o luxo de um trator, arávamos a terra com tração animal. Queria ver um desses encantadores de cavalos dos filmes e documentários convencer um cavalo xucro (especialmente mulas) a puxarem placidamente um arado. Era, com razão cavalar, corcovear e coices pra todo lado, especialmente o meu lado das coxas.
Mas minhas lembranças dos cavalos, mesmo assim, são doces e bonitas. Um deles, baio baixinho e troncudo, conhecido na região como derrubador de valentes peões, acalmava-se instantaneamente quando meu filho, então com dois anos, era colocado em seu dorso. Vinha gente de toda região se abismar com a cena. Aquele cavalo, “selvagem” entre aspas, era todo delicadeza com o menininho que se agarrava em sua crina para não cair. E, quando meu filho estava no chão, ele não deixava ninguém se aproximar do garotinho.
A seu modo, o baio era mais pai protetor que eu.
Nunca esquecerei, ainda, quando a égua do vizinho deu cria a uma éguinha manquitola. A acolhi, tratei na mamadeira e só me arrependo de tê-la deixado entrar em casa, o que ela continuou fazendo, já bem grandona, para se aquecer em frente a lareira. Limpar cocô de cachorro é fichinha perto de cagada de cavalo no meio da sala.
De aranhas aprendi a gostar e a não temer desde a infância, quando meu pai me levava para seu pesqueiro em Angatuba. Ali, tinha esses seres em todos os lugares, dentro e fora da cabana. Sei diferenciar as picadas aracnídeas e seus riscos. Quanto maior a aranha, mais dolorida, mas sem perigo. Uma pomadinha resolve. As pequeninas e rajadas podem ser até letais, eu as evitava, claro. Nunca desenvolvi o medo de aranhas, nem, ainda bem, das metafóricas, aquelas que designam os genitais das fêmeas humanas. 
Recentemente, tive uma experiência interessante com uma aranha peludona que escolheu o armário de minha despensa para trocar de pele e, dias depois, dar a luz pontinhos pretos cheios de perninhas e vitalidade.
Sumiram a mãe e sua prole, de repente, e minha admiração se fez plena ao descobrir que não sumiram minhas paçoquinhas (meu vício número mil e um) nem meu estoque de biscoitos de polvilho (meu vício número mil e dois). Isso contou pontos a favor das aranhas.
Se fosse o Homem Aranha escondido lá dentro não estaria eu tranquilo em relação a meus docinhos prediletos.
Das cobras, fui vítima apenas uma vez, nadando em uma represa lá em João Pessoa. Era uma coral. Para meu alívio, sem veneno. Morar em praias e restingas de João Pessoa, Salvador e Rio de Janeiro, me tornaram um seguidor da sabedoria prática de pescadores e mateiros: no mar, andar arrastando os pés para espantar arraias e, no mato, andar de botas e com passos pesados para espantar cobras. Cobras são cegas e “enxergam” as vibrações do solo. Se você pisa forte avisando que está vindo, elas fogem.
Aliás, de todos os bichos que conheço, o único realmente traiçoeiro e imprevisível é o bípede humano. Com esse espécime todo cuidado é pouco.
De abelhas enfurecidas (o truque é ficar parado, nada de correr, gente), a carrapatos sugadores (aqui o lance é usar um raminho de vassourinha ou erva de são joão atrás da orelha, os diabinhos grudam no raminho e esquecem sua pele), passando por insetos voadores e sugadores diversos (citronela até que funciona, pero no mucho), fui testado até por macacos sem vergonhas. Morei anos na reserva ecológica de São Lourenço da Serra e os macacos adoravam comer direto nas panelas se a gente deixava as janelas abertas. Um, mais atrevido, me mordeu a mão.
Passando seis meses nas primeiras aldeias mudadas para o Parque do Xingú, nos tempos heroicos dos irmãos Villas-Boas e dos utópicos como o tal do Ulisses aqui, foi que caiu a ficha de vez: terrível mesmo é o pernilongo. Eita, bicho chato. E enigmático.
Qualquer um que não seja bobocamente dominado pelo esteriótipo do índio romanticamente integrado e preservador da natureza (nunca vi, tirando nós, os índios civilizados, ao vivo e a cores, um comportamento mais predador que o dos índios em relação a fauna e a flora) sabe muito bem que a vida na selva é de testar a paciência de um Jó bíblico.
Não pelos perigos da natureza, que isso índio tira de letra. E tira literalmente, tanto que, sabem os geógrafos, quando os portugas predadores chegaram aqui os nativos já haviam acabado com metade da mata atlântica.
Problema são os malditos pernilongos. De todos os tipos, tamanhos e voracidade.
Eles são iguais aos nossos branquelos banqueiros: sugam nosso sangue 24 horas, sem parar.
Um inferno que nem os índios resolveram, com seus 6 mil anos de sociedade estática e comodista e repetitiva. Vão na base do tapinha mesmo ou na fumarenta fogueira.
E nem eu resolvi até hoje, em pleno século dito 21.
Antigamente, quando hippie em Parati, untava minha pele de urucum na tentativa de repelir esses pequenos leviatãs. Conseguia era ficar todo descascado e coçado.
Priscas eras, na Índia, (novamente eu, iludido, não enxergava a crueldade nua e crua grudada e disfarçada na espiritualidade indiana) vi uma solução funcional e nojenta: os saniasis, homens santos, aqueles que perambulam pelados, despreendidos ou mansos psicóticos, cobrem seus cabelos com bosta seca de vaca, repelente natural. Para eles, dá certo. Em mim, repeleria os amigos e musas.
Pano rápido, aqui e agora.
Trabalho em casa, poeta 24 horas que sou, por sobrevivência e gosto. Preferia que fossem seis horas por dia, mas daí não pago os impostos e me enchem de multas e cobranças. O feijão externo impera sobre o sonho interno. Me equilibro na lâmina da faca milenar de Eros e Tanatos.
Minha casa é pequena mas bem bacaninha, com quintal cheio de flores, passarinhos e computador último tipo.
Adoro escrever com pouca roupa, pelado se não estiver esperando visitas.
Os passarinhos citadinos de meu quintal são da geração maquidonald e preferem as frutas que coloco pra eles todas manhãs em vez de caçar os pernilongos.
A única habitante, além de mim, que trabalha nesse sentido é a tetraneta da Genovava, minha lagartixa de estimação.
Só que ela não dá conta dos enxames de pernilongos que atacam minhas partes expostas a sua sanha alimentar.
Daí, encurralado, comprei e muito uso uma raquete elétrica que eletrocuta os invasores.
Putz, pra quê?
Fiquei, como budista, espremido entre minhas convicções e minha prática cotidiana.
Budista não pode matar nenhum ser sensciente. Ou seja: qualquer ser vivo, pois todos tem a mesma capacidade de sentir prazer, dor e medo.
E o pernilongo, gostemos ou não, está nessa categoria, como todos os outros que voam, nadam, rastejam ou andam na face da Terra.
Pior é que adoro quando extermino com esses insetos. Plac, plac, bzz, bzz.
Posso estar, budisticamente falando, matando meus antepassados reencarnados.
Pesquisando, meditando e tentando saída para essa escolha de Sofia, dilema ético, não achei nada a favor dos pernilongos.
Eles, em suas mais de duas mil variações, matam (por serem vetores de doenças) cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, por ano, malária, dengue etecétera. Nas ilhas do Caribe, século 19, acabaram com todos mamíferos.
O problema é que não são eles, mas elas. Apenas as fêmeas pernilongais nos sugam, e contaminam, o sangue.
Os machos lambem e se alimentam da seiva das plantas, pacificamente.
Como é que eu posso saber se não matei o pernilongo errado para me defender?
Sei lá. É a primeira vez que odeio e ataco um animal, um ser vivo, em toda a minha vida.
Nem ainda consegui resposta para o que serve um pernilongo na cadeia alimentar natural.
Parece que pra nada, exceto seus propósitos de se perpetuar.
Um mistério a ser decifrado, já que surgiram há milhões de ano e continuam aí, como as baratas e as bundudas alienadas dos bebebês televisivos.
Fiz até um poeminha pra essa praga: “Nada sei/sobre a vidinha do pernilongo/que mato, indiferente, na parede/Mas desconfio/Que era a única que ele tinha.”
Epitáfio deles, pedido de perdão meu. 

Ulisses Tavares é um pernilongo confuso sobre seu papel no mundo. Coisas de poeta.

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Feb 11
Poema para Santiago
icon1 ulisses | icon2 Corrupção, Poesia | icon4 02 11th, 2014| icon31 Comment »

Quem segura esse rojão?

(Para Santiago Andrade e para o que resta de esperança)

 

Sabia-se e sentia-se
Que o rojão cairia
Na cabeça dos inocentes
Mais dia menos dia.
O rojão da impunidade,
Da corrupção,
Do desgoverno,
Das omissas otoridades.
E caiu em um cinegrafista,
Olho livre da sociedade.
A gota d’água
Em nosso pote
Já tão cheio de revolta e mágoa.
Quem não é bandido
Chora,
Só a bandidagem comemora.
Paz, antes que seja tarde demais.
Vem mais rojão por aí, a mil,
Aceso pelo lado podre do Brasil
Quem segura essa gente ruim
Essa tralha?
Justiça, por que tarda e falha?

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(Foto: Agência O Globo)

Nov 8

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O Negro em Versos

O que difere radicalmente os poetas desta antologia daqueles Poemas Negros, de Jorge de Lima, Raul Bopp e Gilberto Freire é que eles procuram, com um certo ponto de vista, tomar para si a causa da diferença e a diversidade, aguçadas pelo sentimento de expressar as próprias metáforas.
O que  realmente significa ser um poeta negro?
Falando do negro como a si mesmo, perguntariam alguns perplexos portadores da mesma inconsciência nacional. Essa espécie de Negromania sem a conotação prosaica do termo é uma espécie de ser negro, de falar de seus desejos, das suas dores, de seus deuses e mitos, essa forma de transcender as pedras dos caminhos, um coração ancestral que bate forte em cada homem negro estigmatizado pelo preconceito e pela indiferença.
Essa antologia pode parecer uma apologia ao apartaide cultural? Não, senhores, esses poemas e versos, em verdade, procuram o mesmo sentimento de beleza, e também e mais profundamente a razão política e consciente de gritar bem alto os nossos desejos, a nossa auto-estima, o nosso desconhecimento. A nossa ausência.
Esta antologia celebra aqui e agora com esses nossos poetas a volta aos anos sessenta, quando o mundo viu diante de si o talento da poesia negra manifestada pelo movimento da “Negritude”, falando com as novas vozes de Leopold Senghor, Aimé Cesaire e Leon Damas.
Assim, esta antologia não deixa de ser um alento para este momento de descobertas e de introduzir no cotidiano as vozes negras da nossa poesia.

Emanoel Araujo
Diretor do Museu Afro Brasil

O Negro em Versos
Organização e apresentação de Luiz Carlos dos Santos, Maria Galas e Ulisses Tavares
Editora Salamandra

Nov 1

Impostos 

Eu pago.
Tu pagas.
Eles pegam.

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Oct 23

Beagles unidos jamais serão vencidos

Meu coração vibrou com o resgate dos coitadinhos dos beagles, claro.
Mas em seguida minha cabeça deu o alerta:
No mundo inteiro esse tipo de ativismo direto, invasivo e causador de danos, infelizmente não tem dado certo.
Sem maiores considerações filosóficas (por que é evidente que os animais não poderiam, nunca, serem submetidos ao capitalismo nojento da indústria farmacêutica), ações anteriores sempre resultaram na punição dos bem intencionados.
Aqui e lá fora, a Lei fica do lado dos malvados e pronto.
Como diz o ditado americano, é a economia, estúpido!
Alguns cachorrinhos a menos para os bandidos que, em seguida, prosseguem suas experiências, lícitas mas imorais, até em maior escala.

Talvez haja um jeito porém de fazermos desse limão azedo uma limonada bem grande e doce que refresque a barra dos nossos indefesos amiguinhos de quatro patinhas:
O boicote  de todos os produtos experimentados naqueles campos de concentração tipo Royal.
Se todos nós, os bípedes humanos conscientes da gravidade e crueldade da situação, deixarmos de comprar os produtos lá testados atingiremos o único órgão sensível desse leviatã moderno: o bolso!
Então, aproveitando o impacto da recente invasão repercutindo na mídia, mudaremos o foco da discussão para o que realmente interessa.
De minha parte, começarei agora mesmo, enviando uma lista das empresas e seus produtos que fomentam esses “centros de pesquisa”.
Claro que o Sistema vai reagir exibindo seus rôtos argumentos de necessidade de testar os cosméticos e remédios em bichos para a segurança dos consumidores, blábláblá.
Que se danem: não precisamos deles.
Eles sim é que precisam de nós, consumidores.
Ou param com essa prática escrota ou paramos de dar dinheiro para seus sanguinolentos cofrinhos.
Acham que a indústria cosmética, por exemplo, não irá rever seus processos de testes quando a mulherada souber que está passando nas unhas, nos lábios e na pele, melecas resultantes do sofrimento e da morte de peludinhos inocentes?
Daí saímos dessa categoria vulnerável de ecoterroristas para a nossa real condição: a de seres humanos que amam, acolhem, respeitam, e apenas querem proteger os seres não humanos de nossa doente civilização.
Nosso desespero, e indignação, é tão legítimo que não merecemos ficar apenas na defensiva ou no ataque esporádico.
Primeiro é levantar a lista das empresas e seus produtos. Depois botar a boca no trombone, divulgar, discutir, espalhar, questionar, sem parar, o tempo todo. Até que o tempo, senhor da razão, acalme essa tempestade de insensatez que assola o único mundo que temos.
De nosso sonho, duas patas convivendo em harmonia com quatro patas ou duas asas, nossos inimigos darão risada. Da dura realidade de não ter mais lucro fácil irão chorar.
Simples mas eficiente assim. Transformar nossa fraqueza em força, a única força que o outro lado entende e respeita: a do dinheiro, do poder de comprar.
Alguém me acompanha?

Ulisses Tavares, depois de décadas de militância animal, é um dócil beagle aprendendo a morder.

Oct 17

Sep 13

Sep 2

Poesia: A melhor autoajuda 

Calma, esperançoso leitor, iludida leitora, não fiquem bravos comigo, mas ler autoajuda geralmente só é bom para os escritores de autoajuda.
Porque não existe receita para ser feliz ou dar certo na vida.
Sabe por quê?
Porque apenas você sabe o que é bom e serve para você. O que funciona pra um nem sempre funciona para o outro.
Os únicos livros de autoajuda que dá para se respeitar, e são úteis mesmo, são aqueles que ensinam novas receitas de bolo, como consertar objetos quebrados em casa ou como operar um computador.
Ou seja, lidar com as coisas concretas, reais, exige um conhecimento também real, tim-tim por tim-tim, item por item.
Com gente é diferente.
Gente não vem com manual de instruções quando nasce. Nem pra viver nem pra morrer.
E se você precisa de conforto ou de conselhos, existem caminhos bem fáceis e boa parte deles de graça: igrejas, templos, botecos ou…amigos, parentes, lembrou?
Se alguém anda necessitado de regras, palavras de ordem e comandos enérgicos sobre o que fazer, melhor entrar para o exército.
Mas se você não quer deixar ninguém mandar em você, tenha coragem e encare-se de frente.
Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas.
Elas sempre correm juntinho, coladas em você.
Tentar ser perfeito, fazer o máximo, transformar-se em outro, dói mais ainda.
Colar um sorriso no rosto enquanto chora por dentro é para palhaço de circo.
Portanto entregue-se, seja apenas um ser humano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições.
Você é um ser humano, queira ou não. Não apenas um coelhinho transador ou um japinha trabalhador. Então, aproveite e use algo que, isso sim, com certeza, é igual em todos nós:
A capacidade de imaginar, de voar, se entregar.
Se nem Freud te explica, tente a poesia.
Ah, e a poesia vai resolver teus problemas existenciais?
Provavelmente não.
A poesia às vezes é como aquele bordão do Chacrinha, não veio pra explicar, mas pra confundir.
Quando acerta é por acaso, como na vida.
Ficar confuso é o normal, relaxe e aproveite.
Você não precisa ajeitar o casamento. Precisa é amar.
Você não precisa ser super na cama. Precisa é gozar.
Você não precisa de um super salário. Precisa é gostar do trabalho.
Selecionamos alguns trechos de poemas que provavelmente falam das respostas que você anda procurando em livros de autoajuda.
Tomara que ajudem.
O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os mistérios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que onde quer que ele fosse ou olhasse um poeta já havia passado por ali.
Então, venha junto com os poetas que indicamos aqui.
O sábio Mário Quintana já dizia que um bom poema é aquele que nos dá a impressão que está lendo a gente…e não a gente à ele.
Estão todos na livraria, biblioteca ou página da internet mais próxima.
De propósito, não selecionei nenhum medalhão ou desses poetas que estão em muitos livros escolares, como eu. Poesia está mais pra lição de vida que lição de casa.
E depois vá em frente. Procure outros poetas.
Você nunca mais estará tão sozinho a ponto de achar que precisa de um livro de autoajuda para mostrar o caminho das pedras.

 

Auto-Piedade: 

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim…
(Glauco Mattoso – ”Confessional”)


Adeus amor:

Nem que a vaca tussa
Quero mais tua fuça…
Mas por dentro o coração soluça.
(Leila Míccolis – “As aparências enganam”)


Acasalamento:

Comigo é assim:
ficar olhando não basta. Vou logo
precipitando borrasca e estrela.
Que se cuide o olhar alheio quando
olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
peço café e pijama, e fico pastando
com esse olhar de boi manso
no breve espaço da cama.
(Affonso Romano de Sant’ana – “Limitações do flerte”)


Envelheci:

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.


Autoestima:

eu não preciso
que você goste
de mim
autoestima
é isso?
(Nicolas Behr – “Autoestima”)


Amar é…

noite de chuva
debaixo das cobertas
as descobertas
(Ricardo Silvestrin – sem título)


Bombando:

Não vou
morrer de enfarte
em plena festa
nem de fome
nesta fartura.
Quando sou
a última estrela que me resta,
resolvo brilhar
e aí ninguém me segura.
(Bráulio Tavares – “Palco iluminado 2?)

 

Convicção:

desta vez fiquei certamente confuso
mas disto estou certo
antes não estava certo de estar confuso.
(Cacaso – ”Espelho Mágico”)

 

De profundis:

Por dentro de mim
onde
não existo mais.
Por dentro
onde não caibo.
Tão fundo
como se não fosse.
(Álvaro Alves de Faria – “Vagas lembranças, 24?)

 

Envelhecer:

Da infância, meu amigo:
Você aventura gostoso
E nunca pensa em perigo!
Mas depois quanto mais cresço
e quanto mais envelheço
mais segurança persigo
mais aparece perigo!
(Domingos Pellegrini – ”Orações e Saudades”)

 

Indecente:

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos matam sutilmente
são muito mais imorais,
são muito mais indecentes.
(Leila Miccolis – “Ponto de vista”)

 

Meu e teu:

o meu e teu
num momento
é só meu
e teu e meu
num momento
é só teu
(Marcelo Tápia – “eu/eu”)

 

Paixão:

Aos apaixonados não faz falta o mundo.
A um apaixonado não faz falta nada.
A não ser o outro. Junto.
(Cairo Trindade – ”Exílio”)

 

Mulher de trinta:

Deus, dai-me
Paciência de novo
(eu preciso)
amor, amores, amigos
felicidade, sempre
filhos, um dia
sexo selvagem
o vil metal
e muitas viagens
(Carla Bonfim – “Oração dos trinta anos”)

 

Narcisa:

Quando me olho no espelho,
Sou pomba capaz de voos
E arrulhos.
(Raquel Naveira – sem título)

 

Ninfo:

Dia sim, feliz da vida,
passo carmim, vou pra varanda.
Dia não, bem deprimida,
deito no chão, tudo desanda.
Dia sim?
transo com todo mundo.
Dia não?
também e a todo instante.
É que em matéria de sacanagem
eu já sou bem constante.
(Laura Esteves – “Inconstante”)

 

Racismo:

Disseram: às vezes um negro compromete o produto.
Ela soube que inventaram que o povo do Brasil comprador
É branco, só pode ser branco. O branco total. O branco maior.
A não ser que amanhecesse branca…
Loura, cabelos de seda shampoo…
Mas a sua cor continua a mesma.
Ela sofreu. Eu vi. Sofri.
Luther Marketing, Luther Marcheting
Luther Marketing no Brasil.
(Elisa Lucinda – “Ashell a shell pra todo mundo Ashell”)


Tudo se repete:

travesseiro novo
primeiras confissões
a história do antigo
(Alice Ruiz – sem título)


Voo duplo:

onde vou

levo-me
onde sou
nós
voo
ao fundo
(Frederico Barbosa – “Nós/Paisagens, 4?)

 

Dicotomia:

Como você pode ver,
o lado direito da minha
boca é alegre.
O lado esquerdo é triste.
Assim também são
os meus olhos.
(Celso de Alencar – ”Fotografia rasgada”)

 

Curioso:

uma geração pulou no abismo
mas você foi mais adiante
ou saltou mais fundo
levantou a tampa da vida
para ver o que havia por baixo
para ver que não havia nada embaixo
(Cláudio Willer – “Homenagem a Dashiell Hammett”)

 

Religare:

Estou naquele estado
de religião
Tudo é maior
E sou pertencente.
(Hamilton Faria – ”Religare”)

Ulisses Tavares lançou “Se nem Freud explica, tente a poesia!”, Editora Francis, reunindo trechos de mais de 300 poetas da antiguidade até nossos dias, agrupados em verbetes sobre as grandes e pequenas questões humanas. Não é um livro de autoajuda. Mas pode até ser.

 

Aug 21

Se você quer assistir ao vídeo poema: http://youtu.be/w5bvTM4f2Yc

Se você quer comprar um destes livros:

POEMAS QUE LATEM AO CORAÇÃO – Os mais belos poemas sobre cães  Editora Nova Alexandria 50 poetas escreveram lindos poemas sobre cães, com fotos. Organização Ulisses Tavares, apresentação Luisa Mell.

POEMAS QUE LATEM AO CORAÇÃO – Os mais belos poemas sobre cães
Editora Nova Alexandria

50 poetas escreveram lindos poemas sobre cães, com fotos.
Organização Ulisses Tavares, apresentação Luisa Mell.

 

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SÓ NÃO VENHA DE CALÇA BRANCA – Cãografia autorizada de Tutty Antonio
96 pgs – Ilustrações de Nill – Editora Saraiva

A “cãografia” bem-humorada de Tutty Antonio

Tutty Antonio, um cachorro da raça English Springer Spaniel, é muito especial. Neste livro, ele abre seu coração para contar como é a vida de cachorro. Como bom observador e metido a filósofo, discorre sobre suas manias, suas brincadeiras, sua vida afetiva. É claro que não poderia deixar de falar sobre nós, os seres humanos! Uma “cãografia” autorizada e narrada a Ulisses Tavares, poeta e publicitário premiado, e escritor de estimação do Tutty Antonio.

 

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FERINHA MEL – Retratos Inesquecíveis da Infância de Um Cão
24 pgs – ilustrações de Natália Forcat – Editora Escala Educacional

Um filhote de cão para filhotes de gente.

Narrada em primeira pessoa, a obra apresenta à criança as aventuras e desventuras de Ferinha Mel, um cão da raça English Spanniel, desde seu nascimento até os dias atuais.
Tudo de forma divertida e prazerosa.
Curioso é que o personagem, Ferinha Mel, existe mesmo e é filho do Tutty Antonio, outro cachorro de Ulisses Tavares que também virou livro.

Apenas R$ 29,99 com autógrafo personalizado e remessa pelos Correios! Basta nos avisar ou ligar Telepoeta: (11) 3865-3936
Promoção válida até 01/09/2013

Aug 15

Com quem fica nossa criança de quatro patas?

Já passei por essa situação, corriqueira, mas dolorida, ene vezes. Por conta de minha sede e fome de vida plena, e por colocar o coração acima da razão, casei e descasei a perder a conta. Até aí tudo bem, nada a surpreender na vida de um poeta em tempo integral. Faria, e acabei de fazer de novo, sem pensar duas vezes.
Mulheres e musas passam. Algumas como o vento, brisas leves, outras como maremotos, tsunamis a devastar meus planos e sonhos. Todas desejadas, bem-vindas, amadas, amigas, amantes e companheiras desse navegar por um mundo hostil e consagrado ao deus mercado. Até que o navio encalha e cada um procura voltar a seu porto como der e puder, de iate, jangada, ou remando ou nadando ou andando e se lixando. De tempos em tempos, nos atracamos novamente. Porque amor não morre, apenas dorme ou fica escondido ou sonhando de olhos abertos.
O amor tem suas próprias leis, fluidas, escritas na areia da praia, das quais continuo apenas aprendiz de marinheiro.
Mas cachorros não passam. Gatos não passam. Animais de estimação nunca passam.
O que fazer com eles numa separação?
Esse é o problema. O resto é de solução bem mais fácil, embora sofrida: um vai para lá, outro vai para cá. E pronto. E ponto final ou reticências nos tribunais.
A relação entre os bípedes humanos acaba. Animais, porém, são fiéis até a morte. Instintivamente românticos por natureza. Para eles, o clichê do felizes para sempre é cláusula pétrea de seus corações felinos ou caninos, indiscutível.
É deles a superioridade de terem amor que resiste a qualquer intempérie, qualquer mudança do destino.
Agradeço sempre ter tido o privilégio de namoradas, ficantes e cônjuges, nunca criarem problemas quando o assunto era sobre quem vai ficar com o cachorro ou o gatinho.
Apenas uma ex, vingativa, para me punir, claro, descarregou sua raiva separando dois cães maravilhosos que tínhamos em comum e se adoravam.
O que ficou comigo morreu de câncer, o que ficou com ela também, pouco tempo depois. Coincidência ou aviso de tragédia anunciada? O que para nós é figura de retórica, para os peludinhos é literal: definham e morrem por abandono e falta de lar e aconchego. Tristeza e saudade nos afligem a alma. À eles, também o corpo.
Do alto, ou baixo, do que o amor e a dor me ensinam, me atrevo a aconselhar casais em vias de separação: discutam menos quem é culpado do que, quem errou de mais ou de menos, e outros quejandos que em nada contribuem para a paz futura, e se concentrem sobre o que fazer com os filhos de quatro patas e mil amorosidades e alegrias e cafunés em comum.
Nada de privar seu, ou sua, ex, de compartilhar a criança peludinha.
Entrem num acordo, como fariam se fosse o impasse sobre um filho ou filha. Filho e filho eles foram, são e serão.
Se a barra do diálogo estiver pesada, estabeleçam dias de visita, ao menos. Ou, mais bacana, deixem a porta aberta para a visita aos rabinhos balançantes.
Decidam com o coração esvaziado de raiva e frustração.
Os filhos e filhas de quatro patas amam e amarão os dois, independente de vocês não mais se amarem e se bicarem.
Animais de estimação não merecem, nunca, pagar pelos nossos erros, egoísmos e desacertos.

Ulisses Tavares pode até ser um exemplo de marido volátil. Mas nunca de um tutor ausente. Coisas de poeta.    

Separação Cachorros

Arte: Claudio Duarte

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